Entre territórios marcados por desigualdades históricas e pela construção de redes comunitárias próprias, a formação política e técnica de lideranças negras segue ganhando espaço no Rio Grande do Sul. A segunda etapa do Programa Potências Negras, promovido pela Frente Negra Gaúcha (FNG), inicia nesta quinta-feira (14), em Porto Alegre, com uma proposta centrada na qualificação de iniciativas já existentes nas periferias e no fortalecimento da atuação política e social nesses espaços.
Com inscrições abertas, a nova edição amplia o escopo da formação ao incorporar conteúdos voltados à elaboração de projetos sociais e à captação de recursos, com o objetivo de ampliar a autonomia financeira de lideranças comunitárias. Ao todo, serão ofertadas 160 vagas, distribuídas entre atividades presenciais e online.
A iniciativa conta com financiamento do Ministério da Igualdade Racial, por meio de emenda parlamentar da deputada federal Daiana Santos (PT/RS), além de parcerias com o Instituto Social 10 e o Centro da Juventude Cruzeiro.
A aula inaugural ocorre no bairro Medianeira, com participação do professor Juliano Guedes, que abordará a incidência política e o fortalecimento territorial, e da deputada Daiana Santos, que tratará da participação política das juventudes.
Formação e incidência nos territórios
A proposta do programa parte do reconhecimento de que muitas lideranças já atuam em suas comunidades, ainda que enfrentem dificuldades para acessar mecanismos institucionais de financiamento. A presidente da Frente Negra Gaúcha, Vanessa Mulet, afirma que a nova etapa busca responder a essa lacuna ao oferecer ferramentas práticas para o desenvolvimento de projetos.
Segundo ela, a formação anterior esteve centrada no letramento racial e na base política, enquanto a atual edição avança para a dimensão técnica. A avaliação da entidade é de que o acesso a recursos públicos e privados ainda se apresenta como um obstáculo para iniciativas comunitárias, o que limita a continuidade e a expansão de ações locais.
A proposta do programa, nesse sentido, articula formação política com capacitação técnica, com foco na ampliação da presença de lideranças negras em espaços de decisão e também no campo econômico.
Metodologia e resultados da primeira edição
De acordo com a coordenação técnica, a primeira edição do programa reuniu 321 lideranças e registrou uma taxa de 68% de participação efetiva entre os inscritos ativos. A avaliação apresentada pela organização indica que esses números refletem o engajamento com a metodologia adotada, baseada em uma pedagogia social afrocentrada.
A coordenadora técnica Lilian Conceição da Silva aponta que a estrutura do programa foi construída a partir de uma governança intelectual negra, com equipe formada majoritariamente por mulheres negras com experiência em educação e direitos humanos. O material didático utilizado também foi desenvolvido especificamente para a iniciativa, abordando temas como consciência histórica, representatividade e letramento racial.
A metodologia, segundo a coordenação, combina referências acadêmicas com saberes construídos nos territórios, buscando estabelecer uma conexão entre experiências históricas e práticas contemporâneas.
Nova etapa amplia foco técnico
A segunda edição do programa foi estruturada a partir de demandas identificadas junto a lideranças comunitárias. De acordo com a coordenação, a principal necessidade apontada foi o acesso a conhecimentos técnicos que permitam transformar iniciativas locais em projetos estruturados e financiáveis.
O eixo central da formação passa a ser a elaboração de projetos sociais e a captação de recursos, incluindo a compreensão de editais, mecanismos de financiamento e estratégias de sustentabilidade. Além disso, o conteúdo programático inclui temas relacionados ao mundo do trabalho, como perfis comportamentais, propósito profissional e trajetórias de carreira.
A organização informa que a atuação do programa se concentra nas áreas de cultura, educação e produção de conhecimento, consideradas estratégicas para o desenvolvimento comunitário e para a valorização das experiências negras nos territórios.
Participação
O programa irá oferecer, ao todo, 160 vagas, sendo 80 presenciais. As aulas presenciais iniciam nesta quinta-feira (14), das 15h às 17h, no Centro da Juventude Cruzeiro, em Porto Alegre, com aula inaugural ministrada pelo professor e especialista em letramento racial, Juliano Guedes, sob o título Potências Negras com foco na incidência política e no fortalecimento territorial. Também participa a professora e deputada Daiana dos Santos, que irá falar sobre A Importância da Participação Política das Juventudes.
As aulas online serão realizadas de 3 a 29 de junho. São oferecidas 80 vagas online e as inscrições podem ser feitas até 30 de maio, por meio do link.
Fonte ==> Brasil de Fato


