Vivemos um momento em que fugir das nossas responsabilidades deixou de ser uma escolha. Foi com essa convicção que aceitei estar na inauguração do Obama Center, e logo percebi que não se tratava apenas de financiar um programa. Eu me engajei em um movimento.
Um chamado de Michelle e Barack Obama para resgatar o espírito da liberdade americana e devolver vida à democracia de um país que influencia o mundo inteiro. Não por acaso, esse chamado nasce em Chicago, no South Side, onde Michelle cresceu e a família se formou —prova de que toda grande mudança começa pelo lugar a que pertencemos.
Não sou americana. Contudo, como cidadã no mundo, vi em cada solenidade do qual participei um espelho. A história de onde os Estados Unidos vieram, onde estiveram e para onde desejam ir revela perguntas que pertencem a todos nós.
Que futuro queremos construir? Onde desejamos estar? O que cada pessoa pode fazer pela própria comunidade para chegar lá?
Eu era a única representante da filantropia brasileira naquele espaço. Carrego essa responsabilidade com gratidão e o compromisso de transformar o aprendizado em algo maior para o nosso país. Levar a visão de uma nação do Sul Global para uma mesa dessas é parte do que entendo como dever de quem tem acesso.
Ao meu redor estavam três ex-presidentes americanos, George Bush, Bill Clinton e Joe Biden, ao lado de lideranças internacionais como Justin Trudeau e Angela Merkel. Pessoas de trajetórias e posições distintas reunidas pela mesma pergunta sobre o tipo de sociedade que queremos sustentar.
Essa imagem já dizia muito. Democracia não se preserva no isolamento. Ela floresce no encontro, no diálogo e na disposição de trabalhar junto, mesmo diante das diferenças.
Barack Obama falou sobre colaboração com uma clareza que me marcou. “Ainda que o trabalho do centro seja apartidário, ele não é neutro em relação a valores”, disse ele em um de seus discursos.
Depois contou como o espaço é dedicado a histórias de lideranças inovadoras, oferecendo as ferramentas e o apoio necessários para que ampliem seu impacto.
Ouvir aquilo foi reconhecer, em outra língua e outro contexto, a mesma causa que me move todos os dias. No Beja, acreditamos que mudança real não nasce de gestos isolados nem de soluções rápidas. Ela se sustenta quando construímos ecossistemas e formamos pessoas capazes de manter a transformação viva ao longo do tempo.
Programas terminam, enquanto pessoas preparadas seguem adiante, multiplicam o que aprenderam e fortalecem o território onde atuam. É assim que o impacto deixa de ser pontual e passa a ser permanente, transferindo capacidade no lugar de apenas recursos.
Volto deste encontro com uma certeza renovada, uma crença ainda maior no que carrego para o trabalho cotidiano. O futuro não é algo que se recebe pronto. É resultado de escolhas feitas com responsabilidade e coragem, dia após dia, dentro de cada comunidade.
A liberdade e a democracia que admiramos em outros lugares também são tarefas nossas, e o Brasil tem muito para contribuir nessa construção, desde que estejamos dispostos a assumir nosso lugar.
Pertencer ao mundo significa cuidar dele, e a filantropia brasileira pode transformar inspiração em prática e aprendizado em legado para as próximas gerações.
Fonte ==> Folha SP


