25 de agosto de 2026

Pomar de pereiras com mais de 300 anos integra produção orgânica e turismo na província chinesa de Gansu

Em Lanzhou, capital da província de Gansu, cerca de 1.765 famílias camponesas se dedicam ao cultivo e a proteção de pereiras nas margens do rio Amarelo há mais de seis séculos, num sistema agroflorestal e orgânico.

O Pomar de Pereiras Antigas de Sichuan fica no condado de Gaolan e abriga 9.423 pereiras com mais de cem anos de idade, das quais mais de 2.600 possuem mais de 300 anos. A mais antiga tem quase 500 anos e continua produzindo milhares de quilos de frutas por ano.

Em maio de 2025, a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) incluiu o sistema em sua lista de Patrimônio Agrícola de Importância Global, fazendo subir para 25 o total de sistemas do gênero reconhecidos pela organização na China, dos quais dois estão em Gansu.

A agrofloresta de pereiras tem cerca de 12 mil mu (aproximadamente 800 hectares), e a área central, com as árvores centenárias, tem uns 3.939 mu (262,6 hectares). O reconhecimento não abrange apenas as árvores, mas também as técnicas agrícolas integradas transmitidas de geração em geração, o saber cultural associado ao ofício e a paisagem composta pelo pomar, o rio e o planalto.

Em Sichuan foi implementado um modelo de cooperativa sob liderança dos núcleos partidários: a célula do Partido Comunista da China em cada vila organiza uma cooperativa que incorpora pereiras e terras como capital coletivo e distribui dividendos anuais entre os camponeses que detêm cotas. Os vilarejos atuam de forma integrada, o que estende os benefícios do turismo às mais de 3.000 famílias residentes na área do pomar, além das 1.765 que possuem contrato direto de manejo das pereiras, segundo informações do Diário de Lanzhou e a agência Xinhua.

O sistema de irrigação

A origem documentada do pomar data do período Jiajing da Dinastia Ming, no século XVI. “A história do cultivo de peras em Sichuan começa na Dinastia Han. Vilarejos surgiram durante a Dinastia Song do Norte, e o plantio em larga escala foi alcançado durante as Dinastias Ming e Qing, por meio da irrigação com rodas d’água do rio Amarelo. Nossos ancestrais fizeram disso sua subsistência, e essa prática se mantém há centenas de anos”, afirmou Han Lei, vice-diretor do Centro de Proteção de Pomares de Peras Antigas do Condado de Gaolan, ao jornal chinês Diário Econômico.

Ao Brasil de Fato, Liu Kong Bao, vice-diretor do Departamento de Publicidade do Comitê do PCCh do Condado de Gaolan, contou que, no período Ming, sem infraestrutura de irrigação, os trabalhadores transportavam água em baldes com varas sobre os ombros para regar as pereiras. Na Dinastia Qing, a tecnologia das rodas d’água foi introduzida de Lanzhou para Sichuan, tornando possível o plantio em larga escala. “A conservação da água teve papel decisivo na formação e no crescimento do pomar”, disse. Os canais que atravessam o terreno hoje foram construídos há mais de 200 anos, constituindo uma rede interligada que, com o tempo, foi revestida de pedra para reduzir a infiltração e se consolidou no sistema de irrigação usado até hoje.

Produção orgânica

Os critérios centrais da FAO para o reconhecimento foram, segundo Liu Kong Bao, “a coexistência harmoniosa entre humanos e natureza e as práticas agrícolas orgânicas“. Os ancestrais dos agricultores de Sichuan desenvolveram técnicas tradicionais de controle de pragas, como raspar a casca das árvores, criar barreiras de areia ao redor do tronco e remover flores de forma controlada (conhecido como desbaste). “Hoje, também trabalhamos com institutos de pesquisa florestal para implementar controle biológico de pragas em todo o pomar”, disse Liu Kong Bao. Os dois métodos principais são criar predadores naturais dos insetos nocivos e instalar fitas de feromônios para desorientar machos e fêmeas, impedindo-os de se reproduzir. “Utilizamos apenas controles biológicos. Tudo isso assegura que as frutas produzidas no antigo pomar sejam produtos agrícolas verdes e sem contaminação”, afirmou.

Wei Zhou Yu, agricultor local cuja família vive em Sichuan há gerações, falou sobre o manejo ao Brasil de Fato: “Combinamos as técnicas de plantio ancestrais com métodos modernos de prevenção verde de pragas. O manejo anual do pomar inclui poda, polinização artificial, desbaste de frutos, colheita, irrigação e capina.”

O sistema de gestão e proteção

Em 1º de março de 2019, o Regulamento de Proteção das Pereiras Centenárias de Sichuan da Cidade de Lanzhou entrou em vigor, estabelecendo um mecanismo de gestão interligado em quatro níveis: cidade, condado, município e vilarejo. Cada uma das 9.423 pereiras recebeu um código de identificação próprio, por meio do qual é possível checar quem é responsável pela manutenção. Mais de 1.760 contratos de gestão são assinados anualmente, segundo o Serviço de Notícias da China.

Há dois modelos de gestão, segundo Liu Kong Bao. No primeiro, os agricultores locais cuidam das árvores com apoio do governo, que designa departamentos para supervisão, treinamento técnico e controle biológico. No segundo, operadores de agroturismo que arrendam terras de agricultores assumem a responsabilidade pelo cuidado das pereiras em seus lotes.

Wei Kongtao, morador da vila rural de Shangche, tem mais de dez pereiras centenárias no quintal. “Cada árvore recebe um subsídio de 100 yuans (cerca de R$ 77) por ano, e temos que cuidar delas a cada dez dias, mais ou menos. Cuidar bem das árvores também aumenta nossa renda”, disse. Na primavera, quando as pereiras florescem, ele e a esposa vendem chá e refeições no quintal; no outono, montam uma banca na entrada para vender peras. “O ambiente do pomar foi melhorado e uma trilha para caminhadas foi construída. Este ano, o fluxo de turistas tem sido constante”, afirmou.

Os números do pomar antigo

Em 2025, a Área Cênica do Pomar de Pereiras Antigas de Sichuan recebeu mais de 1 milhão de visitantes. Foi o primeiro ano em que ultrapassou essa marca histórica. A receita turística anual foi de mais de 90 milhões de yuans (cerca de R$ 70 milhões).

A produção anual de peras do município é de cerca de 16 mil toneladas. Nos últimos anos, o desenvolvimento do pomar elevou em mais de 5 mil yuans (cerca de R$ 3.850) a renda per capita dos moradores locais, segundo o portal de informação econômica de Gansu.



Fonte ==> Brasil de Fato

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