24 de setembro de 2026

Gustavo Scarpa (Atlético-MG), uma fazenda e muitos livros: histórias de quem escolheu ler

Desde as primeiras marcas entalhadas nas paredes das cavernas, a humanidade encontrou maneiras de registrar ideias, histórias e memórias. Vieram os desenhos, os símbolos, os alfabetos, a escrita em diferentes suportes e, séculos depois, a imprensa. O que começou nas pedras ganhou o papel e se espalhou pelo mundo.

Hoje, em meio a telas que disputam a atenção a cada segundo, ainda há quem escolha virar uma página em vez de deslizar o dedo pela tela. Entre essas pessoas está um jogador de futebol conhecido por milhões de brasileiros: Gustavo Scarpa, meio-campista do Atlético Mineiro.

O próprio jogador reconhece que a leitura funciona, para ele, quase como uma pausa diante da velocidade da vida moderna. 

“A leitura consegue dar uma pausa nisso tudo”, afirma Scarpa, em entrevista ao Brasil de Fato MG, ao falar sobre a rotina marcada por conteúdos rápidos, vídeos curtos e pelo hábito de passar a tela do celular sem necessariamente chegar ao fim de alguma coisa.

Gustavo Scarpa, nas suas redes sociais, indicando livros – Reprodução/YouTube/@scarpinha

A relação do jogador com os livros, no entanto, não começou na infância. Scarpa conta ao que, antes de 2019, havia lido apenas a biografia de Steve Jobs, ainda na sétima série. Foi naquele ano, por incentivo de Pedro Jatene, então estagiário do Palmeiras, que a leitura entrou de vez em sua rotina.

A ideia era simples: Scarpa ganharia livros de acordo com os gols e as assistências que fizesse em campo. Antes mesmo de a aposta começar, ganhou O Médico e o Monstro. Gostou. Depois vieram Kafka, Dostoiévski, Machado de Assis e livros cristãos.

“Quando percebi, já tinha entrado de vez nessa vida de leitor”, conta.

A história poderia ter ficado apenas entre o jogador e suas estantes. Mas, como acontece muitas vezes quando um hábito pessoal encontra uma comunidade, a leitura ganhou novos leitores. As recomendações feitas por Scarpa começaram a chegar aos torcedores, e a ideia acabou furando a bolha do futebol.

Foi assim que nasceu a Galeitura, clube de leitura criado por torcedores a partir do interesse pelas indicações do jogador. Atualmente, o projeto reúne quase 100 mil seguidores nas redes sociais. Nesta quinta-feira (24), o Atlético-MG lançou a camisa oficial da iniciativa. 

Scarpa diz que sabia que era uma pessoa influente, mas não imaginava que uma indicação de livro pudesse ganhar tamanha dimensão.

“Fico muito feliz em receber mensagens positivas de fãs que voltaram a ler por causa desse incentivo”, afirma. “Nunca passou pela minha cabeça que a torcida fosse comprar a ideia de criar um clube do livro”.

A influência chegou até Daphine Drumond, estudante de 18 anos da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). A leitura já fazia parte de sua vida por influência da mãe, mas a Galeitura abriu novas portas.

Ela conta que passou a se interessar por gêneros que antes não chamavam tanto sua atenção. Atualmente, lê “Pessoas Normais“, de Sally Rooney, atraída pela forma como a obra apresenta relacionamentos e sentimentos.

Daphne Drumond, lendo o livro Pessoas Normais, de Sally Rooney – Foto: Arquivo pessoal

Para Daphine, o livro também é uma espécie de exercício de identificação. “Através dos personagens, consegui ver que um problema podia, sim, ter solução”, conta.

O problema, muitas vezes, é encontrar tempo

Daphine costuma ler à noite, quando a rotina permite. É um dos poucos momentos em que consegue parar, relaxar e ficar concentrada em uma história. A pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, divulgada em 2024, ajuda a dimensionar esse desafio: o número de leitores no país caiu de cerca de 100 milhões, em 2019, para 93 milhões. A média de livros lidos também diminuiu, de 4,95 para 3,96 por ano.

