26 de outubro de 2026

Liderança evangélica previu que Flávio perderia para Lula – 26/10/2026 – Juliano Spyer

Liderança evangélica previu que Flávio perderia para Lula - 26/10/2026 - Juliano Spyer

Na reta final, o campo evangélico parecia fechado com Flávio.

A apóstola Valnice Milhomens, da Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo, apoiadora engajada do senador, profetizou que “não haverá inferno que impeça o mover de Deus nesta nação”. A frase “vamos orar pelo Brasil” ecoou como código para pedir engajamento.

No centenário da Assembleia de Deus Madureira, no Maracanãzinho, o bispo Samuel Ferreira disse que pediria voto para Flávio Bolsonaro se pudesse e fez o público repetir “irmão vota em irmão”.

Nenhum pastor de grande igreja vai admitir isso agora, enquanto a direita lambe as feridas e alimenta teorias conspiratórias, mas eles não queriam Flávio e jogaram parados durante quase toda a pré-campanha. A religião só entrou em campo em setembro, quando André Mendonça tornou públicas as mensagens entre Alexandre de Moraes e Vorcaro e o contrato do banqueiro com a mulher do ministro. Mendonça incendiou a disputa; os pastores vieram depois.

Quando Jair Bolsonaro anunciou o filho, Silas Malafaia disse em vídeos e entrevistas que candidatura “não é negócio de família” e defendeu Tarcísio. Em abril, na Assembleia de Deus Belém, Flávio recebeu a oração do pastor José Wellington e, no mesmo encontro, ouviu o deputado e pastor Marco Feliciano cobrar da família Bolsonaro reciprocidade com os evangélicos, em vez de uma relação de via única.

Para esses líderes, quem venceria Lula era Tarcísio. Flávio tinha mais chance de perder e, se eleito, comprometeria o projeto de poder da direita. Pesavam contra ele a mansão de R$ 6 milhões financiada pelo BRB, os imóveis pagos com dinheiro vivo, o dinheiro de Vorcaro para o filme sobre o pai e a mentira admitida sobre os encontros com o ex-banqueiro.

Em privado, pastores comparam a família Bolsonaro à de Eli, sacerdote do primeiro livro de Samuel. Eli, como Jair, seria um homem honrado que não soube educar e conter os filhos, que roubavam as ofertas do templo e cometiam atos imorais.

Flávio tem ainda outro atrito com a liderança evangélica. Um interlocutor o descreveu como “novo crente”, termo derivado de “novo rico”: alguém que quer parecer mais evangélico do que é, usa a fé politicamente sem conhecer a Bíblia e chegou à religião por uma igreja vista como deslumbrada pelo poder, a Comunidade das Nações.

Quando enfim apoiaram Flávio, os pastores agiram com pragmatismo. Ele era o nome da direita que tinha o voto bolsonarista e chance de vencer. Somaram-se a isso a pressão dos fiéis e o interesse de estar perto de um possível presidente. Antes da arrancada de Flávio, porém, eles admitiam entre si que tinham desistido de 2026 e já pensavam em Tarcísio para 2030.

PS: Na vitória, o PT não mencionou Otoni de Paula. Conservador nos costumes e ex-cabo eleitoral do bolsonarismo, o deputado não se reelegeu ao declarar voto em Lula no primeiro turno. Mas não se entregou. Visto com desconfiança pelos petistas, pode ser útil para negociar com as grandes igrejas, algo que o PT e seus evangélicos não quiseram ou não conseguiram fazer.



Fonte ==> Folha SP

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