Centenário de Milton Santos: contribuições do geógrafo brasileiro para a democratização da comunicação

O ano de 2026 marca o centenário de um dos maiores intelectuais do país, decisivo no movimento de renovação do pensamento geográfico na década de 1970 no Brasil. Na elaboração de uma teoria crítica do espaço, Milton Santos estabeleceu diálogos com diferentes disciplinas e reafirmou as preocupações humanistas que perpassavam as obras de importantes pensadores ao longo do século 20, como Jean-Paul Sartre, com quem realizou seu doutorado em Geografia na Universidade de Strasbourg, na França, em 1958.

Milton Almeida dos Santos nasceu no dia 3 de maio de 1926 em Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia. Filho de professores e neto de escravizados, foi alfabetizado em casa e começou cedo sua jornada profissional, que envolveria atividades acadêmicas, jornalísticas e na gestão pública. No Brasil, foi professor e pesquisador da Universidade Católica de Salvador, da Universidade Federal da Bahia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade de São Paulo, onde se tornou professor emérito após se aposentar. Intrigado com o movimento das coisas, foi preso pela ditadura militar e viveu 13 anos (1964-1977) exilado, sendo convidado para lecionar em universidades na França, nos Estados Unidos, na Venezuela e na Tanzânia.

Sua obra intelectual tem início com estudos voltados para as realidades baianas, publicando em formato de livro a sua tese de doutorado, com o título “O Centro da Cidade do Salvador: Estudo de Geografia Urbana”. Recentemente, como parte dos eventos que celebram o seu centenário, foi lançado, pela Edusp, o livro “A Bahia nos Anos 1950”, organizado por Mónica Arroyo e Flávia Grimm, reunindo artigos produzidos no início de sua carreira sobre o papel metropolitano de Salvador e nas dinâmicas regionais.

As produções do geógrafo brasileiro seguiram pela segunda metade do século 20, atentando-se às formas de disputa e ocupação do espaço por múltiplos agentes, com distintas capacidades de usar e controlar suas bases naturais e técnicas, bem como de definir e regular suas bases normativas e políticas. Em sua última obra, intitulada “Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal”, curiosamente a que ficou mais conhecida pelo público geral, fez uma análise crítica da globalização, implantada nos países periféricos a fim de ampliar a dominação imperialista.

Os meios de comunicação e seu comando no território brasileiro

Afirmando que a modernização nem sempre era sinônimo de progresso, Santos refletiu sobre o que chamou de ‘meio técnico-científico e informacional’, buscando respostas sobre a disseminação da informação e seus impactos no cotidiano. Observando as tensões entre o novo e o velho, forneceu importantes pistas para pensar a atualidade da concentração midiática por meio das dimensões materiais (tecnosfera) e imateriais (psicosfera) dos meios de comunicação e seu comando no território brasileiro.

Em primeiro lugar, importa reconhecer a violência da informação como um dos pilares do capitalismo à medida que “o que é transmitido à maioria da humanidade é, de fato, uma informação manipulada que, em lugar de esclarecer, confunde”. Apesar da crescente relevância social, o controle privado da informação por poucos atores estatais e privados — das agências internacionais de notícias às big techs — possibilita que condicionem os acontecimentos de um lugar, bem como a duração de seus eventos.

Cabe, em segundo lugar, compreender que o sistema de comunicação envolve a associação entre agentes globais, nacionais e regionais-locais, os quais compõem os territórios da mídia no Brasil. Distante da falsa premissa de que a internet levaria à democratização da mídia, as novas tecnologias da informação têm provocado o aumento das desigualdades e a diminuição da democracia e cidadania. Dessa maneira, “limita-se a possibilidade de criar, a partir dos lugares, projetos diferentes daqueles que atendem aos interesses dos agentes dominantes”.

Por fim, vale destacar que, no Brasil, assim como em diversos países da América Latina, impera uma histórica concentração midiática, qualificada em termos de localização, audiência, propriedade, falta de transparência e interferências econômicas, políticas e religiosas. A formação da mídia nacional decorre ainda de um cenário político de repressão e violação dos direitos humanos, em que, por meio de negociações com o governo militar (1964-1985), empresários do setor se beneficiaram das concessões de rádio e TV.

Contribuições para a democratização da comunicação

Chegamos ao segundo quarto do século 21 em um contexto de crises e profundas mudanças do capitalismo, porém inspirados por Milton Santos, que, ao olhar para as injustiças promovidas por Estados e grandes empresas, ancorou-se no chão da vida, na favela como centro e na força política das periferias. Em sua visão, apesar de a globalização ampliar a concentração da mídia, seria possível uma reorientação das técnicas da informação a serviço do bem-estar da população.

Em uma época em que as teorias decoloniais nem eram esboçadas, o autor buscou compreender o mundo a partir do Sul Global, debatendo outros projetos de futuro para o território nacional e a sociedade brasileira. Ao contrapor os fundamentalismos preconizados pelo neoliberalismo, cujos pilares são a competitividade e o consumo, a tirania do dinheiro e a tirania da informação, afirmou a força do lugar e da cultura popular, anunciadores de uma revanche do território.

À frente de múltiplas batalhas, permeando uma série de expressões artísticas e culturais, sujeitas e sujeitos periféricos têm se libertado e auxiliado outras pessoas a libertarem-se da passividade em relação à violência da informação, constituindo uma rede de comunicadores e movimentos populares que serão fundamentais para o iminente período popular da história. Isso perpassa diversas escalas, incluindo uma agenda Sul-Sul de promoção de vozes internacionais e meios de comunicação com vínculo ativo às dinâmicas locais.

*  Iago Vernek Fernandes é mestrando em Planejamento e Gestão do Território pela UFABC, coordenador do Observatório das Transmissões de Futebóis e associado ao Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.



Fonte ==> Brasil de Fato

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