16 de abril de 2026

Brasil tem relevância na prática política e na teoria marxista, diz sociólogo Marcello Musto

O primeiro rascunho do Capital, manuscrito que antecedeu a realização da obra mais relevante de Karl Marx, é publicado de forma inédita em português no Brasil. 

Organizado pelo professor de sociologia na York University no Canadá, Marcello Musto, a obra faz parte da coleção Alternativas ao capitalismo, editada pelo Grupo Autêntica.

Durante uma entrevista ao programa Conversa Bem Viver, o professor falou sobre o que o motivou a organizar a coleção no Brasil, que conta com livros clássicos do marxismo e também obras de autores brasileiros contemporâneos, como o livro Em nome da liberdade, de Juarez Guimarães.

“‘O livro do professor Juarez Guimarães e os outros livros que publicaremos nos próximos anos têm essa particularidade, ajudam a revitalizar a interpretação marxista e a ideia de alternativas, porque a ideia de alternativas é uma coisa vital que precisamos hoje. Voltar a pensar formas diferentes de construir relações econômicas sociais, formas políticas institucionais “, diz o professor Musto. 

Leia a entrevista 

Brasil de Fato: O que que te motivou a organizar essa coleção?

Marcello Musto: Há muitos anos eu já sou coordenador de uma coleção sobre Marx e o marxismo. Essa coleção é muito grande, já publicou 130 livros e tem muito mais para ser publicado nos próximos anos.

Mais recentemente, eu publiquei e comecei a publicar uma coleção que é um pouco similar dessa aqui da [Editora] Autêntica sobre as críticas ao capitalismo. Falamos de economia heterodoxa, sociologia teórica, filosofia política contemporânea. E para mim, era muito importante chegar ao Brasil com uma proposta autônoma. Isso porque nesse país, com todas as problemas, contradições, luta de classes que existem, há uma grande relevância para o marxismo. É um dos países onde há um público, uma militância que têm fome e interesse pela obra de Marx e o marxismo. Então, para mim era central apresentar uma coleção aqui também. Venho publicando livros, traduções minhas há muitos anos e estava esperando esta oportunidade para publicar uma coleção. 

E segundo, essa coleção publica coisas não publicadas antes [em português].Livros de grande êxito e sucesso. Mas também há interesse em publicar autores brasileiros ou da América Latina. A ideia é oferecer aos leitores brasileiros alguns dos melhores autores e livros internacionais e ao mesmo tempo ter uma produção centrada na elaboração da situação política desse país.

Vamos falar sobre uma das obras da coleção O primeiro rascunho de O Capital de Marx. Esse é um livro ideal para quem já leu Capital e quer saber algo a mais ou para quem ainda não leu e quer se preparar? 

Esse é um livro com duas características em relação à pergunta que você me fez. A primeira característica é contar, talvez pela primeira vez, de uma forma completa para os leitores, não só no Brasil, mas internacionais, porque, neste livro resgato, muitas publicações recentes da Mega 2. A Mega 2, para os não especialistas de Marx e a nova obra completa de [Karl] Marx e [Friedrich] Engels, que reúne todos os manuscritos e todos os cadernos de pesquisa publicados por eles. Nos últimos anos apareceram muitas novas coisas. Quem acompanha o meu trabalho, sabe que eu já fiz algumas coisas em relação ao velho Marx, isso é, nos últimos anos de pesquisa de Marx. Agora, esse trabalho faz relação à obra maestra de Marx, o Capital com todos os rascunhos e os manuscritos preparatórios.

Por que isso é determinante para entender bem Marx e o Capital? Porque se há uma palavra que pode ser associada à pesquisa de Marx, além da palavra crítica, essa pode ser inacabada. Essa pesquisa era tão grande, este projeto teórico de Marx era tão imenso — além das dificuldades que Marx teve de realizar este projeto foram grandíssimas, sobretudo de caráter econômico, porque Marx sofreu uma vida miserável por 15 ou 20 anos. E isso foi um impacto muito negativo na capacidade de trabalho de Marx, porque cada dia ele tinha que lutar contra a miséria burguesa para sobrevivência dele e da família dele e se concentrar no período da noite no trabalho da crítica da economia política e escrevia o seu livro. Lutar contra a miséria também para Marx significou ser jornalista.

Marx foi jornalista por muitos anos, 12 anos, entre 51 e 62, ele foi um jornalista muito importante do New York Tribune, que era o diário mais vendido nos Estados Unidos.

O livro tem um prefácio de Eric Hobsbawm , porque o livro foi inicialmente publicado em inglês em 2008 e foi sendo traduzido em muitíssimos idiomas, é uma grande referência da China, foi publicado no Irã, na Itália, no mundo Latino Americano, e finalmente chega aqui no Brasil também com uma edição revisitada com algumas coisas novas. Entre elas esta introdução e este epílogo, que contam a história, até dramática da escrita de O Capital. Então, na introdução, eu falo o que aconteceu antes dos Grundrisse. E no epílogo, eu falo do que aconteceu depois do Grundrisse. Quase como se fosse uma biografia intelectual da obra de Marx, não de Marx. 

