Em 1970, num bar de Ouro Preto, Pedro Lourenço Gomes ouviu um estudante de engenharia tocar ao violão melodias sem letra. Tinha uma batida diferente. Apresentou-se. Disse ao músico que conhecia alguém capaz de escrever as letras. Era seu colega do grupo de estudos de psiquiatria. João Bosco achou que era conversa de botequim e não deu muita importância. Meses depois, uma Kombi partiu do Rio de Janeiro com Pedro, dois amigos e o colega, Aldir Blanc. Bosco não estava em Ouro Preto (MG), mas pertinho, em Ponte Nova (MG), sua cidade.
Comeram espaguete à bolonhesa preparado por dona Lilá, mãe do violonista, segundo relato de Álvaro Costa e Silva na Folha de S. Paulo, em perfil publicado em 2013. Três músicas ganharam letra em pouco tempo: Agnus Sei, Bala com Bala e Angra. Um ourives da palavra, na definição de Dorival Caymmi, Aldir escreveria quase sempre assim, sobre música alheia já pronta, procurando as palavras certas. “Perseguindo nota por nota, botando sílaba por sílaba em cima de cada nota”, explicou ao advogado e blogueiro Eduardo Goldenberg, em 2006. Deixava a letra “bater, bater, bater” até sentir condições de escrever.
Dois documentários que estreiam no Festival do Rio no início de outubro contam a vida e a obra de um dos maiores expoentes da crônica e da música popular brasileira. Aldir Blanc – Resposta ao Tempo, de Marcus Fernando e Hugo Sukman, e Fui Olhar Você Dormir, de Anna Azevedo, trazem detalhes da vida do médico que largou o consultório para viver das letras e se tornar compositor popular. O primeiro, por meio de horas de entrevistas com Aldir, o segundo, por meio dos milhares de bilhetes de amor que deixou à segunda mulher, Mari Lúcia, companheira de 35 anos.
A medicina durou pouco para Aldir. Formado em 1971, abriu consultório na Rua da Assembleia, no Centro. “Eu não conseguia cobrar”, disse ao Globo em agosto de 1976, descalço no sofá do apartamento da Avenida Maracanã. Na mesma entrevista contou como saiu: “Larguei tudo da noite para o dia, depois do lançamento de um LP do João Bosco. Comigo as coisas funcionam muito assim, vai acumulando até um dia estourar.” No dia seguinte avisou os clientes. Um ano depois, em 1974, as gêmeas Maria e Alexandra nasceram prematuras e morreram. “Se não salvo as minhas filhas, não salvo ninguém. Tô fora”, disse Aldir. Foi o fim da carreira de psiquiatra.
Parte do repertório que ele levou para a música vinha de uma casa da Rua dos Artistas, em Vila Isabel, onde o avô português, Antônio Aguiar, praticamente o criou a partir dos três anos. Aldir descreveria os almoços de domingo dali, “com comida farta, muitas caixas de cerveja”, e disse ter criado naquela época o temperamento sardônico. As pessoas daquele entorno, que ele garantia terem existido, viraram personagens de Rua dos Artistas e Arredores (1978) e Porta de Tinturaria (1981): Esmeraldo Simpatia-É-Quase-Amor, Lindauro, Belizário, que bebia para não esquecer. Nenhum deles pedia chope do mesmo jeito. “Garçom, mais 18 sepulturas da memória!”
Nunca se interessou pelos restaurantes, mas pelos pés sujos. “Não me interessa a cozinha, não me interessa a decoração, a limpeza”, disse a Goldenberg. “Botequim é o papo.” Citava o amigo Ivan Lessa, “papo é civilização”. Das exigências sobre a mesa sobravam duas: a bebida gelada e o limão. Adorava o bar Momo na Tijuca, onde seu pai, Alceu, batia cartão todo o domingo. O Momo servia feijoada, rabada e mocotó “tudo direitinho”, com um “limão impecável” no balcão e garçons que o tratavam como parente. Restaurante, dizia não frequentar. O bar perfeito, explicava, precisava de “algumas vomitadas no canto, uma briga histórica em seu currículo e um pequeno contingente de loucas fixas. Um boteco só merece nota dez se uma morena bonita olhar de forma desafiadora enquanto abre um grampo nos dentes para afastar o cabelo da nuca suada”.
