22 de agosto de 2026

O que aprendi formando intérpretes de Libras: fluência é apenas o começo

libras

Durante 14 anos atuando como intérprete de Libras/Português, aprendi que existem aspectos da nossa profissão que dificilmente podem ser compreendidos apenas dentro de uma sala de formação. Interpretar envolve técnica, conhecimento linguístico e preparação, mas também envolve decisões tomadas em segundos, responsabilidade sobre a informação transmitida e consciência de que, do outro lado da interpretação, existe uma pessoa que depende daquele trabalho para exercer plenamente seu direito à comunicação.

Quando comecei também a participar da formação de outros profissionais, essa percepção se tornou ainda mais evidente.

Ensinar Libras é uma responsabilidade. Formar alguém para atuar como intérprete acrescenta outra camada a essa responsabilidade.

Um dos principais aprendizados que carrego dessa experiência é que saber Libras não significa, automaticamente, saber interpretar.

Essa distinção parece simples, mas é fundamental para compreendermos os desafios da formação profissional na área.

Conhecer duas línguas não transforma alguém automaticamente em intérprete

Quando observamos uma interpretação acontecendo, vemos o resultado final. Uma pessoa fala e, poucos instantes depois, o intérprete sinaliza. Ou uma pessoa surda sinaliza e o profissional produz aquela mensagem em português.

Por fora, pode parecer uma transferência quase imediata entre duas línguas.

Por dentro, existe um processo muito mais complexo.

O intérprete precisa receber a informação, compreendê-la, identificar seu sentido naquele contexto, organizar mentalmente a mensagem e encontrar recursos adequados para produzi-la na língua de destino. Tudo isso enquanto continua recebendo novas informações.

É uma atividade simultaneamente linguística e cognitiva.

Essa complexidade sempre despertou minha curiosidade. Queria compreender melhor o que acontece mentalmente enquanto interpretamos. Como recebemos uma mensagem em uma língua, processamos seu significado e conseguimos reconstruí-la em outra? Como administramos diferentes esforços ao mesmo tempo sem perder elementos essenciais daquilo que está sendo comunicado?

Essa inquietação me acompanhou academicamente e tornou-se tema do meu Trabalho de Conclusão de Curso na pós-graduação em Tradução e Interpretação Libras/Português pelo Instituto Singularidades, em São Paulo.

Em 2018, tive também a oportunidade de apresentar um pôster relacionado ao trabalho em congresso da Universidade Federal de Santa Catarina, em um ambiente dedicado às pesquisas sobre tradução e interpretação de Libras e línguas orais.

Para mim, estudar esses processos não significava apenas satisfazer uma curiosidade acadêmica.

Significava compreender melhor a profissão que eu exercia diariamente.

Interpretar exige administrar diferentes esforços ao mesmo tempo

Quando falamos em formação profissional, considero importante superar a ideia de que basta aumentar o vocabulário para melhorar automaticamente a interpretação.

Vocabulário importa, evidentemente. Conhecimento linguístico também. Mas a atividade envolve muito mais.

O intérprete precisa compreender conceitos, acompanhar raciocínios, preservar relações entre ideias e tomar decisões linguísticas rapidamente.

Em determinados contextos, a complexidade aumenta ainda mais.

Pensemos na interpretação educacional.

Ao acompanhar um estudante em uma aula, o intérprete pode se deparar, em poucas horas, com conteúdos de diferentes disciplinas, terminologias específicas, explicações abstratas e interações entre professor e alunos.

Minha experiência nesse ambiente foi extensa. Atuei com estudantes desde o ensino fundamental até níveis de pós-graduação e mestrado.

Cada etapa possui desafios próprios.

Não se trata simplesmente de conhecer sinais correspondentes às palavras utilizadas pelo professor. O conteúdo precisa ser compreendido para que seu sentido possa ser reconstruído adequadamente em Libras.

Por isso, formação continuada não deveria ser vista como um complemento opcional da profissão.

Ela faz parte da própria condição de ser intérprete.

O contexto modifica completamente a interpretação

Ao longo da minha carreira, tive a oportunidade de atuar em contextos educacionais, religiosos, conferências, seminários, consultas médicas, reuniões, formaturas e outros ambientes.

Essa diversidade me ensinou que não existe uma interpretação completamente desconectada do contexto.

Uma sala de aula exige determinadas competências. Uma conferência apresenta outras. Uma consulta médica envolve terminologias e responsabilidades específicas. Uma cerimônia religiosa acrescenta elementos discursivos, culturais e emocionais próprios.

Durante muitos anos, por exemplo, interpretei cultos na Congregação Cristã no Brasil.

Há experiências que permanecem conosco.

Ver uma pessoa surda se emocionar ao receber em sua língua uma mensagem religiosa que possui profundo significado para ela é uma lembrança que ajuda a compreender por que acessibilidade não pode ser tratada como um detalhe.

A interpretação possibilita acesso.

E acesso significa participação.

Essa responsabilidade precisa estar presente também quando formamos novos profissionais.

A interpretação educacional me ensinou a enxergar além da sala de aula

Talvez algumas das experiências mais marcantes da minha trajetória tenham acontecido nas formaturas dos alunos que acompanhei.

Uma formatura dura algumas horas.

A trajetória até aquele momento pode durar anos.

Quem trabalha na interpretação educacional acompanha dificuldades linguísticas, conteúdos complexos, avaliações, mudanças de professores, adaptações e inúmeros outros desafios.

Por isso, quando aquele estudante chega à conclusão de uma etapa acadêmica, o intérprete conhece parte do caminho percorrido.

Essas experiências reforçaram em mim uma convicção: acessibilidade educacional não pode ser medida simplesmente pela presença física de um intérprete.

Precisamos discutir também a qualidade da interpretação, a preparação profissional, as condições de trabalho e a compreensão institucional sobre o papel desse profissional.

Disponibilizar o recurso é essencial.

Garantir que esse recurso seja qualificado é o passo seguinte.

Formar intérpretes também significa ensinar responsabilidade

Durante seis anos, atuei como professora nos cursos de Libras da minha igreja. Também exerci funções de coordenação pedagógica e avaliação de alunos.

Posteriormente, a experiência com formação ganhou outras dimensões.

Em 2017, enquanto trabalhava como intérprete concursada na Prefeitura Municipal de Campinas, participei de um grupo de formação relacionado à área da surdez. Ao final daquele processo, fui convidada pelas próprias formadoras para palestrar em um seminário sobre atuação, possibilidades e desafios dos intérpretes de Libras.

A experiência foi marcante porque colocou profissionais, professores bilíngues, coordenadores pedagógicos e representantes da educação em um mesmo espaço de reflexão.

E existe uma pergunta que considero indispensável quando falamos em formação: que tipo de intérprete estamos preparando para chegar ao mercado?

Não basta formar alguém que consiga sinalizar com desenvoltura.

Precisamos formar profissionais que entendam limites, responsabilidades, ética e necessidade permanente de preparação.

Um intérprete frequentemente trabalha com informações que não lhe pertencem.

Ele participa de momentos acadêmicos, profissionais, médicos, familiares, religiosos e institucionais. Precisa compreender que sua presença oferece acesso à comunicação, mas não lhe concede protagonismo sobre aquela comunicação.

Essa maturidade profissional também precisa ser ensinada.

A tecnologia muda, mas a responsabilidade permanece

Em 2024, vivi outra experiência importante ao integrar uma equipe de intérpretes no Seminário da Educação da Prefeitura Municipal de Jundiaí, com transmissão ao vivo pela TV TEC.

Estar diante das câmeras acrescenta uma pressão diferente.

A interpretação deixa de acontecer apenas diante das pessoas presentes fisicamente e passa a alcançar um público que não conseguimos dimensionar naquele instante.

