Um ano depois de eleito, o papa Leão 14 está prestes a excomungar ultratradicionalistas, enfrentou Donald Trump em público, publicou a primeira encíclica papal sobre inteligência artificial e condenou de novo a escravidão. Vaticanistas o previram morno. Tem sido tudo, menos isso.
Quando o então desconhecido cardeal Prevost escolheu o nome de Leão 14, sabia o que estava fazendo. A escolha indicava reverência ao antecessor Leão 13, cujo papado no último quarto do século 19 preparou a Igreja para o século seguinte.
Leão 14 faz o gesto análogo para o século 21. Sua primeira encíclica, “Magnifica humanitas”, publicada na segunda (24), dialoga abertamente com executivos do Vale do Silício, entre eles Christopher Olah, da Anthropic, que participou do lançamento. Não recusa a IA, mas cobra controle democrático sobre quem a opera, hoje um punhado de empresas.
Leão 14 também fez o que nenhum papa havia feito. Na mesma encíclica, pediu desculpas pela atuação da Santa Sé ao autorizar soberanos europeus a escravizar povos chamados de infiéis. A combatividade alcançou até a Casa Branca. No mês passado, Trump, que já havia chamado Leão de fraco e leniente com o crime, publicou imagem gerada por IA em que aparece com luz irradiando das mãos, como Cristo. O conflito vinha das críticas do pontífice à política anti-imigração americana. Leão respondeu sem rodeios: “Não tenho medo do governo Trump”.
Outra frente é interna. Há duas semanas, o Vaticano avisou que a Fraternidade São Pio 10, grupo ultratradicionalista que rejeita o Concílio Vaticano 2º, será automaticamente excomungada se mantiver, em julho, a ordenação de novos bispos sem autorização papal. Se cumprir a ameaça, Leão 14 terá enquadrado o universo católico que quer ser mais papista que o papa.
No primeiro ano, Robert Francis Prevost já desmentiu quem o imaginou como um papa moderado.
Fonte ==> Folha SP


