22 de setembro de 2026

o descaso com o meio ambiente custa caro

o descaso com o meio ambiente custa caro

Quando falamos em inflação, muitos pensam logo no Banco Central, na taxa Selic, no dólar, no tomate do mercado e naquele momento humilhante em que uma comprinha de três itens ultrapassa os 80 reais. Mas existe um tipo de inflação que ainda aparece pouco no debate público e que chega com os dois pés na porta: a inflação climática.

A inflação climática é, basicamente, quando mudanças do clima afetam o preço das coisas. Secas, inundações, calor extremo, quebras de safra, estradas destruídas e rios sem navegação, por exemplo, encarecem o custo da energia, dos transportes, dos alimentos e outros produtos. Muitas famílias passarão a gastar mais para sobreviver, principalmente se perderem parte do que tinham em desastres ambientais.

Pense no arroz. Se uma enchente atinge uma região produtora importante, não é só aquele território que sofre. A produção do grão pode cair, a logística pode travar, o transporte pode encarecer e o custo não tarda a chegar à mesa de quem mora a centenas de quilômetros dali.

O mesmo vale para a seca. Na Amazônia, quando o nível dos rios baixa demais, não é apenas uma questão de paisagem. Naquela região, os rios funcionam como uma espécie de estrada, por vezes são o único caminho possível para chegar a determinadas comunidades.

Se um rio amazônico seca, a mercadoria não chega em diversos pontos, ou chega mais cara. A inflação, neste caso, não é uma abstração macroeconômica nem consequência de uma decisão do Banco Central, mas representa uma sacola mais vazia na mão de quem já tinha pouco.

O Brasil precisa levar isso a sério agora, especialmente diante de um El Niño fora do comum e uma onda enorme de negacionismo. Os boletins oficiais indicam maior risco de chuvas acima da média na região Sul e em parte do Sudeste e do Centro-Oeste, enquanto áreas do Centro-Norte podem enfrentar chuva abaixo da média e temperaturas mais elevadas. Esses cenários certamente impactarão no bolso do brasileiro.

Tempestades no Brasil destroem casas, estradas, pontes, comércios, lavouras e grande parte da infraestrutura pública. Chove de menos pode prejudicar safras, pastagens, transporte fluvial e abastecimento. Nos dois cenários, a sociedade paga. E quase sempre quem paga mais é quem tem menos margem no orçamento.

Desigualdades reforçadas

Para uma família rica, o arroz subir alguns reais é incômodo. Para uma família pobre, é a diferença entre comprar um item ou não. Esse é um ponto central: a inflação climática reforça as desigualdades pela via do encarecimento dos custos básicos. Ela pesa mais para quem gasta maior parte da renda com comida, transporte, energia e moradia.

Além disso, nem todo impacto climático aparece imediatamente no IPCA. Às vezes, ele aparece como dívida da família para reconstruir a casa, para comprar a geladeira perdida na enchente, para custear um aluguel mais caro em outro local. Também se revela como comércio fechado, seguros mais caros, gastos emergenciais do governo, obras públicas paralisadas. O índice de inflação capta uma parte da história que pode ser rapidamente contabilizada, mas parcela desses custos fica de fora da planilha.

Para a inflação climática, fica mais evidente ainda que o receituário adequado não é aumento de juros. Aumentar a Selic pode até reduzir demanda, mas não reconstrói ponte, não faz rio encher na medida certa, não protege lavoura, não impede deslizamento, não cria estoque regulador e não organiza cadeia de abastecimento. A resposta precisa passar por planejamento climático, infraestrutura resiliente, defesa civil, seguro rural, adaptação urbana, proteção social, transição energética e política de abastecimento – além de forte combate ao negacionismo climático.

A crise climática deixou de ser uma previsão há muito tempo, só não nota quem está cego por narrativas anticiência. Quando há impacto no bolso, não adianta fingir que o problema vem de “eventos extremos”, porque o problema é mais simples de ser explicado: as ações do homem destruíram seu próprio meio ambiente e as mudanças climáticas são respostas ao descaso com políticas efetivas que mitigam os efeitos delas.

No fim, talvez a inflação climática seja isso: o planeta passando a maquininha do cartão. Em um período tão importante, dar espaço para o negacionismo é investir não somente na destruição do planeta, mas também estrangular a economia. A questão é quem pagará essa conta.

Spoiler: se depender da lógica de sempre, não será quem mais ganhou destruindo tudo em nome de lucratividade, e sim quem tem que lidar com as consequências desse processo.



Fonte ==> Casa Branca

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