Era uma noite romântica e resolvemos abrir um barolo, um presente de aniversário de idade cheia, importante, que estava há alguns meses em casa. Não sabíamos muito sobre aquele vinho, mas sabíamos que era um vinhão. Nós éramos jovens, ele também. Harmonizamos com um filme triste e um queijo parmesão. Notas de desastre.
Este microconto é real e se existiu um culpado para o infortúnio foi a inexperiência: barolo precisa de tempo. Esse tinto italiano cheio de estrutura é um dos maiores vinhos do Piemonte, a região da Itália tida por quem manja de vinho como uma das mais complexas e especiais do país, com poder de atração comparado à da Borgonha.
No norte da Itália, o Piemonte faz vinhos varietais (ou seja, com uma única uva) com castas autóctones. No topo da hierarquia dali está o barolo, um tinto de nebbiolo que foi muito incompreendido. Um dos motivos é seu caráter profundamente tânico e adstringente quando jovem. Acontece que, com anos de garrafa, torna-se um dos mais elegantes encontrados neste planeta. Outro campeão local é o barbaresco, que costuma ser um pouco mais leve e é ideal para os que têm menos paciência, pois atinge seu ponto ideal em menos tempo.
Tida por muitos como a versão italiana da Borgonha, o Piemonte registra muita variação de terroir em seu terreno: poucos metros para qualquer direção e mudam a composição do solo e a exposição solar o que, consequentemente, muda o vinho.
Talvez essa tenha sido a chave para fazer com que a região se tornasse um dos pilares do projeto de um francês radicado no Brasil, Guillaume Verger, sócio da importadora Tanyno —os outros dois são justamente a Borgonha e Champanhe—, e que tivesse um dos catálogos mais completos e surpreendentes da região no Brasil: 19 rótulos de produtores como Giuseppe Cortese, Braida, Castello di Verduno, Claudio Alario, Conterno Fantino, Ca’ Viola e Rivetto.
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“Com três ou quatro produtores no catálogo, estaríamos mostrando só uma visão do vinho do Piemonte, onde existem movimentos, gerações e filosofias diferentes convivendo”, afirma Verger, para quem a região ao norte da Itália é também uma opção alternativa aos amantes da Borgonha que não conseguem comprar as garrafas do desejo tamanho o salto de preço dos últimos anos.
“Quem busca profundidade, elegância e identidade, mas com valor mais equilibrado, tem no Piemonte uma oportunidade. Eu vejo o brasileiro caminhando para vinhos mais elegantes, mais ligados à origem, menos marcados por excessos. E, nesse cenário, o Piemonte conversa tanto com o novo consumidor quanto com o ‘borgonhista’ experiente.”
Se é o seu caso, vale apostar em outras comunas que levam à taça diferentes expressões do Piemonte, como Langhe, Roero, Dogliani. Do catálogo da Tanyno, destaco o incrível Rivetto Kaskal Extra Brut, um espumante branco feito com Nebbiolo, que ganha cremosidade ao ficar por cinco anos em contato com as leveduras. Cheio de acidez e com ótima estrutura para comida, é capaz de impressionar os amantes de Champanhe.
Entre os tintos mais leves, são muito prazerosos o Dolcetto Diano D’Alba Superiore Sori Pradurent DOCG 2023, do produtor Claudio Alario, e o Barbaera D’Alba Bric du Luv DOC 2023, de Caviola.
Entre os Barolos, o Castello di Verduno está uma perfeição desde já, muito redondo e mostrando camadas de complexidade. O Barolo Castelletto Vigna Presenda DOCG 2021, uma grande safra, da Conterno Fantino, é recomendado aos pacientes: em 20 anos, estará perfeito.
Fonte ==> Folha SP


