“Foi superlegal chegar em casa. Sabe, eu estou adorando estar aqui de volta. Estava louco para ouvir os discos, para ver minhas coisas de novo e eu estou bem feliz de estar aqui em casa. Agora vai começar tudo, mas acho que vai começar tudo superjoia”, escreveu Leonilson, em seu diário nunca publicado.
O artista acabava de chegar de uma temporada na Europa e voltava para o sobrado que dividia com amigos na Vila Mariana, na zona sul paulistana, hoje com portas e janelas pintadas de verde. No quarto onde dormia ali, o artista gravou as fitas em que narrou suas angústias com o mercado de arte, desilusões amorosas, obsessões com a cultura pop da época e, no mais cortante dos relatos, a descoberta do HIV que levaria à doença que tirou sua vida ainda jovem.
Mais de três décadas depois, outro artista retraça os passos daquele que foi um dos maiores nomes do século 20, autor de obras que espelharam uma época de dor e pânico com toda a delicadeza do mundo. Gustavo Silvamaral alugou um dos quartos para rapazes da antiga residência e está construindo ali uma instalação em diálogo com o trabalho de Leonilson, que terá também algumas de suas obras na performance-instalação —o trabalho, orquestrado pela galeria Yehudi Hollander-Pappi, em São Paulo, poderá ser visto em paralelo à feira SP-Arte, no início de abril.
Um observador ativo do mundo, como ele mesmo se define, Silvamaral já construiu instalações que lembram o auge da arte moderna com os mais reles materiais, como batatas fritas do McDonald’s que aludem aos totens do romeno Constantin Brancusi. Sua última mostra, na galeria paulistana que o representa, tinha trabalhos construídos com cigarros já fumados, taças de dry martini, entre outros resquícios de momentos felizes, ou tão felizes quanto trágicos, um pé no hedonismo, outro na autodestruição.
Essa dicotomia, a pulsão de vida que roça o perigo da morte, ou mesmo um olhar de derrota diante do espelho depois dos excessos da noite em claro anterior, também atravessa toda a obra de Leonilson. Vai de sua visão mordaz do mundo antes da doença, ele já um cronista sem freios e cheio de humor diante da mesquinhez tropical, ao momento em que ele engole tudo isso para dissecar seu próprio corpo, vítima do prazer proibido, da alegria que se torna veneno.
Voltar para casa, o lar do artista, nesse sentido parece fechar um ciclo para essa geração que amou Leonilson já em sua ausência, um espectro santificado dono de uma visão que insiste em se manter atual. Nosso mundo em frangalhos, demente e exaurido, prova que a ode à decadência, a consciência da finitude, ainda gira em vão na vitrola, a trilha sonora do abismo. Não deixa de haver nisso tudo uma beleza tão torta quanto avassaladora.
CALADO, É UM POETA Em tempos de Copa do Mundo, esta das mais polêmicas com sede nos Estados Unidos de Donald Trump, além de Canadá e México, o artista Diego Crux, um dos integrantes do coletivo Vilanismo, vai lançar na SP-Arte, uma camisa alternativa da seleção brasileira. Nas costas, só o número um e, no lugar do nome do jogador, as palavras “calado” e “poeta”. A provocação remete ao célebre embate entre Romário e Pelé, em que o primeiro disse ao maior jogador de todos os tempos que era melhor o silêncio do que seus comentários sobre a sua aposentadoria dos gramados.
De lá para cá, há mais de duas décadas, a frase virou ditado popular e agora estampa essa versão um tanto ácida da camisa canarinho. Qualquer proximidade com as eleições deste ano também terá sido só coincidência.
Fonte ==> Folha SP


