Lula vira pato manco ou pode reverter isolamento político? – 07/05/2026 – Marcos Augusto Gonçalves

Homem de cabelos grisalhos e barba, vestindo camisa azul clara, fala ao microfone em evento com público. Duas pessoas sentadas em cadeiras brancas ao seu lado, uma delas com colete azul claro e cabelos cacheados. Plateia visível ao fundo, ambiente interno.

Os efeitos eleitorais do grande revés do presidente Lula no Senado, com a recusa do nome de Jorge Messias para um lugar no Supremo Tribunal Federal, não podem ser subestimados. Não basta considerar que o eleitorado não se preocupa com indicações ao STF e que o tema será esquecido.

Como já se analisou, a derrota, sem precedentes em 130 anos, é um sinal claro de que a candidatura do petista ingressa numa nova fase do que já se configurava como um processo de isolamento político e eleitoral.

Lula está sendo empurrado para um confinamento no campo da esquerda, num quadro em que se tornam mais difíceis ainda alianças valiosas do centro à direita.

Essa situação, num contexto de segundo turno polarizado, retira do candidato aquela pequena, porém decisiva, fatia de eleitores que decidiriam, na margem, o vitorioso.

O movimento de estreitamento já vinha de vento em popa, com ajuda do PT, da soberba e das futricas na cozinha do Palácio. Há um clima de confusão e mal-estar.

Lula já virou pato manco (“lame duck”, como os americanos se referem a um governante já sem capacidade de governar) ou a aprovação de iniciativas como Segurança, Desenrola e o fim da jornada 6×1 pode mudar o quadro? Tais medidas atrairiam votos das ruas ou tudo não passa de ilusão? E a delação de Vorcaro? Poderá ser uma virada no roteiro, um “plot twist”? Tem potencial para atingir inimigos poderosos do presidente, mas também amigos.

Por ora vemos crescer a frente que reúne o partido do Master, centrão e bolsonarismo (com parte do Supremo e tudo), com vistas a eleger um governo antipetista. Seria a consagração de Flávio Bolsonaro, o fantoche da extrema direita no Executivo, sob a supervisão dessa espécie de parlamentarismo delinquencial que se fortaleceu com a resposta de Davi Alcolumbre ao presidente. Um arranjo que de quebra oferece aos mercados a cenoura do “ajuste fiscal” e privatizações, em troca de uma cumplicidade já em parte consumada.

As conjecturas aqui levantadas na semana passada acerca das chances, um tanto remotas, de uma mudança de candidato –Lula abrindo alas para Fernando Haddad ou Geraldo Alckmin– se inscrevem nesse universo. São nomes com menor rejeição, que teoricamente contariam com mais simpatias de setores relevantes da economia e mesmo de certa classe média. Por outro lado não têm a força e a efetividade política de Lula. Talvez a dúvida seja mais dramática do que isso: é melhor perder com quem?

Após o trauma do caso Messias, uma colega que navega pelos mares da política me disse alguma coisa como “estou com a sensação de que comecei a assistir ao filme da derrota de Lula na eleição”. A grande tragédia dessa premonição melancólica seria, claro, a consequente vitória de um candidato desqualificado como Flávio Bolsonaro, que reúne todas as condições de promover uma catástrofe nacional. O que chegou a se desenhar como um truque de ocasião transformou-se em postulação, até aqui, competitiva.

Lembremos quando faltavam meses para a eleição do capitão e isso parecia a muitos olhos –entre os quais os meus– um desatino inconcebível. Ao mesmo tempo algo dizia que marcharíamos de modo inelutável para um desastre. Será que minha colega está assistindo ao filme errado? Veremos.



Fonte ==> Folha SP

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