24 de setembro de 2026

A máquina de desinformação opera em pleno vapor, com ingerência externa e conivência do TSE

A máquina de desinformação opera em pleno vapor, com ingerência externa e conivência do TSE

As campanhas dos dois principais concorrentes a presidente gastaram até agora fortunas com advogados. As despesas de Lula somam 4 milhões de reais e aquelas de Flávio Bolsonaro, 3,3 milhões. Não à toa, às vésperas da abertura das urnas, o candidato à reeleição e o senador travam uma guerra jurídica, com acusações mútuas de irregularidades eleitorais e pedidos de cassação da chapa alheia. O palco da batalha é o Tribunal Superior Eleitoral, a quem a última semana da disputa reserva um papel decisivo, diante do vale-tudo que se vê nas redes sociais e que tende a ficar mais encarniçado. E o TSE é ele próprio um pepino. Seu presidente, Kassio Nunes Marques, que ascendeu em Brasília pelas mãos de Jair Bolsonaro, está metido até o pescoço com Daniel Vorcaro e o caso do finado Banco Master, da mesma forma que o filho “zero um” do capitão. A situação de “KN” é tão grave que Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, defende que o colega deixe a Corte eleitoral.

Naquela sessão plenária de 15 de setembro, na qual o STF lavou roupa suja por causa das relações de Alexandre de Moraes e André Mendonça com o banqueiro fora da lei, Nunes Marques absteve-se. Alegou estar impedido de votar justamente em razão das funções no TSE. “Minha missão”, disse, “é assegurar o equilíbrio das eleições”, e “esse julgamento pode impactar o processo eleitoral.” Ele não tem sido equilibrado até aqui. Iguala-se a Mendonça, o vice-presidente do TSE, no figurino de juiz torcedor. Um exemplo. No início do mês, aceitou uma ação do time de Flávio Bolsonaro e deu uma liminar para tirar do Instagram um vídeo que expõe os laços do senador com o Master, em especial a sociedade do clã Bolsonaro com Vorcaro no filme Dark Horse. A decisão, de 6 de setembro, foi publicada no mesmo dia, 17 de setembro, em que um despacho do magistrado negou uma liminar semelhante requerida pela equipe lulista. A ação requisitava o bloqueio de um vídeo no ­Instagram republicado pelo filho 01 do capitão acompanhado do comentário de que a vitória de Lula em 2022 tinha sido dos “bandidos”.

O presidente da Corte, Kassio Nunes Marques, também ligado ao Master, fecha os olhos para os abusos da campanha de Flávio Bolsonaro

Por falar em bandidagem… Vorcaro e o Master tinham uma maneira de fazer dinheiro que dependia de decisões judiciais, daí a importância da proximidade com a toga. Compravam de algumas empresas dívidas cobradas do governo na Justiça. Pagavam bem abaixo do valor real, depois lucravam bilhões quando o Judiciário encerrava o litígio e mandava o Executivo honrar aquilo que se chama de precatório. Segundo o senador Renan Calheiros, líder na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado de um grupo investigativo do caso Master, os negócios chegaram a 30 bilhões de reais.

Um dos setores do qual o banqueiro comprou dívidas foi o sucroalcooleiro. Várias usinas de açúcar e álcool reivindicam ressarcimento federal por alegadas perdas com o congelamento de preços nos anos 1980. Na quarta-feira 23, o Conselho Nacional de Justiça mandou devolver aos cofres públicos 4,7 bilhões de reais em depósitos judiciais atrelados a precatórios de usinas. O dinheiro estava sob a guarda do Tribunal Regional Federal da 1a Região. Tinha sido o TRF1 a ordenar os depósitos, antes ainda de sentenças definitivas, uma ilegalidade, de acordo com o corregedor-geral do CNJ, Benedito Domingos. ­Nunes Marques era do TRF1 ao ser indicado ao Supremo por Bolsonaro. Quem fez a ponte entre ele e Vorcaro, o juiz ­Newton Ramos, pertence ao TRF1, conforme mensagens descobertas pela Polícia Federal no celular do banqueiro.