Bebia bastante. Numa entrevista, Aldir conta a madrugada em que letrava Altos e Baixos, de Sueli Costa, “cheio de vodca até a medula”. Terminou a letra, ouviu um estrondo e viu da janela um táxi em chamas enfiado num poste. Concluiu que começara o delírio. À tarde, uma vizinha bateu à porta atrás do “doutor Aldir” para socorrer a filha. Ele tomou uma cerveja e um “sossega-leão de vodca”, bochechou e desceu ao sexto andar com o estetoscópio. A moça passara mal depois de ver o táxi pegar fogo. “Então não era delírio!”
A cerveja era parceira constante, mesmo depois da censura. Em uma ocasião foi chamado ao Palácio do Catete, no centro do Rio, por causa de uma música intitulada Almirante Negro. Ouviu do censor que o problema da letra era “o negro isso, o negro aquilo”. Retrucou dizendo que era uma homenagem a João Cândido, líder do movimento conhecido como Revolta da Chibata. Saiu zonzo, tomou uma cerveja a um quilômetro dali e, com João, reescreveu a letra.
“Com base numa estratégia que havia aprendido na RCA, introduzi na letra elementos surrealistas, como baleias e polacas, entre outros, e troquei o navegante negro, ou almirante negro, por mestre-sala dos mares. Aí a música passou, mesmo falando em sangue, chibata, glória a todas as lutas inglórias e tudo mais”, disse em entrevista a José Reinaldo Marques, publicada no portal da Associação Brasileira de Imprensa. A canção virou O Mestre-Sala dos Mares, sucesso na voz de Elis Regina.
O Bêbado e a Equilibrista nasceu quando João Bosco soube da morte de Charles Chaplin no Natal de 1977. João fez um samba com passagens parecidas com a música Smile, do filme Tempos Modernos. Pediu ajuda a Aldir, que por acaso cruzou logo depois com Henfil e Chico Mário, que só falavam do irmão exilado, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. Ligou para Bosco e propôs um personagem chapliniano que lamentasse os exilados e os mortos. “Manda bala, o problema é seu”, respondeu João.
O País vivia a abertura iniciada por Geisel. A Lei da Anistia foi sancionada em 28 de agosto daquele ano, e Betinho desembarcou em Congonhas em 16 de setembro. Os nomes de Clarisse Herzog (viúva do jornalista Vladimir Herzog) e Maria (esposa do operário Manuel Fiel), mortos nos porões do DOI-CODI, viraram símbolo na voz de Elis Regina, que interpretou a canção num programa em São Paulo antes de gravá-la no LP Essa Mulher (1979). Era o País que sonhava “com a volta do irmão do Henfil /com tanta gente que partiu/Num rabo de foguete/Chora a nossa Pátria, mãe gentil/Choram Marias e Clarices/No solo do Brasil”. Virou hino da Anistia.
Torcia pelo Vasco “pra viver ou morrer”. Nos últimos anos de vida, ficou recluso no seu apartamento, com dezenas de milhares de livros. Um acidente de carro em 1991 deixou a perna esquerda de Aldir quase sem movimento, e ele não voltou ao Maracanã. A reclusão avançou com os anos. O diabetes diagnosticado às vésperas da Copa de 2010 encerrou o álcool, segundo o biógrafo Luiz Fernando Vianna. Ele chamava a bebida de muleta e repetia o aviso que ouvira de um de seus avôs: “Isso vai te ajudar, mas não vai funcionar.” Nos últimos cinco anos, segundo o roteirista Claudio Uchoa, não pisou nem no elevador.
Aldir foi internado em 10 de abril de 2020, com pneumonia e infecção urinária. O teste de Covid-19 deu positivo dias depois. A família pediu vaquinha para amigos e fãs para ajudar a levá-lo para um hospital privado, já que ele não tinha plano de saúde. Morreu na madrugada de 4 de maio no Hospital Universitário Pedro Ernesto, em Vila Isabel, o bairro das mesas de domingo que renderam crônicas e personagens.
Antes de começar a última entrevista, em 2019, pediu para gravar o epitáfio: “Faltou quase tudo”. João Bosco não quis dar entrevistas. Escreveu nas redes sociais seu adeus. “Peço desculpas aos que têm me procurado hoje. Não tenho condições de falar. Aldir foi mais do que um amigo para mim. Ele se confunde com a minha própria vida. Perco o maior amigo, mas ganho, nesse mar de tristeza, uma razão para viver: quero cantar nossas canções até onde eu tiver forças. Uma pessoa só morre quando morre a testemunha. E eu estou aqui para fazer o espírito de Aldir viver. Eu e todos os brasileiros e brasileiras tocados por seu gênio.”
Fonte ==> Casa Branca