Entre os entrevistados pela pesquisa, 75% disseram que gostariam de ter lido mais. A principal razão apontada para não conseguirem fazer isso foi justamente a falta de tempo.

É nesse intervalo apertado do dia que outros leitores tentam encaixar algumas páginas.

Quando o livro também é uma forma de se reencontrar

Aos 67 anos, Francisco Alves e Silva, aposentado e morador da capital mineira, vive uma relação diferente com a leitura. Para ele, voltar aos livros também significa tentar recuperar um hábito que acabou perdendo espaço para as telas nos últimos anos.

Francisco conta que, desde a pandemia, passou a ler menos. O medo provocado pela covid-19 e o que ele descreve como um período de grande abalo pessoal fizeram com que a leitura desse lugar ao consumo frequente de conteúdos na internet. Agora, ele tenta fazer o caminho de volta.

“Estou despertando o livro em mim”, resume.

Francisco Alves, lendo seu livro em casa – Foto: Arquivo pessoal

A retomada acontece principalmente à noite. Entre as obras que escolheu para esse reencontro está “Tomara que você seja deportado”, do jornalista Jamil Chade, que Francisco decidiu reler diante do cenário político que acompanha atualmente.

Ele relaciona a releitura às discussões sobre imigração nos Estados Unidos e às ameaças que, em sua avaliação, podem afetar a soberania e a democracia brasileiras. Francisco também afirma que a leitura o ajuda a compreender melhor o momento político e as possibilidades que enxerga para o país. Ele procura nos livros um espaço para organizar os próprios pensamentos.

A relação de Francisco com a tecnologia, portanto, não é de rejeição completa. Ele reconhece que a internet pode ser uma ferramenta importante, mas chama atenção para aquilo que considera o consumo excessivo e pouco crítico de conteúdos.

Para ele, o problema começa quando a pessoa deixa de escolher o que consome e passa a apenas deslizar de um conteúdo para outro. É nesse ponto que o livro reaparece.

“Livros, de bons autores, nos acalmam e nos ensinam a viver o silêncio e a educar os pensamentos”, afirma.

Francisco enxerga a leitura como uma maneira de recuperar a concentração, refletir e voltar a se perceber como sujeito ativo diante do mundo.

“Descubro, ou melhor, eu me redescubro como ser pensante e útil ao mundo à minha volta”, conta.

Um livro no intervalo do almoço

Para a instrutora de academia Jennifer Horrana, de 33 anos, moradora da RMBH, o horário do almoço pode ser também o horário da leitura. Ela tenta transformar o hábito em rotina, mesmo reconhecendo que nem sempre consegue. Quando o trabalho fica mais tranquilo, ou durante o intervalo para o lanche, ela abre espaço para os livros.

Atualmente, lê “A fascinante construção do eu”, de Augusto Cury, autor que acompanha há bastante tempo.

Jennifer Horrana na academia, lendo o livro  A fascinante construção do eu , do escritor Augusto Cury – Foto: Jean Silva

“Desperta o meu pensar sobre personalidade, atitude, sobre o nosso psíquico”, explica.

Jennifer poderia escolher alguma das muitas opções disponíveis no celular. Mas, para ela, o papel continua tendo seu lugar.

“Mesmo com tantas opções de leitura virtual, eu não abro mão de estar com o livro físico em mãos”, afirma.

Para ela, a leitura não é apenas entretenimento. É uma maneira de ampliar aquilo que pensa e sente. 

Scarpa encontra nos livros uma espécie de freio para a velocidade dos conteúdos digitais. Jennifer preserva o papel. Francisco busca o reencontro. Daphine encontra nos personagens novas maneiras de olhar para situações da própria vida.

E, no interior de Minas Gerais, dona Inez Maciel, de 75 anos, encontra nos livros algo que acompanha sua história há décadas: uma forma de compartilhar conhecimento e deixar a leitura atravessar gerações.

O cheiro do livro e as histórias da fazenda

Moradora de uma região tranquila de Baependi, no Sul de Minas, Inez mantém uma relação quase afetiva com os livros. Depois do almoço, quando consegue descansar um pouco do trabalho na fazenda, costuma pegar alguma obra que esteja por perto.

