25 de outubro de 2026

É a ira, estúpido – 25/10/2026 – Mafalda Anjos

Estátua de pedra de figura feminina com tinta preta escorrendo dos olhos, simulando lágrimas. Ao fundo, parede de pedra com grafite preto escrito

Há dias, um amigo brasileiro perguntava: “Gente, o que está acontecendo na Europa? Vocês estão reclamando de barriga cheia!”. Ele referia-se, claro, à onda de protestos que, nas últimas semanas, invadiu as ruas e exaltou os ânimos em países como Portugal, Espanha, França, Itália, Bélgica, Albânia e Grécia.

Realmente, é uma triste ironia ver o Velho Continente, que para muitos continua a representar uma promessa de vida melhor, palco de tanto descontentamento. Mas aqui estamos, com o povo zangado na rua a pedir melhores governos, mais habitação, melhor ensino e respostas para o aumento do custo de vida.

Reciclei a famosa frase de James Carville, o famoso estratega de Clinton na campanha presidencial de 1992, e respondi-lhe: “é a ira, estúpido!” (ele percebeu o trocadilho e não se ofendeu). Há uma revolta incontida, alimentada por um ressentimento com causas profundas, que ameaça as democracias liberais europeias.

Na semana passada, a revista The Economist punha a coisa, em uma dramática capa, como “a agonia da Europa liberal”. Sublinhava a situação difícil do centro político, perante restrições orçamentárias e um eleitorado cada vez mais frustrado, revoltado e disponível para experimentar alternativas radicais. O tamanho da indignação popular é tão grande que as pessoas não param para pensar —avançam em direção a quem lhes prometa soluções milagrosas.

Na Itália, Georgia Meloni já chegou ao poder. Na França, Marine Le Pen lidera as intenções de voto nas eleições presidenciais de abril. Na Alemanha, a AfD também segue à frente nas pesquisas nacionais e já conseguiu uma importante vitória nas eleições regionais da Saxônia-Anhalt. Um trio que seria fatal para a União Europeia.

A verdade é que os cidadãos deixaram de confiar nos partidos do sistema, porque acreditam que o sistema deixou de lhes oferecer oportunidades, representação e segurança.

Em 2023, Martin Wolf, comentador-chefe do Financial Times, traçava a falência do capitalismo democrático que veio com a quebra de promessas. Quando a economia deixa de proporcionar oportunidades e prosperidade suficientemente partilhada, os cidadãos perdem confiança não apenas nos governos, mas na própria democracia.

A desigualdade e insegurança econômica transformam-se em revolta política, o que favorece a captura e o descrédito das instituições e abre espaço a demagogos autoritários.

Acabo de ler o ensaio biográfico de Francis Fukuyama, com o título “O Último Homem”, onde recupera os últimos capítulos do famoso livro de 1992 em que analisava “O Fim da História”. Neles, já explorava as diferentes maneiras como a democracia liberal se poderia afundar no futuro e como adiar esse fim benigno.

Fukuyama explica que o processo histórico é sobretudo orientado por uma luta por reconhecimento e que o extremismo que vemos, à direita e à esquerda, é uma revolta contra os horizontes achatados que foram criados pelas sociedades liberais.

Fala de uma ira populista que não tem como objetivo encontrar um conjunto alternativo de instituições que corrijam os erros percebidos, mas que quer apenas derrubar o máximo da ordem existente. E, infelizmente, esta ira já leva meio caminho andado…



Fonte ==> Folha SP

Leia Também

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *