13 de junho de 2026

O menino da porteira – 13/06/2026 – Antonio Prata

A ilustração de Adams Carvalho, publicada na Folha de São Paulo no dia 14 de junho de 2026, mostra o desenho de uma mulher de terno sentada frente à um monitor com imagens de câmeras de segurança na portaria de um condomínio.

Apertei o interfone, o portão se abriu e caminhei até o prédio, onde uma senhora me aguardava segurando a porta. Hesitei. Seria uma moradora gentil ou uma porteira solícita? Não era simples curiosidade, a resposta tinha consequências práticas. Fosse ela a porteira, eu precisava dizer meu nome, o nome do amigo que tinha ido visitar e aguardar a liberação. Fosse uma moradora, bastava um “obrigado” e seguir pro elevador.

Enquanto dava o primeiro passo pra passar pela senhora –com o canto dos olhos notei que não usava uniforme, mas nem todos os porteiros usam–, fazia as contas socio-aritméticas do homem-branco-hétero-cis em 2026. Quais as chances de eu cometer alguma mancada a partir da leitura equivocada da função (ou favor) daquela pessoa?

Caso fosse a porteira e eu passasse direto, estaria esnobando sua autoridade. A atitude poderia ser vista como classista. Talvez machista. Caso fosse uma moradora e eu perguntasse “você é a porteira?”, o classismo, quem sabe, aflorasse do lado de lá: “Imagina, porteira! Você sabe com quem tá falando?! Sou juíza de terceira instância!”.

Enquanto dava o segundo passo, já conseguia ver o vídeo da câmera de segurança vazado, minha gafe sendo debatida na internet e imaginava quais seriam os nomes, em inglês, para as duas possíveis tropeçadas no protocolo social —”manignoring?”, “mandowngrading”? Tive, então, uma iluminação: não existe mulher trabalhando em portaria de prédio residencial. Botei as fichas no insight, optei pelo “obrigado”, passei reto e entrei no elevador ainda esperando (temendo) um “ei, tá indo pra onde?”, mas só ecoou pelo hall o som distante de um carro da pamonha.

Enquanto subia, pensava: se as mulheres já ocuparam todos os postos de trabalho, mesmo os tidos como mais masculinos, se já tivemos Marie Curie, Margaret Thatcher e Marta (só pra ficar na letra M) por que, ó céus, não ocupam a portaria? Já viajei em alguns aviões comandados por pilotas. Fui defendido de leitores enfurecidos, mais de uma vez, por advogadas. Minha saúde está há anos nas mãos da dra. Helena. Mas nem uma única vez, em quase 49 anos entrando e saindo de prédios, topei com uma porteira.

O trabalho, aliás, se encaixa nos estereótipos ainda hoje existentes sobre as funções femininas. Ser gentil. Sorrir. Abrir a porta. Entregar cartas. Receber encomendas. No entanto, nem Maries, nem Margarets, nem Martas ocuparam ou ocupam o posto.

Curiosamente, o que foi dito nos parágrafos anteriores serve só para edifícios residenciais. Você chega num prédio de escritórios ou consultórios e na portaria, 80% das vezes, há mulheres te pedindo documento e te fotografando pra leitura facial. Também é uma questão nacional. Na França há muitas porteiras e a grande maioria delas é portuguesa –não me pergunte por que, se mal entendo a divisão sexual do trabalho nas portarias brasileiras, melhor não me aventurar em especulações transatlânticas.

Meu amigo nem termina de abrir a porta e já disparo: “Uma senhora de cabelo curto, baixinha, é a porteira?” Ele arregala os olhos. “Não. Onde já se viu? Não existe mulher trabalhando de porteira.” Pergunto por que não existe mulher trabalhando de porteira e ele diz que não sabe, só sabe que é assim. Pois.

Quem tiver uma hipótese plausível que resolva esse mistério, por favor, não hesite em jogar um facho de luz no breu da minha ignorância com cartas à Redação –serão recebidas gentilmente pela Bruna, Kátia ou Márcia, na portaria.



Fonte ==> Folha SP

Leia Também

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *