A lição de diplomacia de Charles 3º nos EUA – 30/04/2026 – Laura Greenhalgh

Homem de terno cinza e mulher de vestido branco caminham lado a lado em pista de aeroporto, com helicóptero verde e branco ao fundo com inscrição

No momento em que o Reino Unido desafia sua parceria histórica com os EUA ao recusar entrar na guerra contra o Irã, Charles 3º oferece a Donald Trump uma lição de diplomacia. Foi o que se viu na visita de Estado que o rei acaba de cumprir, com dois momentos relevantes em Washington.

Um deles remete ao discurso que fez no Congresso americano. Desviando de temas espinhosos, Charles construiu um curioso lugar de fala: afirmou que a ex-colônia americana, que o recepcionava, tem uma dívida histórica com o reino do qual se desligou. Insistiu na ideia dos valores compartilhados e ironizou ao dizer que os 250 anos da declaração de independência americana, celebrados em 2026, pela sua régua histórica, referem-se a algo que acabou de acontecer.

No jantar de gala na Casa Branca, distribuiu simpatias. O jornal The New York Times afirmou que, de tão à vontade, Charles fez do anfitrião um boneco de massinha para modelar. Presenteou-o com um sino dourado, em ferro fundido, vindo de algum navio HMS Trump, ativo na Segunda Guerra. O catrapoço inflou o ego de Trump, mas o rei disse que, quando quisesse falar, bastaria ligar. Fica a dúvida se o presenteado entendeu a sutileza da piada.

Envelhecido pela luta contra o câncer, Charles segue à frente de uma instituição forte e fraca ao mesmo tempo. Se 78% dos britânicos com mais de 65 anos apoiam a monarquia, apenas 32% dos jovens entre 18 e 24 anos vão nessa linha. Por outro lado, o republicanismo vem crescendo, mas tem uma adesão que não chega a 15%.

O enxugamento da família real, com redução da parentela com cargo e salário, além de corte profundo nos custos operacionais, ainda é projeto a ser implementado. Em 2025, o Sovereign Grant, dinheiro público para bancar todo esse aparato, subiu 53%. Diz a pesquisadora Laura Clancy, da Universidade de Lancaster, que enxugar é uma ideia ambígua para calar os críticos, porque no fundo nada muda.

Há os anseios independentistas —Barbados virou república em 2021, Jamaica deve fazer o mesmo e se os escoceses um dia fincarem o pé para deixar o reino, tudo se complica. Por fim, fora os vários papéis institucionais que lhe cabem, Charles ainda tem que arbitrar brigas e escândalos familiares, que alimentam a voracidade de tabloides, redes sociais e produtoras de streaming.

No livro “A Rainha e Eu”, de 1992, a escritora Sue Towsend cria uma novela ficcional em que a família real é abolida e deixa os palácios para viver num conjunto habitacional, por ordem do novo presidente. Surgem situações hilárias de nobres que não sabem lidar com zíperes e abridores de lata ou que se desesperam por não ter cavalos nem cocheiras.

Só que a soberana se adapta à nova vida a ponto de não mais querer voltar ao antigo status, caso restaurem a monarquia. O final da história é conhecido: tudo não passa de um pesadelo real, como na série The Crown, quando a rainha acorda achando que fora destronada por Tony Blair.

Sonhos também exprimem o imaginário social. O Reino Unido enfrenta desafios econômicos enormes desde o brexit, as críticas ao atual primeiro-ministro, o trabalhista Keir Starmer, só crescem, a guerra na Ucrânia se arrasta e, no entanto, a maioria dos britânicos ainda prefere acordar depois de um sonho com algum Windsor, do que de um pesadelo com um presidente chamado Nigel Farage ou Boris Johnson.



Fonte ==> Folha SP

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