22 de outubro de 2026

Família se defende com políticas públicas – 22/10/2026 – Priscilla Bacalhau

Família se defende com políticas públicas - 22/10/2026 - Priscilla Bacalhau

Quando engravidei, não quis saber o sexo do bebê. Jamais vou esquecer a emoção daquele instante em que meu bebê nasceu e descobri que era uma menina. Começava ali a minha jornada de ser mãe de menina, num mundo nem sempre gentil com as mulheres.

Durante alguns meses, tive o privilégio de me dedicar exclusivamente a cuidar da minha filha. Foi um período fundamental para conhecê-la e atender às suas necessidades, mas, ainda assim, pareceu insuficiente.

Como eu, milhões de mães brasileiras gostariam de passar mais tempo com seus bebês. Trabalhadoras registradas no mercado formal podem usufruir de pelo menos quatro meses para, além de cuidar da criança, se recuperar do processo físico que a trouxe ao mundo. Os benefícios desse período de cuidado nos primeiros meses de vida são associados a um melhor desenvolvimento infantil, trazendo efeitos no desempenho escolar e até mesmo na renda futura desse indivíduo.

Esses benefícios, porém, nem sempre são reconhecidos por quem toma decisões públicas. O senador Flávio Bolsonaro, em 2009, quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, fez questão de destacar ter sido o único parlamentar a votar contra a ampliação de quatro para seis meses a licença-maternidade para servidoras estaduais. Na ocasião, justificou seu voto com o argumento de que a medida poderia reduzir as oportunidades de emprego para as mulheres, o que não se aplica ao serviço público.

Esta não foi a única posição do senador, agora candidato à Presidência, contrária a medidas de proteção e promoção dos direitos das mulheres. Ainda como deputado estadual, cargo que exerceu por quatro mandatos, Flávio foi, novamente, o único deputado a votar contra a punição a estabelecimentos ligados ao turismo sexual. À época, o deputado justificou que a “mulher brasileira é um patrimônio turístico do nosso país”, uma declaração que reduz as mulheres a um atrativo a ser explorado, em vez de reconhecê-las como cidadãs titulares de direitos. Ele também se opôs à restrição do porte de arma para policiais acusados de violência doméstica.

Já no Senado, posicionou-se contra o projeto de lei que estabeleceu a igualdade salarial entre homens e mulheres que exercem a mesma função. Também votou contra a recriação do Ministério das Mulheres e se absteve na votação da PEC que tornou o feminicídio um crime inafiançável e imprescritível. E, em 2024, seu nome constava como equipe de defesa do policial militar acusado de assassinar a menina Ana Clara, de 5 anos, numa comunidade em Niterói.

Diante desse histórico, não basta que um candidato à Presidência afirme respeitar as mulheres e defender a família. É preciso avaliar o que suas decisões revelam sobre as prioridades que pretende levar ao governo. A defesa da família não pode se limitar ao discurso: deve se traduzir em políticas que apoiem quem cuida, ampliem as oportunidades das mulheres e enfrentem a violência de gênero.

Proteger nossas meninas e mulheres não é responsabilidade exclusiva de pais e mães. É também um dever do Estado, por meio de políticas públicas que garantam segurança, autonomia e oportunidades para que todas possam desenvolver suas potencialidades. Essas políticas não surgem espontaneamente. Isso depende das escolhas que fazemos nas urnas.



Fonte ==> Folha SP

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