Especialista afirma que respeito às diferenças deve fazer parte da cultura escolar para reduzir episódios de bullying e garantir o desenvolvimento de estudantes com transtornos do neurodesenvolvimento e outras necessidades educacionais
A educação inclusiva tem avançado no Brasil, impulsionada por uma legislação que garante o direito de estudantes com deficiência à matrícula no ensino regular. No entanto, especialistas alertam que um dos maiores desafios das escolas ainda está além da acessibilidade física ou da adaptação pedagógica: construir uma cultura de respeito capaz de combater o preconceito, a exclusão e o bullying.
Segundo o Censo Escolar 2024, do Ministério da Educação (MEC), mais de 2 milhões de estudantes da educação especial estão matriculados na educação básica, sendo a maioria em classes comuns do ensino regular. O crescimento das matrículas representa um avanço importante nas políticas de inclusão, mas também amplia a responsabilidade das escolas em promover ambientes seguros e acolhedores para todos.
Esse cuidado torna-se ainda mais relevante diante da presença crescente de estudantes com transtornos do neurodesenvolvimento, como o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), deficiência intelectual e outros quadros que podem exigir adaptações pedagógicas e apoio especializado.
Para a pedagoga e psicopedagoga Luanna Alves Carvalho, a inclusão só acontece de forma plena quando o estudante também se sente pertencente ao ambiente escolar. “Não basta garantir uma vaga na escola. A criança precisa sentir que faz parte daquele espaço, que é respeitada pelos colegas e compreendida pelos educadores. O sentimento de pertencimento é fundamental para o desenvolvimento emocional e para a aprendizagem.”
Entre os obstáculos mais recorrentes está o bullying. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde, mostra que uma parcela significativa dos estudantes brasileiros relata já ter sofrido algum tipo de intimidação ou humilhação por colegas. Crianças e adolescentes que apresentam diferenças comportamentais, cognitivas ou físicas estão entre os grupos mais vulneráveis a esse tipo de violência.
Para Luanna, muitas situações de exclusão começam de maneira sutil e, por isso, precisam ser identificadas precocemente.
“O preconceito nem sempre aparece em forma de agressão direta. Muitas vezes ele se manifesta quando a criança deixa de ser convidada para brincar, é ignorada pelos colegas ou passa a acreditar que não pertence ao grupo. Esses sinais também merecem atenção.”
Além dos impactos na aprendizagem, estudos mostram que o bullying está associado ao aumento do risco de ansiedade, depressão, baixa autoestima, isolamento social e evasão escolar, reforçando a necessidade de ações preventivas dentro das instituições de ensino.
Na avaliação da especialista, combater esse problema exige um trabalho contínuo de educação para o respeito.
“As crianças aprendem a conviver com as diferenças quando os adultos dão esse exemplo. A escola precisa promover uma cultura em que diversidade seja compreendida como algo natural, e não como motivo para exclusão.”
Segundo Luanna, esse processo deve envolver toda a comunidade escolar.
“A responsabilidade pela inclusão não é apenas do professor da sala de aula. Gestores, equipe pedagógica, funcionários, estudantes e famílias precisam compartilhar o compromisso de construir um ambiente acolhedor.”
A psicopedagoga também destaca que conhecer os transtornos do neurodesenvolvimento contribui para reduzir estigmas e interpretações equivocadas sobre determinados comportamentos.
“Quando compreendemos por que uma criança age de determinada forma, deixamos de enxergar aquele comportamento como falta de educação ou desinteresse. O conhecimento diminui o preconceito e fortalece a empatia.”
Ela ressalta que a informação é uma das ferramentas mais eficazes para transformar o ambiente escolar.
“Falar sobre inclusão desde cedo ajuda todas as crianças a desenvolverem respeito, solidariedade e capacidade de convivência. Essas competências são tão importantes quanto qualquer conteúdo acadêmico.”
A legislação brasileira também reforça esse compromisso. A Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) garante o direito à educação inclusiva em igualdade de oportunidades e determina que o sistema educacional adote medidas para eliminar barreiras à participação dos estudantes. Já a Lei nº 13.185/2015, que instituiu o Programa de Combate à Intimidação Sistemática (Bullying), estabelece que escolas desenvolvam ações permanentes de prevenção, conscientização e enfrentamento dessa forma de violência.
Para Luanna, promover inclusão é investir na formação de uma sociedade mais justa. Na avaliação da especialista, o combate ao bullying e à exclusão não depende apenas de regras disciplinares, mas da construção diária de relações baseadas no respeito.
“A verdadeira inclusão acontece quando nenhuma criança precisa esconder quem é para ser aceita. É nesse ambiente de acolhimento que ela consegue aprender, desenvolver sua autoestima e construir relações saudáveis ao longo da vida”, conclui.