Atualmente, relê “Eu sou Malala”, autobiografia de Malala Yousafzai. A história da menina paquistanesa que defendia o direito das mulheres à educação a marcou. Inez chegou a contar a história para um aluno. A reação do menino também ficou guardada na memória.

Dona Inez em sua casa em Baependi, no sul de Minas – Foto: Arquivo pessoal

“Eu falei assim: ‘Olha, fulano, vocês hoje têm preguiça de estudar, de ler. Olha essa menina’. Aí eu contei a história da menina para ele. O menino ficou apaixonado”, sintetiza.

Ela também guarda um carinho especial pela autobiografia de Agatha Christie, que deixa sempre por perto para reler alguns trechos. Mas, se existe algo que explica sua relação com os livros, talvez seja a maneira como fala deles.

“Eu prefiro muito mais o livro. Eu não gosto de ler pelo celular, pela internet, pelo tablet, nada. Eu gosto de pegar num livro. Eu gosto daquele cheiro do livro. Eu quero o livro assim na minha mão, como companheiro meu mesmo”, ressalta.

A expressão “companheiro” talvez seja uma das melhores maneiras de entender o que os livros representam para Inez. Eles não estão apenas em uma estante. Fazem parte da casa, da família, das lembranças e até das brincadeiras com os filhos.

Ela conta que lia histórias para os três filhos ainda na barriga. Depois que nasceram, cada um desenvolveu suas próprias preferências: Branca de Neve, Bambi, Lobo e os Sete Cabritinhos.

As histórias saíram das páginas e foram parar nas festas de aniversário, nas encenações dentro de casa e nas brincadeiras.

Hoje, a influência continua. Os três filhos cresceram, tiveram seus próprios filhos e, segundo Inez, os netos também gostam de ler. Cada um tem uma pequena estante ou prateleira de livros no quarto.

Neto de Inez lendo seu livro – Foto: Arquivo pessoal

Uma das cenas contadas pela filha resume essa herança. Certa manhã, antes mesmo de o café ficar pronto, uma das netas já estava na sala, acordada e lendo sozinha.

“Então, o caminho é por aí”, conclui Inez.

Uma história que virou livro

A relação dela com a leitura também ultrapassou o papel de leitora. Quando se formou, Inez estudou uma disciplina chamada “Educação para o lar”. Ao começar a dar aulas, percebeu que havia um problema: não existia material didático adequado para trabalhar com os estudantes. A solução veio de onde ela menos poderia esperar: escrever o próprio livro.

Inez convidou uma colega para participar do projeto, mas recebeu uma negativa. Decidiu fazer sozinha. O livro didático “Educação para o lar” acabou se espalhando pelo Brasil. Ela ainda se recorda da alegria de viajar a Belo Horizonte duas vezes por ano para receber os direitos autorais.

“Foi uma satisfação enorme. Esse foi um acontecimento maravilhoso na minha vida”, alegra-se.

A história ajuda a explicar por que Inez fala da leitura como algo que transforma. Para ela, ler não significa apenas acumular informações. “Sempre que a gente lê, a gente vira outra pessoa”, reafirma.

É uma transformação discreta, feita página após página. Às vezes, acontece no sofá depois do almoço. Outras vezes, no intervalo do trabalho, antes de dormir ou durante uma pausa entre um compromisso e outro. Pode acontecer também depois de uma indicação feita por um jogador de futebol.

Scarpa diz que não sabe afirmar se a leitura aumenta diretamente sua concentração dentro de campo. Mas sabe o que sente quando lê: felicidade. E acredita que isso, por si só, já produz efeitos em sua vida.

Gustavo Scarpa – Reprodução/YouTube/@scarpinha

“Por estar mais feliz, acredito que isso me ajuda diretamente no futebol”, diz.

No celular, na sala de uma casa na Região Metropolitana de Belo Horizonte, durante o almoço de uma trabalhadora ou depois de um dia de trabalho em uma fazenda no Sul de Minas, o livro continua encontrando espaço.

E, quando encontra, ainda pode fazer aquilo que Inez aprendeu ao longo da vida: virar uma história compartilhada com outra pessoa.





Fonte ==> Brasil de Fato

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