Esta semana eu li um texto que não saiu da minha cabeça, com uma tese central simples, mas, ao mesmo tempo, muito perturbadora. Dizia que as redes sociais não estão só observando os nossos relacionamentos, mas elas também estão, de alguma forma, nos treinando para nos afastar das pessoas que amamos, seja um parceiro, uma amiga, um irmão ou até a própria mãe.
A lógica, segundo a tese, é a de que hoje nenhum vínculo, amoroso, familiar ou de amizade, acontece só entre duas pessoas. Existe uma terceira presença ali, mediando tudo, calculando o que vai te manter mais um minuto na tela. Atrito, e não harmonia, é o que prende alguém na tela.
Por isso, quando um vínculo entra em crise, um casamento, uma amizade antiga, a relação com um pai ou uma mãe, o feed não mostra como resolver, mas mostra como terminar. Uma pausa maior num vídeo sobre “mãe narcisista”, “amizade tóxica” ou “parceiro que não faz o suficiente”, e, de repente, é só disso que a timeline fala. Você não pediu, mas o sistema decidiu que aquele era o seu momento de vulnerabilidade, e vulnerabilidade, para o algoritmo, é oportunidade.
O que mais me incomodou foi pensar em quantas vezes eu já chamei de “intuição minha” algo que, na verdade, era resultado da quinta vez que aquele discurso aparecia na minha tela naquela semana. A repetição faz isso com a gente, pois na segunda ou terceira exposição, a ideia já não parece implantada, parece que sempre foi nossa.
Em qualquer tipo de relação existe, hoje, uma palavra que funciona quase como um silenciador de conversa: insegurança, ou a sua versão para outros vínculos, “exagero”. Alguém expressa uma preocupação legítima com o parceiro, com a mãe, com um amigo de longa data, e a conversa, em vez de seguir, é desviada inteira para “o problema é seu, não meu”. O rótulo encerra o diálogo antes que ele comece.
Não tenho uma resposta fácil para isso, e acho que nenhuma reflexão sincera tem. Mas fico pensando aqui em quantos relacionamentos que eu conheço, ou que eu mesma já vivi, amorosos, mas também de amizade e de família, que se desgastaram não por um problema real entre duas pessoas, mas por uma narrativa que a gente absorveu sem perceber.
Essa pergunta eu deixo aberta para quem está lendo, porque eu mesma ainda não fechei essa conta. Você já parou para notar se o que sente sobre as suas relações é seu, de fato, ou se é o que apareceu para você ontem à noite, rolando o feed antes de dormir? Ainda existe espaço, no nosso tempo, para a paciência com quem amamos? Ou estamos todos sendo empurrados, com muita eficiência, para o rompimento mais rápido possível?
Como eu disse, não tenho a resposta. Mas, depois de ler aquele texto, decidi prestar mais atenção no que escolho consumir antes de decidir o que, de fato, eu sinto sobre as pessoas que amo. Talvez a primeira forma de proteger esses vínculos, hoje, seja simplesmente desconfiar um pouco mais da própria timeline.
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Fonte ==> Folha SP