Esse tipo de experiência evidencia como os espaços de atuação estão se ampliando.

Hoje temos transmissões ao vivo, aulas remotas, conteúdos digitais e diferentes ambientes mediados por tecnologia. Novas ferramentas certamente continuarão transformando a maneira como profissionais trabalham.

Mas existe algo que a tecnologia não elimina: a responsabilidade de compreender adequadamente uma mensagem e torná-la linguisticamente acessível.

É por isso que considero perigoso pensar a formação apenas em termos de ferramentas.

Ferramentas mudam.

Princípios profissionais permanecem.

Ensinar também me obrigou a continuar aprendendo

Em 2025, enfrentei um desafio diferente: escrever e publicar meu próprio curso de Libras em uma plataforma digital.

Produzir um curso do zero é muito diferente de simplesmente dominar o conteúdo.

É necessário organizar uma progressão pedagógica, selecionar aquilo que será ensinado, pensar em como explicar determinados conceitos e antecipar dificuldades dos alunos.

Ensinar expõe nossas próprias lacunas.

Quando precisamos explicar algo para outra pessoa, somos obrigados a organizar conhecimentos que, muitas vezes, utilizávamos intuitivamente.

Talvez por isso eu considere a formação de novos profissionais uma via de mão dupla.

Enquanto ensinamos, também somos constantemente convidados a rever aquilo que sabemos.

Meu contato com outra língua de sinais reforçou essa percepção

Atualmente, vivendo nos Estados Unidos, iniciei também meus estudos de ASL, a American Sign Language.

Voltar à posição de aprendiz depois de tantos anos trabalhando com Libras é uma experiência particularmente interessante.

Ela nos lembra que línguas de sinais não constituem um sistema universal. Possuem estruturas, culturas, comunidades e histórias próprias.

Também me faz experimentar novamente algo que todo aluno conhece: a sensação de precisar construir repertório, compreender estruturas novas e aceitar que fluência exige tempo.

Para alguém que trabalha formando pessoas, voltar a aprender pode ser uma excelente forma de recordar o que significa estar do outro lado.

Precisamos formar profissionais para pensar, não apenas para reproduzir

Depois de tantos anos interpretando, ensinando, estudando e convivendo com diferentes contextos da comunidade surda, acredito que um dos maiores desafios da formação profissional está em preparar intérpretes capazes de pensar sobre a própria prática.

Precisamos de profissionais que estudem.

Que conheçam as línguas com as quais trabalham.

Que compreendam o contexto antes de interpretar.

Que reconheçam quando precisam pesquisar.

Que consigam avaliar criticamente suas escolhas.

Que entendam que velocidade não é sinônimo de qualidade.

E, principalmente, que tenham consciência de que existe uma pessoa dependendo daquela interpretação para acessar uma informação que outras pessoas estão recebendo diretamente.

Por isso, formar intérpretes nunca foi, para mim, apenas ensinar uma profissão.

É contribuir para construir uma rede de acessibilidade.

Quando formamos um profissional qualificado, seu trabalho pode chegar a uma escola na qual nunca estivemos, a uma universidade que nunca frequentamos, a uma conferência da qual nunca participamos ou a uma pessoa surda que talvez nunca conheçamos.

Existe algo profundamente significativo nisso.

Depois de 14 anos trabalhando com Libras/Português, continuo acreditando que nossa profissão começa no domínio linguístico, mas não termina nele.

Ela exige estudo, ética, preparo cognitivo, sensibilidade cultural, atualização e compromisso com a comunidade que depende dessa mediação.

Por isso, se existe uma lição que a formação de outros intérpretes consolidou em minha trajetória, é que não estamos preparando profissionais apenas para movimentar as mãos entre duas línguas. Estamos preparando pessoas para assumir responsabilidade sobre o acesso de alguém à comunicação.

E uma responsabilidade dessa dimensão exige formação à altura.

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