Por que os mais pobres se arruínam no vício do jogo?
A pergunta parecerá absurda ao inteligente de ocasião. Ora, ora, dirá ele: o pobre joga porque acredita que, jogando, deixará de ser pobre.
Brilhante. Certíssimo. Mas existem, em teoria, outras maneiras de escapar da pobreza: estudando, trabalhando, economizando, investindo. Por que, então, os mais pobres escolhem justamente o caminho mais improvável para a riqueza?
Agora que o presidente Lula da Silva decidiu proibir as bets —a eleição é uma senhora exigente—, era essa a pergunta que eu gostaria de ver respondida.
Em vão. O debate é logo sequestrado por um paternalismo insultuoso, com ares de evidência, que reza mais ou menos assim: sendo os mais pobres ignorantes, impulsivos, crédulos e influenciáveis, cabe ao Estado protegê-los de si mesmos, como uma mãe vigilante protege os seus filhos imaturos.
Sempre discordei do diagnóstico. Sempre me pareceu uma saída fácil para uma realidade mais indigesta. Quando os mais pobres de uma sociedade se entregam em massa ao jogo, talvez o problema não esteja neles. Nem apenas naqueles que lhes vendem, com anúncios luminosos, ilusões de enriquecimento instantâneo.
O problema talvez esteja numa sociedade que deixou de lhes oferecer caminhos razoáveis de ascensão. Vista desse ângulo, a irracionalidade do jogo encontra uma lógica.
O Brasil não é caso único. Nos Estados Unidos, um dos estudos mais notáveis sobre o desespero do jogo —sim, leitor, é de desespero que falamos— foi publicado há poucos anos pelo historiador Jonathan Cohen, em “For a Dollar and a Dream”, pela Oxford University Press.
Cohen estudou as loterias estaduais americanas desde a década de 1960. Algumas conclusões não surpreendem: todas as classes sociais jogam, mas os 10% de apostadores mais assíduos respondem por metade das receitas.
Quem são esses 10%? Desproporcionalmente negros, latinos, homens, pessoas com menor escolaridade e de renda mais baixa.
Mas há dois pontos mais relevantes. Por um lado, Cohen mostra que a loteria floresce justamente quando a renda cai e o desemprego aumenta. Por outro, a popularidade das loterias é o sintoma de que as vias normais de ascensão social estão se fechando.
Num dos capítulos mais reveladores do livro, Cohen cita um alto executivo da Gtech, à época a principal fornecedora de sistemas de loteria do país. Escrevendo em 1988 numa revista do setor, ele observava: “Por causa da tendência de queda na riqueza construída pelo próprio esforço, há cada vez menos concorrência com a loteria como possível meio de realizar esse sonho”.
A parte importante desse trecho não está apenas na observação cínica, porém honesta, do perspicaz abutre. Está nas palavras “queda na riqueza construída pelo próprio esforço”. É preciso, portanto, reformular o clichê.
Não, não é só a pobreza que leva ao jogo. A certeza, cada vez mais nítida, de que a mobilidade social se tornou uma promessa sem data também explica por que tantos náufragos se agarram a essa tábua.
Quem aposta não pensa apenas: “Tenho pouco e quero mais”. O raciocínio é mais sutil —e, para os poderes estabelecidos, muito mais incômodo: “Tenho pouco. Quero mais. Mas já não acredito que o caminho ordinário me leve até lá”.
A aposta é a ponte imaginária que permite ligar esses dois mundos. Pode ser uma ponte estatisticamente absurda, mas é psicologicamente simples —uma espécie de compressão do tempo social. “Quando não temos dinheiro”, confessava um jogador do Brooklyn citado por Cohen, “somos forçados a confiar em coisas ridículas”.
Encontro aqui a suprema ironia. O discurso político, na sua propaganda habitual, promete mobilidade pela educação, pelo emprego, pelo crescimento, pelas oportunidades.
As casas de apostas não são muito diferentes, com uma pequena vantagem: não pedem ao freguês que espere. A caricatura faz tanto sucesso porque o original tem perdido credibilidade.
Os governos podem proibir as bets e moralizar o povo com belos sermões. Mas fariam bem em olhar também para o espelho e perguntar: “Qual a nossa responsabilidade neste dilúvio social?”.
Não falo apenas dos jogos que o próprio Estado promove. Falo de uma responsabilidade ainda maior: que condições econômicas e institucionais devem existir para que o enriquecimento honesto volte a ser plausível?
Tratar da oferta sem nada fazer pela procura de milagres não fará milagre nenhum.
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Fonte ==> Folha SP


