Empresas reduzem riscos, revisam projetos e priorizam eficiência operacional diante da escalada de custos de materiais, mão de obra e crédito imobiliário
O mercado imobiliário brasileiro iniciou 2026 em um cenário paradoxal: enquanto a demanda por novos empreendimentos continua aquecida em segmentos específicos, especialmente habitação popular, médio padrão e cidades em expansão fora dos grandes centros, o avanço dos custos da construção tem pressionado margens e forçado incorporadoras a reverem seus planos de crescimento.
O principal termômetro dessa pressão é o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC-M), calculado pela Fundação Getúlio Vargas. Em abril de 2026, o indicador registrou alta de 1,04% no mês, acima dos 0,36% de março, e acumulou avanço de 6,28% em 12 meses, segundo dados divulgados pela própria fundação.
Segundo a Câmara Brasileira da Indústria da Construção, com base no Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), os custos do setor acumularam alta de 5,92% em 2025, acima da inflação oficial do país, enquanto os gastos com mão de obra avançaram 8,98%, pressionando a rentabilidade de novos empreendimentos.
Nos bastidores do setor, o efeito é direto: incorporadoras têm adiado lançamentos, reduzido o tamanho de projetos e aumentado o rigor na análise de viabilidade financeira antes de tirar empreendimentos do papel.
Empresas que antes priorizavam expansão acelerada agora concentram esforços em projetos com maior liquidez, menor exposição a oscilações de insumos e cronogramas mais enxutos. Em muitos casos, terrenos considerados promissores há dois anos passaram a exigir reavaliações completas por causa do aumento de custos e das mudanças no crédito imobiliário.
Para Christian Wesley Gonzaga de Sousa, engenheiro civil da Verderello Engenharia, Incorporação e Construção Ltda. e especialista em incorporação imobiliária, o setor vive uma mudança estrutural na forma de planejar novos negócios.
“Hoje não basta ter um terreno bem localizado e demanda de mercado. Se a conta de insumos, mão de obra, financiamento e prazo de execução não fechar com precisão, o risco do empreendimento aumenta significativamente”, pondera ele.
Com experiência em infraestrutura, construção, gestão de projetos e viabilidade imobiliária, Christian afirma que o mercado está mais seletivo. “Muitas empresas estão revisando metragem, padrão construtivo e cronogramas para reduzir exposição financeira. A margem de erro ficou muito menor.”
Segundo ele, a eficiência operacional passou a ter impacto direto na rentabilidade. “Empresas que conseguem reduzir desperdício de materiais, negociar melhor com fornecedores e manter cronogramas sob controle ganham vantagem competitiva. Hoje, atrasar uma obra ou errar no orçamento custa muito mais caro do que há alguns anos.”
Christian também destaca o avanço da tecnologia como resposta à pressão financeira. “Ferramentas de modelagem, gestão de obras e controle de custos estão deixando de ser diferenciais e passando a ser necessidades básicas para quem quer manter competitividade.”
Na prática, o mercado imobiliário vive um momento de seleção natural: empresas com planejamento financeiro mais robusto, controle operacional e capacidade de adaptação tendem a crescer, enquanto operações menos estruturadas enfrentam maior dificuldade para lançar novos empreendimentos.
Em um setor historicamente sensível a juros, inflação e custos operacionais, construir continua sendo um bom negócio, desde que o planejamento seja tão sólido quanto a própria fundação do projeto.

