Falta de planejamento, mistura entre finanças pessoais e empresariais e ausência de sucessão estruturada estão entre os principais obstáculos para a competitividade das PMEs
As pequenas e médias empresas representam a base da economia brasileira. Segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, os pequenos negócios respondem por cerca de 30% do Produto Interno Bruto (PIB) do país e são responsáveis por aproximadamente sete em cada dez empregos formais gerados no Brasil. Apesar da relevância econômica, milhares dessas empresas enfrentam dificuldades para crescer de forma sustentável em razão de falhas de gestão que poderiam ser evitadas.
Entre os principais problemas apontados estão a ausência de planejamento estratégico, a falta de controle financeiro, decisões tomadas apenas com base na experiência do empreendedor, pouca utilização de indicadores de desempenho e dificuldades na profissionalização da gestão. Esses fatores tornam as empresas mais vulneráveis em períodos de instabilidade econômica e reduzem sua capacidade de adaptação às mudanças do mercado.
Outro desafio recorrente está nas empresas familiares, que representam parcela significativa do ambiente empresarial brasileiro. Embora sejam responsáveis por grande parte da geração de empregos e renda, muitas ainda enfrentam obstáculos relacionados à centralização das decisões, à ausência de regras claras de governança e à dificuldade de separar as relações familiares da administração do negócio.
Para Francisco Rodrigues, diretor da Grafitto Gráfica e Editora, o crescimento de uma empresa depende menos do tamanho da operação e mais da qualidade da gestão. “É comum encontrar empresas que possuem bons produtos, clientes fiéis e mercado para crescer, mas que acabam limitadas por problemas internos. Muitas vezes, o empresário domina a atividade principal, mas não dedica o mesmo cuidado ao planejamento, aos indicadores e aos processos de gestão”, afirma.
Com experiência em elaboração de planos de negócios, avaliação de riscos, gestão financeira e liderança de equipes, Francisco afirma que um dos maiores erros dos empresários é administrar olhando apenas para as demandas do dia a dia, sem reservar tempo para pensar estrategicamente no futuro da organização.
Segundo ele, essa realidade é ainda mais comum nas empresas familiares. “A empresa familiar costuma nascer da dedicação e do esforço dos seus fundadores. Esse é um patrimônio importante, mas chega um momento em que o crescimento exige profissionalização. Quando todas as decisões permanecem concentradas em uma única pessoa, a empresa cria uma dependência que dificulta sua evolução.”
A sucessão também aparece entre os principais desafios. Estudos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e do Banco Mundial mostram que cerca de 90% das empresas brasileiras têm perfil familiar, mas apenas 30% chegam à terceira geração e metade não sobrevive à troca de comando. Isso ocorre justamente pela falta de planejamento sucessório e de estruturas de governança capazes de garantir continuidade ao negócio.
Na avaliação de Francisco, profissionalizar não significa perder a essência da empresa familiar. Para ele, os valores da família podem continuar sendo o maior patrimônio da empresa mas o que precisa evoluir é a forma de administrar, definir processos, responsabilidades, indicadores e critérios para tomada de decisão.
Outro erro frequente é a mistura entre patrimônio pessoal e empresarial. Francisco alerta que a ausência de controles financeiros e a utilização do caixa da empresa para despesas particulares comprometem o fluxo de caixa, dificultam investimentos e aumentam o risco financeiro.
Para Francisco, a utilização de informações gerenciais e indicadores tornou-se indispensável em um ambiente empresarial cada vez mais competitivo. “Hoje não basta confiar apenas na experiência. O empresário precisa acompanhar números, analisar resultados e tomar decisões baseadas em dados. Quanto maior a qualidade das informações, maior também a capacidade de antecipar problemas e identificar oportunidades”, afirma.
Além disso, o avanço da inteligência artificial e das ferramentas de gestão vem permitindo que empresas de menor porte tenham acesso a recursos antes disponíveis apenas para grandes corporações. Soluções voltadas à análise de dados, automação de processos, controle financeiro e acompanhamento de indicadores tornam a gestão mais eficiente, desde que estejam inseridas em um planejamento estratégico consistente.
Para Francisco, tecnologia e gestão devem caminhar juntas, já que a tecnologia facilita o trabalho do gestor, mas não substitui o planejamento.
Francisco defende que o futuro das pequenas e médias empresas dependerá menos do porte do negócio e mais da capacidade de seus gestores de profissionalizar a administração, estruturar processos e preparar a empresa para crescer além da figura do fundador. Afinal, para empresas familiares, preservar o legado significa também construir uma gestão capaz de atravessar gerações.

