Para chegar em Tânger, onde iriam encontrar Mick Jagger e Marianne Faithfull, Anita Pallenberg e Keith Richards atravessaram o estreito de Gibraltar numa balsa, levando o Bentley empoeirado com que viajaram pela França e Espanha. Lá, hospedaram-se no suntuoso El Minzah. Fundado em 1930, o hotel tem um bar de vinhos com as paredes pintadas de vermelho e um de coquetéis, onde a dupla dos Rolling Stones teria experimentado o piano de cauda em frente ao balcão.
Àquela altura (1967), Marrocos era um destino com aura boêmia entre europeus e estadunidenses à busca de aventuras —e isso não só por conta do filme “Casablanca”. A onda começou 20 anos antes, quando o escritor e compositor Paul Bowles foi morar em Tânger e viajou pelo Saara para escrever “O Céu que Nos Protege”, clássico pré-beatnik, depois filmado por Bertolucci.
Os beats passaram a visitar a cidade do mestre e amigo. Allen Ginsberg, William Burroughs, Gregory Corso, mas também Truman Capote e Tennessee Williams. Além de exotismo e da música hipnótica (ouça The Master Musicians of Jojouka), Tânger oferecia sexo e drogas com certa liberdade. Era um lugar de escape, sem polícia, advogados e editores para importunar.
Tomavam chá de hortelã, a bebida tradicional do país, também chamada ironicamente de uísque berbere, e fumavam kif e haxixe —eventualmente se embriagavam com vinho ou gim tônica, em meio a espiões, diplomatas e comerciantes estrangeiros.
Ainda que seja de maioria muçulmana, o Marrocos, cuja seleção enfrenta o Brasil neste sábado, é um dos maiores produtores de vinho da África. O álcool não é proibido, mas não se bebe em público. Para tanto, há bares licenciados, restaurantes e hotéis. E existem lojas e supermercados onde se vende todo tipo de bebida.
Bowles lançaria outro romance que se passa todo em Tânger. “Let it Come Down” narra o mergulho de um turista nas esquinas ambíguas da cidade, numa espiral de excessos sem volta. O célebre “Almoço Nu”, de Burroughs, acontece na alucinada Interzona, que foi inspirada na zona internacional de Tânger, antes da independência do Marrocos, em 1956. Até então, o país era dividido em protetorados franceses e espanhóis.
Esses são, é evidente, pontos de vista ocidentais, portanto contaminados por pré e pós-conceitos. Há grandes escritores marroquinos, pouco ou nada traduzidos por aqui, entre eles Mohammed Choukri, autor do muito elogiado “Le Pain Nu”, e Tahar Ben Jelloun, conhecido por “A Criança de Areia” .
Marrocos também produz cervejas —ao menos três marcas são conhecidas (Casablanca é uma delas). Produz ainda um “vinho cinza”, descrito como um rosé menos forte. E tem seu próprio destilado, a mahia, tradicionalmente associado à comunidade judaica. É feito a partir de figos e uvas, e aromatizado com anis. Quem experimentou diz que lembra a grappa. A ver.
Tea in the Sahara
- 45 ml de mahia (ou grappa)
- 60 ml de chá de hortelã
- 20 ml de suco de limão-siciliano
- 10 ml de água de flor de laranjeira
- Calda de tâmara a gosto
Bata os ingredientes com gelo e coe para um copo marroquino. Decore com folhas de hortelã.
Fonte ==> Folha SP


