Escrever sobre o futuro a partir de um presente em frangalhos não é um exercício de escapismo, é um ato de sabotagem cultural. Vivemos o cansaço sufocante de uma época que retroage. Portais políticos se fecham com violência, democracias cambaleiam sob o peso da intolerância e economias operam na lógica do descarte humano, multiplicando a fome e a desigualdade em escala global. Nesse cenário de ruínas voluntárias, no qual conflitos de matriz neofascista e projetos de poder segregadores premiam a violência estatal, a chamada “guerra às drogas” permanece como a engrenagem mais anacrônica, hipócrita e, paradoxalmente, lucrativa do tecido social. A proibição nunca foi uma barreira sanitária, mas uma das grandes fontes de financiamento do crime organizado, alimentando mercados clandestinos e irrigando redes de corrupção. Criminalizar o usuário não protege a vida de ninguém e financia o abatedouro.
Em contrapartida à trincheira política que insiste na violência, a vanguarda científica e a memória ancestral desenham uma rota de fuga que o conservadorismo tacanho ignora. Entidades como a MAPS (Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos) e plataformas como a Third Wave documentam e participam de uma transição histórica em curso. Longe de ser uma utopia lisérgica, essa mudança também é impulsionada pelas forças mais pragmáticas do mercado global. A prova disso está nos balancetes bilionários: a gigante farmacêutica Eli Lilly, que domina o mercado global com medicamentos como o Mounjaro, anunciou a aquisição da biotecnológica AtaiBeckley por até 3,8 bilhões de dólares. O objeto de interesse desse conglomerado é o BPL-003, uma formulação intranasal de mebufotenina, substância relacionada ao 5-MeO-DMT, em desenvolvimento para a depressão resistente ao tratamento. Se o capitalismo de ponta já começou a precificar as moléculas da consciência, o debate público precisa avançar. É urgente desenhar uma terceira via: a maioridade cívica do cidadão diante da própria mente, em que o Estado deixa o papel de pai autoritário para assumir o de educador.
Nesse horizonte, imagina-se uma infraestrutura pública de cuidado baseada na triagem e na educação mandatória. Antes do acesso a substâncias como cannabis, psilocibina, LSD ou DMT, o indivíduo passaria por uma avaliação clínica e psicológica conduzida por profissionais treinados. Mapeiam-se histórico familiar, vulnerabilidades psíquicas e marcadores físicos, como predisposições cardíacas. O Estado assume o papel de farol: se o risco for severo, o cidadão é claramente desaconselhado. Caso decida prosseguir, amparado pelo livre-arbítrio, recebe informação adequada e assina um termo de consentimento informado. Esse processo pedagógico inclui o aprendizado sobre set e setting, a dinâmica entre a mente e o ambiente, além do manejo de crises e respeito às dosagens, com limites estritos de quantidade para o uso recreativo, dificultando o comércio paralelo. Doses mais altas ou experiências de uso sacramental encontrariam lugar nos limites de clínicas especializadas ou no solo sagrado de comunidades originárias e centros espirituais tradicionais.
A civilização industrial ocidental padece de uma contradição química deliberada e perversa. Consumimos grandes quantidades de ansiolíticos de tarja preta para suportar rotinas desumanas e toleramos comercialmente o álcool, substância que destrói famílias e impõe enorme carga à saúde pública. Puritana na superfície e podre na medula, essa sociedade criminaliza fungos e plantas que a humanidade aprendeu a integrar de forma sábia e reverente milênios antes de Cristo. Trata-se de resgatar essa raiz ancestral e atualizá-la com o rigor técnico contemporâneo. No futuro regulado, a redução de danos adquire o mesmo status da educação sexual nas escolas, substituindo o pavor pela soberania da informação.
Nesse ponto, a literatura clássica serve de alerta e bússola contra o entorpecimento. Em seu testamento literário, A Ilha, Aldous Huxley contrapôs a droga Soma de sua distopia anterior, Admirável Mundo Novo, o anestésico social que domestica e aliena o cidadão, ao medicamento Moksha, a substância usada com preparo, educação e propósito, capaz de expandir as fronteiras da percepção. O modelo proibicionista atual entope a sociedade de Soma para manter o controle, enquanto demoniza o potencial de uma cultura Moksha.
As vozes que pavimentam esse caminho buscam o método e a estrutura, não o desamparo do consumo cego. O micólogo Paul Stamets há décadas defende o potencial dos fungos e dos psicodélicos na pesquisa e na cultura contemporânea. O psicólogo James Fadiman tornou-se uma referência importante nos debates sobre microdosagem e uso responsável de psicodélicos. O etnobotânico Dennis McKenna resgata o valor simbiótico entre a mente humana, as plantas e as culturas que historicamente fizeram uso delas. Essa transição, inclusive, já se mostra funcional e prática na realidade imediata: no Brasil, a escetamina já é utilizada clinicamente em determinados casos de depressão resistente, sob indicação e acompanhamento médico.
Abraçar os psicodélicos com parcimônia, inteligência e responsabilidade científica não é uma concessão ao capricho individual. É a engenharia política necessária para curar uma sociedade severamente adoecida e reconciliar a modernidade com a sua própria humanidade.
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Fonte ==> Casa Branca


