3 de setembro de 2026

Novela dos vinhos de inverno tem seu astro – 03/09/2026 – Isabelle Moreira Lima

Novela dos vinhos de inverno tem seu astro - 03/09/2026 - Isabelle Moreira Lima

É engraçado acompanhar uma novela enquanto ela é escrita, dá a sensação de que tudo pode acontecer. Os personagens vão aparecendo e, quem chegou depois, pode até virar protagonista. Na saga dos vinhos de inverno, a região de maior efervescência do vinho brasileiro hoje, a Sacramentos Vinifer é uma grande candidata a ter seu nome no topo dos créditos.

Com cinco anos no mercado, é tida por gente do calibre de Patrício Tapia, crítico sul-americano de maior projeção hoje, como um marco da região. “A primeira notícia dos vinhos de inverno foi a Guaspari, uma surpresa. Agora, a primeira amostra de potencial real dessa zona e desse modelo [da poda invertida] foi com a Sacramentos, que mostrou um novo caminho, de vinhos com muita elegância”, afirma o autor do guia Descorchados à coluna.

Traduzindo, enquanto a região surgiu com vinhos bem opulentos, a Sacramentos chamou a atenção com um estilo mais contido. Em sua primeira safra, a 2021, o Sabina Syrah já foi eleito o melhor tinto do Brasil pelo guia sul-americano.

Naquela ocasião, entrevistei o fundador da vinícola, Jorgito Donadelli, player do mercado imobiliário, que demonstrou surpresa, pois “só queria fazer um vinho bom para tomar com os amigos”. Hoje, quase cinco anos depois, o papo mudou: agora ele quer fazer um vinho de excelência.

Para isso, encomendou um estudo de solo para decidir onde (e como) serão plantados seus novos vinhedos — hoje tem dois hectares de syrah e sauvignon blanc na Serra da Canastra. Diz que quando Gonzalo Castro, enólogo-chefe da chilena Baron Philippe de Rothschild, entrou em uma calicata, buraco feito na terra para que se analise o que há no subterrâneo, na fazenda de Donadelli, declarou: “Una piccola Italia!”, por identificar um terroir semelhante ao Piemonte de um lado e, do outro, um ambiente que lembra a Toscana.

Enquanto a maior parte dos projetos do Sudeste está na Mantiqueira, a Sacramentos está na Canastra com uma logística complicada. Para serem vinificadas pelo uruguaio Alejandro Cardozo, as uvas viajam de caminhão refrigerado até o sul do país. Para completar, Donadelli planeja uma grande estrutura de enoturismo na região de Campinas, onde terá vinhedos e, claro, lotes imobiliários.

Em cinco anos, foi comprando ovos, ânforas e até ogivas (o chamado clayver) de concreto e de cerâmica, além de foudres e barris de diferentes madeiras. Nessa aparelhagem, faz microvinificações e testes com uvas próprias e outras da Mantiqueira e do Rio Grande do Sul para chegar ao tal vinho de excelência.

Tem sido tentativa e erro. E, para ser justa, acertos, como os que chegam ao mercado agora. O rosado Sabina Botta Di Vita (R$ 169 na loja da vinícola), um blend de pinot noir gaúcho de quatro safras, nasceu para ser vinho base para espumantes —uma nova linha feita pelo método tradicional será lançada em outubro. De tão prazeroso, virou um vinho tranquilo e estruturado, um rosado no meio do caminho entre a sutileza de um branco e a intensidade de um tinto.

Outro acerto é o Sauvignon Blanc Entre Serras 2025 (R$ 189), que mescla uvas da Canastra e da Mantiqueira com acidez brilhante e longa persistência. Foi ele o melhor branco do Descorchados 2026.

Se você quer entender a coisa do potencial que Tapia falou, prove o Sabina Syrah Seleção de Parcelas 2024 (R$ 350), que tem textura, tanino fino, muita tensão e, ainda assim, não pesa. “Há quem diga que é um Crozes-Hermitage”, diz Donadelli. Prefiro pensar que é um legítimo Serra da Canastra.



Fonte ==> Folha SP

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