Os últimos dias de Messi e Cristiano Ronaldo talvez nunca tenham colocado em lados tão opostos dois ícones que sempre foram unidos justamente pelas diferenças. Um baixinho canhoto do Barcelona, sul-americano, de um lado e um grandalhão destro, por uma década do Real Madrid, representando uma seleção europeia de outro.
A disputa do século no futebol mundial teve um capítulo quase final, já que a estas alturas nenhum dos dois têm muito mais tempo para deixar impressões diferentes. Na terça-feira, Messi entrava em campo pela última vez com a Argentina. Ex-jogadores, técnicos, rivais, companheiros emocionados com sua despedida e trajetória em seu país. Quase ao mesmo tempo, Cristiano divulgava um comunicado com 53 parágrafos e “8 mandamentos” que Jorge Jesus não seguiu, levando-o a abandonar a seleção portuguesa.
Ronaldo não suportou ter aquecido e não ter entrado em um jogo contra a Noruega, sendo que o atacante titular fez o gol da vitória, porque o técnico havia dito que talvez jogaria, mas mudou de opinião. Deixou para trás os companheiros e a esportividade para se afundar em um ataque ególatra e mimado, típico de alguém que não consegue conviver com a frustração de não ser reconhecido tão bom como ele acha que é.
Nos últimos anos, enquanto via Messi ganhar Copas Américas e o Mundial e ser aclamado como maior da geração e, para muita, maior de todos os tempos, restou ao português empunhar uma espada e sair ele próprio em luta de uma guerra dialética por popularidade, absolutamente irreal para os atletas, que devem falar em campo.
Messi sai de cena tendo liderado um time limitado, aos 39 anos, com oito gols e quatro assistências, até uma final de Copa do Mundo. Seus companheiros o veneram, dão a vida por ele, sabendo que possuem do outro lado um líder. Após vencer o Egito nas oitavas-de-final da Copa, Messi chorou em campo e disse que era alívio porque pensou que desapontaria seus colegas após perder um pênalti no primeiro tempo. Dias antes, Cristiano Ronaldo olhava triunfante para a câmera dizendo “I’m back!” (Eu voltei!), após marcar duas vezes contra o Uzbequistão na fase de grupos.
O fim apoteótico de um, nos braços dos argentinos, gerando admiração e inveja em todo o resto do mundo – e melancólico e solitário do outro -, nos ensina que existem várias formas de viver o futebol. É possível ganhar via esforço coletivo ou motivação pessoal. No entanto, este episódio mostra mais sobre como saber se despedir.
Sair de cena não é perder. Mas não aceitar sair é uma derrota grande. Messi nos deixa a sensação de dever cumprido, enquanto Cristiano Ronaldo precisará, aos 41 anos, tirar a má impressão que está deixando em seu final. Terá tempo de chegar aos mil gols, mas isso será o bastante para ser novamente um jogador admirado? Ou a imagem do egocêntrico irá marcar o seu pós-carreira?
Fonte ==> Folha SP