Nunes Marques imita André Mendonça e veste a camisa – Imagem: Arquivo/TSE

Um dos depósitos anulados por Domingos pertencia originalmente a uma usina chamada Capricho. A advogada Camilla Ramos, esposa de Ramos, tinha um contrato de 427 milhões de reais com o Master para trabalhar em causas de precatórios. Uma das ações era da Capricho. Em 3 de junho de 2025, Camilla contou a Vorcaro, por mensagem, que o banco havia vencido por 3 a 2 um julgamento no STF sobre precatório de certa usina. Um dos votos favoráveis era de Nunes Marques. “Um excelente voto”, escreveu a advogada. Em outubro de 2024, o Master triunfara no Supremo em uma ação similar pelo mesmo placar, também com o apoio do ministro. Entre um veredicto e outro, o banqueiro pagou para o magistrado mansão e camarote no carnaval, diária em hotel de luxo e prostituta, segundo mensagens no telefone de ­Vorcaro. Um mês após o “excelente voto”, o celular registrava uma conversa sobre o pagamento de 500 mil reais a um filho do atual presidente do TSE, advogado de carreira. Seria essa a explicação para o togado ter sido chamado por Mendes de “malandro” em uma conversa de WhatsApp? No diálogo, o decano do STF comentou que entendia de “tramoias”. Nunes Marques jura nunca ter votado a favor do Master, enquanto o filho sustenta ter prestado consultoria tributária a Vorcaro.

Mendes tem cutucado partidos e o Ministério Público Eleitoral para que contestem a politização do TSE e invoquem a suspeição de integrantes da Corte. Fez isso no ex-Twitter recentemente. Não citou nomes, mas está claro por outras declarações a quem se refere: Nunes Marques e Mendonça, dupla que deve ao clã Bolsonaro a toga suprema e, por tabela, o posto no TSE. “É indispensável uma atuação altiva, imparcial e apartidária” do tribunal eleitoral, escreveu Mendes. “O STF, por sua vez, continuará a atuar como instância de supervisão, com a firmeza que o momento exige.”

Renan Santos levou ao TSE a acusação de interferência estrangeira a favor da candidatura de Flávio Bolsonaro

O TSE é importante não apenas na reta final da eleição e em um eventual segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro. Já há na Corte processos capazes de terminar em cassação da chapa dos dois. Não são processos simples, com desfecho à vista. Devem estender-se para além da posse do vitorioso, em janeiro. Ou seja, o próximo ocupante do Palácio do Planalto teria uma espada sobre a cabeça, o fantasma da cassação pela Justiça Eleitoral. Bolsonaro foi condenado pelo TSE em 2023, um ano após ter sido derrotado por Lula e está inelegível até 2030.

O filho do ex-presidente pode ter a chapa cassada por causa do que tem ocorrido no Instagram, rede social descrita por integrantes da campanha lulista como a mais importante nesta eleição. O processo por abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação foi aberto pelo corregedor-geral-substituto da Corte eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cuevas, a pedido dos advogados lulistas. Uma consultoria de análise de mídias digitais, o Laboratório Formiga, descobriu um esquema no Instagram que burla restrições do TSE às redes sociais. Estas (Instagram, ex-Twitter etc.) não podem recomendar aos usuários que vejam posts de candidato. Sugestões, só a quem é seguidor do candidato. Para furar essa bolha, tem de pagar, mas aí as redes são obrigadas a informar aos usuários sobre o pagamento. Para driblar as restrições e fazer chegar mais longe conteúdo pró-Flávio, militantes bolsonaristas têm usado um recurso do Instagram denominado “collab”. Funciona assim: uma página publica um conteúdo e tem a autorização para convidar até cinco outros perfis para republicá-lo como se fosse deles. A soma das audiências das seis páginas amplia o alcance da mensagem.

