20 de março de 2026

Em São Paulo, coletivo Cine Fluxo leva arte, inclusão e redução de danos às ruas do centro

Aliando o cinema à política de redução de danos, o coletivo Cine Fluxo atua desde 2021 na região central de São Paulo. O grupo composto atualmente por cerca de 20 pessoas utiliza a linguagem do cinema como ferramenta de reinserção social, afeto e resistência junto a pessoas que enfrentam a dependência de substâncias químicas e estão em condições de alta vulnerabilidade social.

Com um carrinho de supermercado adaptado, equipado com bateria de carro, projetor e caixas de som, o Cine Fluxo circulava pelo antigo território da chamada Cracolândia, na rua dos Protestantes, e exibia filmes. Além dos curtas-metragens com pipoca e suco, o coletivo também distribuía insumos de redução de danos, como piteira, camisinha e kit de higiene.

Igor Mariwaki, um dos idealizadores do coletivo, destaca o uso do audiovisual para que pessoas em situação de vulnerabilidade desenvolvam o “valor do pertencimento”.

Segundo ele, o cinema e a literatura permitem “ver a vida pelos olhos de outra pessoa” e auxiliam no processo de “enxergar uma outra saída” para quem vive em contextos de exclusão. Dessa forma, o trabalho envolve o autoconhecimento e pertencimento.

O Cine Fluxo circulava pelo antigo fluxo da chamada Cracolândia. – Reprodução/Luca Meola

Em 2024, com o apoio da Lei Paulo Gustavo de Incentivo ao Audiovisual, o coletivo adquiriu equipamentos profissionais, além de garantir verba para alimentação, insumos de higiene e redução de danos. 

Essas medidas possibilitaram a expansão das sessões de cinema para outros territórios, como a Favela do Moinho, o Largo do Arouche, a Ocupação Mauá e a aldeia indígena Tekoa Itakupe, no Pico do Jaraguá. Essa itinerância impactou o coletivo e seus integrantes ao ampliar repertórios, fortalecer vínculos e incorporar aprendizados a partir do contato com diferentes territórios e modos de vida.

Em 2025 o Cine consolidou parcerias com o Museu da Língua Portuguesa, realizando ações no Festival PopRua, duas edições do projeto Luz na Tela e a participação no Encontros Dissidentes. 

Projeto Luz na Tela no Museu da Língua Portuguesa, em março de 2026. Créditos: Luca Meola.

O projeto “Luz na Tela” ocupa o auditório do museu com exibições de filmes, frequentemente com entrada gratuita e foco no território da Luz. A ação que segue em 2026 foi destaque do coletivo neste mês de março e estimular a produção cinematográfica da região da chamada “Boca do Lixo” e estabelecer o contato entre o Museu, parceiros, moradores locais e a população em situação de rua do centro da cidade. 

O termo Boca do Lixo foi atribuído pela imprensa policial ao bairro da Santa Ifigênia devido à presença de grupos marginalizados pela sociedade na época. Posteriormente, produtoras de cinema ocuparam a área, transformando-a em um centro de cinema na cidade de São Paulo com a realização de filmes independentes entre as décadas de 1960 e 1980. 

Cineastas como Ozualdo Candeias, José Mojica Marins e Rogério Sganzerla realizaram trabalhos nesse período e localidade.

Exibição de documentários no antigo fluxo da Cracolândia. Créditos: Luca Meola.

“Para nós é sempre uma emoção atravessar as portas de um museu e entrar numa sala de cinema. Ainda mais quando levamos conosco as histórias, os corpos e as vozes do nosso território. A sala estava lotada e a noite foi atravessada por emoção, encontros e escuta. Que venham outras parcerias, outras telas acesas na noite, e muitos filmes capazes de emocionar, fazer pensar e abrir nossas mentes”, destacou a organização em uma postagem no Instagram sobre uma das exibições ocorrida no dia 5 de março deste ano.

‘Uma família’

Nascido no Guarujá, em 1991, Renato Oliveira Júnior, conhecido como Renatinho, está na Cracolândia há pelo menos oito anos e soma dezenas de internações. Ele participa de projetos e coletivos que atuam no centro de São Paulo construindo vínculos por onde passa.

Integrante do Cine Fluxo há cerca de cinco anos, ele vêm se capacitando na área do audiovisual a partir das aulas de história da arte e roteiro. Renatinho aponta como o Cine o auxilia a diminuir o uso de substâncias como o álcool. “É bom porque enquanto eu estou atuando, o outro está filmando, aí depois eu vou lá filmar, aí depois eu vou lá segurar a luz, ou então vou ficar na sonoplastia.” 

Oficina de captação de imagens do Cine Fluxo. Créditos: Luca Meola.

As oficinas de roteiro e captação de vídeo culminaram na divulgação de um filme chamado “A Rua É Preta”. O filme acompanha, durante dois meses, a construção do cortejo que celebra o Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro de 2025. 

Com abordagem poética, a narrativa passa pelos bastidores, desde a montagem artesanal das máscaras e os exercícios de cinema até o dia do evento na rua. Uma obra na qual os próprios integrantes do coletivo, assumindo diversas funções, contam a história de como podem mobilizar a comunidade.

“Ao documentar a construção do cortejo, o filme registra um ritual de potência coletiva. Cada máscara produzida é um rosto que se afirma, cada exibição é uma oportunidade de ouvir e ser ouvido, talvez a maior necessidade das pessoas em situação desfavorecida pelo Estado. A Rua é Preta discute o direito à alegria, à memória e à produção de imagens próprias, reafirmando que a ocupação do espaço público pela arte é o exercício mais profundo da cidadania”, conta Igor Mariwaki.

Hoje o Cine Fluxo vive um momento de desenvolvimento dos próprios participantes, como afirma o idealizador. “Passamos a desenvolver oficinas de cinema, convidando os próprios participantes a contar suas histórias e a atuar em todas as etapas da realização audiovisual, atuação, câmera, roteiro, direção de arte e produção.” 

Esse movimento representou um salto qualitativo no projeto, diz ele. “A partir dele, fomos caminhando no sentido de uma construção mais horizontal, com objetivos mais claros e compartilhados. Sedimentando, assim, a realização de um trabalho autoral, com filmes de ficção e documentários”.

Um outro participante das oficinas do coletivo, que não quis se identificar e que está no território da Cracolândia desde 2012, identifica o Cine Fluxo como uma “família”: “É minha família de verdade, meu compromisso. Eu aprendo muito aqui. Assisti os melhores filmes da minha vida aqui.”





Fonte ==> Brasil de Fato

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