Mindelo, ilha de São Vicente, Cabo Verde.
Nos tempos que correm, dá para escrever sobre Trump todas as semanas. Precisamente por isso, é um ato de resistência não escrever sobre Trump todas as semanas. A vida ainda existe, e o mundo ainda está lá fora, ela com toda a sua generosidade, ele com toda a sua abundância.
Demorei mais de trinta anos para vir ao Mindelo, a segunda maior cidade de Cabo Verde, na ilha de São Vicente, que só foi habitada a partir do século 19 e que se tornou, a certa altura, a capital cultural do país —e não só. Dei tempo para me apaixonar por outras ilhas de Cabo Verde, em particular a do Fogo, a minha primeira, sobre a qual já escrevi aqui, porque sabia que Mindelo seria amor à primeira vista. Como foi.
Mas para justificar uma coluna sobre Mindelo não basta o amor. É preciso também o interesse, que para o leitor poderá ser o fato de que Mindelo é o ponto de fusão mais perfeito entre Europa, África e América do Sul, sendo tudo isso ao mesmo tempo, sem ser nada disso isoladamente.
Como se diz numa música de Carnaval daqui, “São Vicente é um Brazilim”, ou seja, um “Brasilzinho”, na língua crioula que se fala nestas ilhas. Em si mesmo, isso é um enorme paradoxo, porque o Brasil é enorme.
E São Vicente, a ilha, e a sua capital, Mindelo, são um “Brasilzinho”, um Brasil condensando, pequenino, o que é uma impossibilidade prática, mas ao mesmo tempo dá para imaginar o Brasil a partir do buraco da agulha que é uma cidade de setenta mil habitantes perdida numa ilha no meio do Atlântico tropical.
Ao contrário de praticamente todas as ilhas restantes de Cabo Verde, São Vicente só foi habitada mais tarde porque não tinha fontes de água doce. Mas quando os barcos passaram a ser a vapor, o seu porto de águas mansas era o ideal para armazenar carvão que possibilitava fazer a travessia para o Atlântico Sul.
A abertura dos portos brasileiros e a independência do Brasil fizeram com que os barcos principalmente britânicos passassem a aproveitar esta ilha para fazer a sua aguada, a provisão de água potável que o navio precisa ter para a viagem, e daí nasceu essa cidade que, além do recorte colonial português e da influência britânica, passou a acolher os passageiros (e muito particularmente os marinheiros) que vinham do Brasil para a Europa.
Essas paradas deixaram influências culturais perenes. Na literatura, o movimento “Claridade”, fundado por intelectuais das ilhas a partir dos anos 1930, tinha como um dos seus pontos de referência a obra dos grandes autores brasileiros, do século 19 ao modernismo.
Lá Fora
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Mas sobretudo na música, em que as mornas e coladeras, como se chama aos estilos musicais respetivamente mais lento e melancólico ou mais rápido e divertido, têm inspirações evidentes da música brasileira, muito em particular do chorinho.
Num país em que às vezes dá a sensação que a cada três cabo-verdianos há um músico excepcional e pelo menos mais um bastante bom, o que se faz hoje tem uma criatividade muito própria e para lá de qualquer influência.
Todo o mundo conhece Cesária Évora. Deixem-me sugerir-vos Acácia Maior. Agradeçam-me depois. O que é interessante em Cabo Verde está bem para lá das influências que as ilhas receberam e muito mais nas lições que elas podem nos dar hoje.
Fonte ==> Folha SP


