“O ka, símbolo da eterna errância, é uma das figuras mais antigas da humanidade. Sempre serviu para permitir a travessia por propriedades de outros sem que o matassem. É um dos primeiros símbolos que surgem depois do caos primordial, um sinal gravado nas cascas das árvores, cavernas e megálitos que indicavam limites e pontos de passagem, nas encruzilhadas para encontrar o rumo correto e ao longo do caminho para não se perder. É um espírito vital que atravessa o espaço desde o Paleolítico até o Neolítico em muitas culturas arcaicas – na Europa, Ásia, África e Austrália – até a arquitetura do Egito antigo, quando fica registrado para sempre pela arquitetura hipogeia dedicada a ele no complexo de Karnak. Encontrei-o em El Paso/Ciudad Juarez, onde hoje se localiza a fronteira intransponível entre o México e os Estados Unidos, que sempre foi a passagem pelo Rio Bravo, o trânsito entre o sul e o norte, entre aqueles que decidiram fundar cidades e impérios no sul e aqueles que preferiram continuar vivendo em tendas nos desertos do norte. As imagens do ka dos povos que cruzaram esta fronteira durante séculos permanecem gravadas em ambas as margens do rio, nas rochas de Hueco Tanks e de Samalayuca. Durante uma longa caminhada seguindo a nova fronteira entre os Estados Unidos e o México, redesenhei a figura do ka no muro de Trump com o texto ‘Nem delinquentes nem ilegais; somos trabalhadores internacionais’. Aos soldados mexicanos que faziam guarda no local, contei a história de Caim e Abel e da invenção do primeiro muro, que os camponeses ergueram para defender suas propriedades, proteger seus campos e impedir o pastoreio dos rebanhos nômades. Esse muro foi o responsável pela morte de Abel por Caim, e estou convencido de que o gesto do ka tem algo a ver com isso. De fato, depois do fratricídio, o agricultor Caim teve que abandonar sua casa como castigo divino, transformou-se em nômade e se viu obrigado a vagar pelos desertos, como antes fizera seu irmão. Tinha medo e não sabia como atravessar os territórios estrangeiros. Deus então o ensinou a levantar os braços com as palmas das mãos voltadas a quem encontrasse para, de longe, deixar claro que estava desarmado, apenas pedia para atravessar territórios que não eram seus. Era estrangeiro, tinha fome e sede. Pedia hospitalidade” – Francesco Careri
Que desafio escrever após a extraordinária vitória do povo brasileiro sobre as trevas da extrema-direita!
Única porque imensa, resultante da aliança de progressistas, ateus, religiosos, jovens, idosos, mulheres, trans, pretos e pretas, nordestinos, LGBTQIAPN+, estrangeiros amantes do Brasil, brasileiros e brasileiras no exterior, entre muitos outros defensores da liberdade e da paz.
Na hipótese pavorosa de que o candidato da familícia tivesse vencido, eu temia ter de começar esta coluna com Finis Brasiliensis (fim do Brasil), copiando a anotação Finis Austriae que Sigmund Freud fizera em seu diário, em 13 de março de 1938, dia seguinte do Anchluss, a invasão e a anexação da Áustria pelo Reich nazista.
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O Partido Liberal e seus apoiadores, ou comparsas, se preferirem, trabalhou principalmente com inverdades: que as condições econômicas do País eram ruins, que os gastos públicos eram astronômicos, que o modelo ideal a ser seguido era o ultraliberal de Milei etc.
Uma verdadeira realidade paralela que só se sustentava pelo poder da repetição (a fórmula do ministro da propaganda de Hitler, Joseph Goebbels, para o qual uma mentira exaustivamente repetida terminava por se tornar “verdade”).
Convém notar que isso só se tornou possível graças à força das redes sociais, que passaram a ser a principal fonte de informação da população.
Paradoxalmente, o que deveria ser instrumento de esclarecimento tornou-se, de manipulação.
Nesse sentido, é interessante notar o mapa eleitoral do Rio Grande do Sul: no primeiro turno, a maioria das cidades em que Lula venceu estava na fronteira sul, com o Uruguai. No segundo turno, expandiu-se para a fronteira oeste, com a Argentina.
Isso permite supor que foi o contato com o Uruguai, país culto e com governo progressista, que favoreceu a visão dos gaúchos e gaúchas sobre a política nacional e suas escolhas.
Idem para o segundo turno, em que aumentou o número de municípios da fronteira sul em que a verdade prevaleceu, assim como aqueles da fronteira oeste puderam melhor aquilatar o desastre socioeconômico que vivem os irmãos e irmãs argentinos sob o desgoverno neoliberal.
Vale notar que esse método de produção de notícias falsas é extremamente violento, pois implica borrar os limites entre falso e verdadeiro, destruindo, assim, os princípios mais fundamentais da ética e, dessa forma, da própria política, entendida como pacto social civilizatório, mínimo.
Contra esse chorume, ergueu-se a universalidade (não foi à toa que tudo começou em uma universidade, a Federal Fluminense) e o desejo de prosperidade para todos, não apenas para os ricos – que já a gozam, a fim de que as riquezas nacionais sejam de quem as criou e preservou, de tal maneira que as futuras gerações possam delas usufruir.
Com isso, criamos não apenas consciência social, mas também histórica. Vivemos plenamente o nosso tempo, aceitamos seus desafios e riscos; a responsabilidade das escolhas — e dos erros; o desejo de dialogar e romper as cadeias da desinformação criminosa, gerada por quem nos crimes sempre chafurdou e agora, sem foro privilegiado, por eles deverá pagar — ou fugir, como fazem os covardes.
Na noite do engano, fomos luz. Essa será nossa missão pelos próximos quatro anos, por aqueles e aquelas que nos precederam, e pelos que virão depois de nós.
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
Fonte ==> Casa Branca

