Jovens brasileiros preferem IA a pais para dúvidas íntimas – 29/05/2026 – Papo de Responsa

Dois jovens sentados no chão, cada um olhando para seu celular. Ao fundo, fios coloridos entrelaçados formam um padrão geométrico. O jovem à frente veste camiseta branca e o outro, ao fundo, veste roupa escura.

Tenho três filhos: uma menina de dez anos e um casal de gêmeos de nove. Faltam pouco mais de três anos para que entrem na adolescência, e escrevo este artigo com o relógio correndo na cabeça.

Adolescentes hoje fazem perguntas a uma inteligência artificial que talvez jamais fariam aos pais. Identidade, sexualidade, saúde mental, religião e propósito —para citar apenas alguns temas.

Em milhões de casas brasileiras, a primeira presença a receber a confissão íntima de um jovem já não é mais humana. Não tem corpo. Não envelhece junto. Foi otimizada para que a conversa não termine.

Não se trata apenas de tempo de tela nem de mais um pânico tecnológico recauchutado. É algo categoricamente novo na história da espécie. Pela primeira vez, o interlocutor primário durante a formação da identidade pode não ser humano.

A psicologia do desenvolvimento sustenta, há mais de um século, que identidade não é algo simplesmente descoberto —é algo negociado.

Erik Erikson definiu a tarefa central da adolescência como a tensão entre identidade e confusão de papéis, resolvida apenas na fricção com o outro. Lev Vygotsky descreveu o outro mais experiente como o andaime sobre o qual o pensamento próprio se constrói.

Ao longo de toda a história humana, esse “outro” foi alguém, em jogo, com pele. Mãe, avó, professor, padre, vizinho. Pessoas com valores, contradições, tempo finito e interesse genuíno no jovem que tinham diante de si.

A IA não é nada disso. É paciente quando o pai se cansa, neutra quando a mãe julga, disponível quando o amigo dorme. E, ao mesmo tempo, é uma ferramenta corporativa, calibrada por engenheiros que o adolescente nunca conhecerá.

A conversa difícil sobre sexo no jantar, a fofoca cruel da escola, a vergonha de errar em sala de aula; tudo isso compunha sistemas imperfeitos, muitas vezes ruins, às vezes até traumáticos. Mas eram fricções constitutivas.

A identidade adulta é, em larga medida, a cicatriz deixada por essas fricções. A IA remove a fricção. Nunca julga, nunca trai, nunca se cansa, nunca traz a violência contida (e, por vezes, saudável) de quem ama o suficiente para discordar. Ela pode estar, inclusive, produzindo identidades que nunca foram testadas pela resistência real. Identidades de estufa.

Os primeiros estudos longitudinais robustos sobre redes sociais e adolescência só começaram a produzir evidências sólidas mais de uma década após a adoção em massa dessas plataformas. Quando soubemos, a geração afetada já tinha votado, casado e ocupado cargos.

A IA conversacional entrou na vida dos adolescentes em escala global nos últimos 24 meses. Os efeitos sobre a regulação emocional, tolerância ao conflito interpessoal e autonomia cognitiva só serão claros por volta de 2045.

Minha filha mais velha terá 29 anos. Os gêmeos, 28. Quando soubermos, a geração afetada já estará formulando políticas públicas —provavelmente com a ajuda da IA.

Não há órgão regulador olhando isso com seriedade. Não há pediatra perguntando sobre inteligência artificial na consulta. Não há diretrizes pedagógicas formuladas. Não temos sequer as perguntas certas.

O que acontece com a tolerância à ambiguidade quando, entre os 13 e os 18 anos, toda dúvida tem uma resposta articulada em segundos? O que acontece com a empatia quando o primeiro ouvinte profundo da vida de um jovem é um sistema que simula escuta sem possuí-la?

O que acontece com a autoridade parental quando o filho consulta uma fonte percebida como mais inteligente, mais paciente e mais informada —e que, em muitas dimensões mensuráveis, de fato é? E o que acontece quando a primeira relação de confiança profunda da vida adulta de alguém foi construída com uma entidade que não pode amá-la de volta?

Não sei se estamos diante da maior catástrofe silenciosa do desenvolvimento humano em um século ou de uma transição saudável que apenas parece estranha porque é nova. Mas a ausência de resposta não justifica a ausência de pergunta.

O experimento já começou. A geração cobaia está em casa, no quarto, de fones. Inclusive na minha casa. E o grupo de controle não existe.



Fonte ==> Folha SP

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