5 de outubro de 2026

Montado na sela de Caiado, Daniel Vilela é reeleito em Goiás

CartaCapital

Cavalgando sobre o alazão encilhado por Ronaldo Caiado, seu principal fiador político e cabo eleitoral, Daniel Vilela (MDB) foi reeleito governador de Goiás neste domingo 4. Com 91% das urnas apuradas, Vilela somava 58,88% dos votos válidos, e os demais candidatos já não poderiam alcançar o percentual necessário para levar a disputa ao segundo turno. Wilder Morais (PL) terminou na segunda colocação, com 22,25%, seguido por Marconi Perillo (PSDB), com Luis Cesar Bueno (PT), com 9,74%.

A vitória consagra uma sucessão cuidadosamente construída por Caiado, mas também deixa uma questão para o novo governador: depois de chegar ao Palácio das Esmeraldas montado no capital político do padrinho, Vilela terá de mostrar que consegue caminhar com as próprias pernas — e transformar a herança recebida em liderança política própria.

Depois que seu tordilho branco empacou na corrida presidencial, pontuando abaixo dos 4% nas pesquisas na reta final da campanha, Caiado voltou as atenções para Goiás com um triplo desafio. Primeiro, evitar o vexame de ser superado por Flávio Bolsonaro — ou mesmo por Lula — em seu próprio estado. Segundo, eleger a mulher, Gracinha Caiado (União Brasil), para o Senado. Por fim, fazer seu sucessor no Palácio das Esmeraldas.

Não por acaso, nas semanas que antecederam a eleição, o ex-governador abandonou agendas externas e concentrou-se em atos regionais, quase sempre ao lado do pupilo, filho do ex-governador Maguito Vilela.

Nascido em Jataí, no sudoeste de Goiás, Daniel Vilela foi vereador por Goiânia (2009-2010), deputado estadual (2011-2014) e deputado federal (2015-2018). Na Câmara, chegou a presidir a poderosa Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), tornando-se o segundo parlamentar goiano a ocupar o posto. Em 2022, elegeu-se vice-governador na chapa de Caiado. Em 31 de março, assumiu o comando do Estado, depois que o padrinho renunciou ao governo para entrar na corrida pelo Palácio do Planalto.

Moderado e pragmático, Vilela fez repetidos acenos ao eleitorado bolsonarista, sem, no entanto, defender publicamente a anistia aos golpistas do 8 de Janeiro. Na época da invasão das sedes dos Três Poderes, chegou a publicar nas redes sociais uma mensagem de repúdio ao radicalismo da turba verde-amarela: “A divergência faz parte do debate político e é saudável. O golpismo e o desrespeito às instituições, não.”

Nesse aspecto, o novo governador se distancia do padrinho. Na tentativa de atrair o eleitorado bolsonarista para sua cavalgada, Caiado abraçou a defesa de um perdão aos condenados pelos ataques. “Encaminharei, sim, ao Congresso um projeto para que haja uma anistia geral, ampla”, prometeu durante sabatina no Jornal Nacional, da TV Globo, em 25 de agosto.

Principais lances da campanha

Desde o início, Vilela se apresentou como o candidato da continuidade, tentando capitalizar os resultados da gestão Caiado em áreas como segurança e infraestrutura. Mas essa herança também trouxe uma fatura política. O Fundeinfra, criado para financiar obras rodoviárias e apelidado pelos adversários de “Taxa do Agro”, tornou-se um dos símbolos da tensão entre o governo e o setor produtivo. A cobrança foi encerrada em janeiro de 2026, depois de forte reação de produtores rurais.

Na saúde, a oposição encontrou talvez o flanco mais concreto para atacar a gestão. As filas para exames e cirurgias eletivas dominaram os debates, com Wilder Morais e Marconi Perillo cobrando respostas para a demanda reprimida e defendendo, entre outras medidas, o uso da rede privada.

O Serra Dourada foi outro episódio de alto teor político. Marconi acusou o governo de ter “rifado” o patrimônio público, argumentando que o estádio valeria muito mais que os 10 milhões de reais pagos como outorga pela concessionária. Vilela rebateu, lembrando que se tratava de uma concessão, e não de uma venda, e que o contrato prevê investimentos privados de pelo menos 215 milhões ao longo dos 35 anos de vigência.

Enquanto Marconi explorava o desgaste do grupo Caiado e sua própria experiência como ex-governador, Wilder tentou abrir uma segunda frente pela direita. Sua estratégia foi combinar críticas à administração estadual com uma identidade bolsonarista mais explícita. No fim, a campanha de Vilela ficou espremida entre duas cobranças: defender o legado de Caiado sem parecer apenas seu herdeiro e responder a adversários que tentavam transformar os problemas da gestão em argumentos contra a continuidade.

Após conquistar um novo mandato, desta vez pelo voto direto dos eleitores, Vilela terá de responder à pergunta que sua campanha tentou adiar: ele só sabe montar no cavalo de Caiado ou é capaz de trilhar o próprio rumo?



Fonte ==> Casa Branca

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