A morte de um patriarca costuma funcionar no teatro como um divisor de águas: cessa a autoridade central e emerge a necessidade de inventariar o passado. É sobre essa premissa que se estrutura a peça “Entre Irmãos”, escrita por Otávio Martins e dirigida por Marcos Damigo. A montagem, que reúne Martins e Fernando Pavão em cena, celebra a amizade de longa data do trio criativo ao transformar um velório no cenário para o embate entre dois irmãos afastados há duas décadas e meia.
A dramaturgia adota uma estrutura baseada em vetores opostos de comportamento, dividindo os argumentos de forma equivalente entre as personagens. O irmão mais velho, interpretado por Otávio Martins, assumiu a responsabilidade de cuidar da casa e do pai idoso, construindo sua trajetória sobre a renúncia dos projetos pessoais e o acúmulo de um ressentimento focado no abandono familiar. Em contraposição, o caçula, vivido por Fernando Pavão, tornou-se fotojornalista internacional e utilizou a distância geográfica como mecanismo de defesa contra o ambiente paterno.
A tensão entre o dever assumido e a fuga voluntária expõe visões conflitantes sobre a mesma história. Enquanto o mais velho enxerga a carreira do caçula como covardia, o mais novo aponta a conivência do irmão que permaneceu diante das falhas e excessos do pai. O confronto ganha complexidade quando uma revelação sobre o passado vem à tona durante a vigília, alterando a percepção que ambos mantinham sobre a dinâmica familiar.
A direção de Marcos Damigo opta pelo minimalismo visual. Sem cenário figurativo, caixão ou objetos tradicionais, a encenação apoia-se estritamente na presença dos atores e no texto para sugerir o ambiente fúnebre. Uma opção estética de grande plasticidade e que funciona em diferentes arquiteturas teatrais, como agora, no espaço de convivência do Teatro Vivo. A reconfiguração para um formato imersivo eliminou a fronteira entre palco e plateia, permitindo que o público testemunhe a atuação em escala próxima e tátil.
A iluminação de Beto de Faria utiliza o contraste entre luz e sombra para delimitar os momentos de embate direto e as pausas de reflexão. A dimensão sonora, concebida por Ricardo Severo, conta com a execução do violoncelo de Ana Eliza Colomar, cujas frequências graves funcionam como um contraponto aos silêncios da cena, marcando a transição entre a ironia inicial e a gravidade dos conflitos.
Além do entrevero familiar, a obra lança luz sobre as limitações de comunicação na socialização masculina. O texto expõe como a dificuldade de expressar vulnerabilidade faz com que o afeto seja frequentemente substituído pela agressividade verbal, pelo sarcasmo e pela cobrança moral. Com a morte do pai, a possibilidade de um ajuste de contas com a figura geradora do trauma é extinta, restando aos irmãos a mediação mútua. Ao dispensar ornamentos cenográficos, a montagem concentra o foco na palavra e na interpretação, articulando o luto não apenas como a perda do patriarca, mas como o abandono das certezas que sustentavam o afastamento de ambos.
Três perguntas para…
… Otávio Martins
A peça parte do velório do pai para desencadear o reencontro das personagens. Por que a finitude do patriarca é esse motor tão recorrente — e ainda eficiente — para desorganizar as certezas familiares?
Quando minha mãe morreu, ouvi uma frase que resume muito o que se passou comigo: “é um buraco que nunca fecha, você só aprende a desviar, mas sempre estará lá”. Acho que a questão da ancestralidade é inerente aos núcleos familiares. Esse lugar de chefia, dentro de uma família, vem de uma cultura hierárquica, seja ela matriarcal ou patriarcal.
Há uma ruptura, é um rei deposto, um criador morto, e isso desorganiza a estrutura da própria família. Muitas vezes, a convivência entre irmãos só acontece pela existência de um pai ou uma mãe.
Na peça, a morte do pai é, ao mesmo tempo, o fim de uma autoridade e o fim de uma versão compartilhada da história familiar. Enquanto o pai vivia, ele era o ponto de referência que mantinha as narrativas individuais sob controle. Cada filho mantinha sua versão dos fatos porque ainda existia alguém “acima”, mesmo que silenciosamente.
É a figura do patriarca, do mantenedor, daquele a quem é denominada uma estrutura de suporte na família. A morte desse rei faz com que as versões colidam, porque obriga fisicamente os personagens a estarem no mesmo espaço, num momento em que as máscaras sociais como o luto, o decoro e a presença de estranhos deixam tudo mais frágil. O velório é um ritual público com dor privada, e essa fricção expõe o que ficou soterrado.
A montagem circulou por espaços com arquiteturas muito distintas, do proscênio tradicional de salas como a Faap ao formato imersivo do Teatro Vivo. O que muda na entrega dos atores quando a plateia deixa de ser espectadora distante e passa a ser uma testemunha tátil?
O formato italiano nos trazia dentro de uma caixa preta, com duas lâmpadas num cenário que era preenchido pela imaginação do espectador. A distância do proscênio permite ao ator construir uma partitura corporal e vocal totalmente diferentes do que no que estamos fazendo no Teatro Vivo.
A proximidade da plateia faz com que gestos mínimos ganhem peso, e o que era subtexto pode virar exposição involuntária se o ator não recalibrar a economia corporal. A plateia deixa de ser cúmplice silenciosa e vira quase uma terceira testemunha do velório, o que muda a temperatura emocional da cena de abertura, em especial. O espectador vira parte da obra.
O texto expõe a dificuldade de comunicação entre dois homens criados sob a exigência da autossuficiência. Na sua visão, o conflito entre esses irmãos fala mais sobre o ressentimento individual ou sobre essa incapacidade estrutural de expressar afeto?
O texto usa o ressentimento como sintoma visível de uma incapacidade estrutural mais profunda. Os dois irmãos não brigam por fatos específicos, mas porque nunca tiveram vocabulário afetivo para nomear o que sentem, e o ressentimento é a forma disponível que essa dor toma quando não pode virar palavra direta. Isso se relaciona com a exigência de autossuficiência que você mencionou, de que homens treinados para não precisar de ninguém tendem a converter necessidade em acusação.
Teatro Vivo – Avenida Chucri Zaidan, 2.460, Vila Cordeiro, região sul. Sexta e sábado, 20h. Domingo, 18h. Até 13/9. Duração: 75 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. A partir de R$ 40 (meia-entrada) em sympla.com.br
Fonte ==> Folha SP