E também para responder a pergunta que é sempre feita: Porquê Marx deixou o Capital inacabado?  Sempre se fala que Engels completou o segundo e o terceiro livros (1885-1894). 

O primeiro rascunho do Capital foi escrito entre 1857 e 1858,  [Marx] escreve esse manuscrito quando chegou a primeira crise financeira mundial. Então Marx entende que não há mais tempo para esperar, que ele tem que dar ao movimento de trabalhadores a interpretação crítica do capitalismo, ele escreve em 6 meses mais do que ele fez em 14 anos, porque Marx começou a estudar a economia política em 1843. Então, nesse manuscrito, Marx tem uma ideia de uma obra que é muito maior do que a obra que ele depois cortou.

E o Grundrisse é muito precioso como rascunho, como um manuscrito, porque inclui comentários, ideias, pensamentos de Marx em relação a conceito, problemáticas, temáticas sobre os quais ele nunca mais voltou a escrever ou escreveu muito pouco em relação ao plano original que ele tinha.

Marx escreve muito muitas notas interessantíssimas sobre a sociedade pós-capitalista e também neste manuscrito há muitas páginas intensas sobre o conceito de liberdade humana, que não é uma liberdade só individual, nem uma liberdade coletiva e sim, claramente, uma força crítica à liberdade do capital.

Este livro inclui uma história do marxismo que nunca foi contada antes, ou seja, a história da tradução, da disseminação, da difusão e da recepção desse manuscrito no mundo. Este é um texto que Marx escreveu para ele mesmo, mas que foi traduzido em 20 idiomas, que foi publicado em meio milhão de cópias.

Esse manuscrito foi traduzido integralmente por último no Brasil, muito recentemente, só em 2011. Então, isso permite redescobrir e reler Marx de formas muito interessantes e também muitos atuais.

Marx falava muito sobre isso, o agir. O pesquisar, divulgar, fazer reflexões profundas também, mas não dá para esperar a hora perfeita para publicar é importante e fundamental,  muitas vezes, ainda no momento de crise, que é o momento de crise do capitalismo, colocar na prática as ideias. 

Eu concordo muito. Eu gosto muito de fazer este trabalho, de desmitificar Marx, porque Marx é um autor imaginado como um deus em muitos países, que sempre tem a resposta correta sobre tudo. Eu já fiz um pouco esse trabalho no meu primeiro livro que publiquei no Brasil, Trabalhadores Uni-vos, que era uma história da Primeira Internacional. Mostrando não só em relação à pesquisa, mas ajudando também os militantes políticos que Marx mesmo tinha muitos problemas, muitas dificuldades.

E isso ajuda as pessoas a pensar a complexidade e não paralisar, no sentido de elaboração teórica, assim como no sentido da militância política. Marx mesmo tinha dificuldade de falar com uma parte muito grande da classe trabalhadora, sobretudo com os trabalhadores de fábricas que não tinham uma cultura muito desenvolvida para entrar na militância política e nos sindicatos. 

Marx é um ser humano, que tem que lutar com muitas dificuldades, com muitas condições e com um mundo externo que é tão complicado quanto o mundo da nossa contemporaneidade. 

Quero falar da outra obra já publicada da coleção que é a Em nome da liberdade, uma crítica socialista democrática ao regime neoliberal de Estado do Juarez Guimarães, como eu comentei, o professor brasileiro da Universidade Federal de Minas Gerais. O Brasil é uma experiência  a ser considerada diante do cenário internacional para o enfrentamento a essa crise do capitalismo? 

Eu acho que só um processo não funcionaria. Tem que ser as duas coisas. Ou seja, eu não estou interessado só em traduzir para o Brasil livros que foram publicados em outros lugares. Ao mesmo tempo, eu estou muito interessado em publicar internacionalmente, na minha série nos Estados Unidos, na Inglaterra, texto de autores brasileiros.

Porque muitas vezes essa gente tem um marxismo que é muito acadêmico no Norte da América, na Inglaterra, em vários outros países. Até no Japão, tem uma grande tradição de estudos de crítica de economia política, mas muito separado pela atividade política, da mobilização pelos movimentos sociais.

Então, o livro do professor Juarez Guimarães e os outros livros que publicaremos nos próximos ano têm essa particularidade, ajudam a revitalizar a interpretação marxista e a ideia de alternativas, porque a ideia de alternativas é uma coisa vital que precisamos hoje. Voltar a pensar formas diferentes de construir relações econômicas sociais, formas políticas institucionais e para fazer isso, precisamos de novas pesquisas, mas também precisamos de voltar aos clássicos que foram lidos de forma incorreta ou ainda, muitos autores que foram deixados de fora do campo marxista leninista.

Então essa é uma coleção plural, significa que estão aqui tradições marxista mas outras tradições também, para assim apresentar instrumentos a uma esquerda que quer repensar e refundar a sua teoria e práxis cotidiana.

Conversa Bem Viver

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Fonte ==> Brasil de Fato

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