Vorcaro precisava do Judiciário para ganhar dinheiro. Flávio Bolsonaro burla as regras da Justiça eleitoral e conta com o auxílio de perfis estrangeiros nas redes sociais – Imagem: Sergio Lima/AFP e Redes Sociais

O conteúdo que tem sido distribuído dessa forma é cheio de fake news e discursos de ódio contra Lula e o PT. Tudo engraxado à base de grana. Os participantes da “collab” direcionam quem acessa as postagens para um site de comércio eletrônico, a Shopee, onde há uma loja que vende material de campanha de Flávio B., entre eles bonés. O direcionamento rende comissão à turma da “collab”. E é uma forma de o senador fazer caixa, pois as vendas se revertem à campanha. Pelo mapeamento do Laboratório Formiga, usado pelo PT na ação no TSE, o esquema atingiu 147 milhões de seguidores. Detalhe: há 158 milhões de eleitores no País. O candidato direitista Renan Santos também acusou Flávio Bolsonaro no TSE de driblar a lei para ampliar o alcance de conteúdo nas redes. Nesse caso, a operação acontece no ex-Twitter, por meio de perfis estrangeiros. Santos diz que elas têm sido pagas para fazer circular em redes sociais brasileiras as previsões de uma bolsa de apostas proibida por aqui, a Polymarket. Pediu à Corte eleitoral que exclua as postagens do ar.

A ação de Santos corre aos cuidados de Mendonça. Idem um pedido do PT para neutralizar uma plataforma de vídeos que está a serviço do candidato do PL, mas esconde do público que é contratada por ele. A TV Celular é um depósito de vídeos com um acervo de quase 900 peças. Qualquer um pode baixar o material do site ou assisti-lo no YouTube. Por trás da TV Celular está a F.A.R.O. Propaganda e Publicidade, empresa com a qual Flávio B. mais gastou na campanha até agora, 13 milhões de reais. Outras duas ações do PT, com cerca de 900 páginas somadas, requerem uma série de pedidos de direito de resposta por ataques feitos pela propaganda eleitoral do senador.

O esquema serve ainda para arrecadar dinheiro para o candidato por meio da venda de material de campanha – Imagem: Redes Sociais

O “zero um” também conseguiu que o TSE abrisse uma ação para cassar a chapa de Lula. Motivo: o desfile de escola de samba do Rio de janeiro que homenageou o presidente neste ano. Os advogados do presidenciável apontam abuso de poder político e econômico e uso indevido dos meios de comunicação em favor do petista. A ação está na Corregedoria-Geral da Corte. A defesa do senador tenta ainda emplacar um processo contra o presidente por uso da máquina pública, embora neste caso não tenha havido pedido explícito de cassação da chapa. A acusação afirma que Lula usou dois atos oficiais presidenciais para fazer campanha: uma visita ao laboratório farmacêutico ­Eurofarma, na qual foi anunciado a inclusão de canetas emagrecedoras no SUS, e uma à Polícia Rodoviária Federal, onde Lula discursou sobre o combate ao crime organizado. A ação corre com a ministra Estela Aranha. O candidato do PL tenta ainda impedir, via TSE, que o presidente utilize o recente discurso na ONU na propaganda eleitoral. O caso está com Nunes Marques, que ao assumir o leme do TSE inovou: incluiu-se na lista dos integrantes do tribunal que podem relatar processos.

Com as pesquisas a indicar uma ­disputa cabeça a cabeça entre Lula e Flávio Bolsonaro, a última semana antes do primeiro turno promete ser sangrenta. Resta saber se o TSE jogará um papel digno ou se veremos um apito amigo para um dos lados. •

Publicado na edição n° 1432 de CartaCapital, em 30 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Pinóquio faz escola’



Fonte ==> Casa Branca

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