23 de outubro de 2026

Pressões dos EUA também desafiam a soberania do México

Com uma democracia pluripartidária consolidada, o México destaca-se por sua estabilidade política, realizando eleições pacíficas e regulares a cada seis anos, desde 1934. Esse histórico contínuo o diferencia da trajetória marcada por rupturas institucionais e instabilidades que atravessaram boa parte da América Latina no último século.

Sua economia se destaca pela importância global, com um PIB de 2,18 trilhões de dólares que o coloca em segundo lugar na América Latina e décimo quarto no mundo. É uma economia aberta, que se destaca mesmo dentre membros do G20, com 12 Tratados de Livre Comércio com 44 países. De acordo com dados disponibilizados pelo Governo Mexicano, os principais parceiros das comerciais mexicanos incluem os Estados Unidos (um total de US$ 461 bilhões, 83,9%, de participação das exportações do país em 2026 e US$ 180 bilhões, 33,5%, das importações no mesmo ano), Canadá (US$ 16,5 bilhões, 3%, nas exportações e US$ 9,73 bilhões, 1,8%, das importações), China (US$ 9,93 bilhões, 1,81%, nas exportações e US$ 92,7 bilhões, 17,2%, das importações), Japão (US$ 3,23 bilhões, 0,59%, nas exportações e US$ 13,1 bilhões, 2,44%, das importações) e Alemanha (US$ 5,49 bilhões, 1%, nas exportações e US$ 13,7 bilhões, 2,53%, das importações).

Na macroeconomia, observa-se uma situação de estabilidade por meio da preservação de baixa inflação com índice de 3,45% em setembro de 2026 e, nos parâmetros globais, moderadas dívidas públicas em relação ao Produto Interno Bruto — 45,4% do PIB em 2025.

Hoje, sua economia possui perspectiva positiva de crescimento de 0,8% no ano corrente e 1,8% em 2027. Paralelamente, possui a segunda menor taxa de desemprego dentre países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), atrás somente do Japão. A porcentagem chegou a apenas 2,7% em maio deste ano. Ainda é observado no país mais de 65% de participação na força de trabalho e uma leve atenuação na disparidade de gênero dentro dela (mesmo que o 80,6% masculino ainda sobressai significantemente o 51,3% feminino).

A OCDE descreve, em uma perspectiva geral, o crescimento dos salários reais mexicanos desde o primeiro trimestre, ou seja, os aumentos não são só nominais, como elevaram o poder de compra da população. Sua legislação trabalhista é considerada “relativamente rigorosa” para trabalhadores temporários e fixos, com benefícios no sentido de proteger empregos, regulamentar, aplicar as disposições sobre demissão injusta, bem como os rigorosos requisitos processuais para demissões coletivas, gerando consequentes restrições no mercado – no geral, com atuação positiva, apesar de uma taxa de 54,8% de informalidade a ser aprimorada.

Outra característica apontada pela plataforma da Embaixada do México no Brasil, que o torna notável na América Latina é sua estrutura produtiva: 80% de suas exportações são manufaturas (produtos de valor agregado) e 20% em matérias-primas. Isso garante ganhos superiores aos de países de foco majoritário no setor primário, por exemplo, e favorece algum grau de independência de outros Estados, mesmo quando parte de sua produção está atrelada a empresas dos Estados Unidos situadas por lá.

O panorama econômico do México reflete um equilíbrio raro na região: estabilidade política histórica aliada a uma estrutura produtiva altamente qualificada e voltada para a manufatura. Com inflação sob controle, desemprego em níveis historicamente baixos e forte presença no comércio internacional, o país reafirma seu papel como uma das forças econômicas mais relevantes e promissoras da América Latina.

Ao analisar as relações entre México e Estados Unidos na atualidade, permanece válida a máxima atribuída a Porfírio Díaz no século XIX: “Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos!”. O governo de Claudia Sheinbaum, primeira mulher a assumir a presidência mexicana, em 2024, não tem sido fácil diante das pressões de Donald Trump. Filiada ao Morena (Movimento Regeneração Nacional), principal partido político do México e de orientação de centro-esquerda, a presidente enfrenta os efeitos da Doutrina Donroe, uma reinterpretação da Doutrina Monroe por Trump, que reforça a hegemonia estadunidense sobre a América Latina e o Caribe. Reafirmada na Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, a doutrina se materializa no apoio à eleição de candidatos de extrema direita alinhados a Washington e à interferência eleitoral na região.

É necessário também mencionar os efeitos do retorno da “guerra às drogas”, ancorado na Estratégia Nacional de Controle de Drogas de 2026 dos EUA, que, ao justificar operações contra o tráfico e promover o rótulo de “narcoterrorismo”, autoriza a ingerência estadunidense em outros países. Desde o início de seu governo, Sheinbaum enfrenta ações estadunidenses em território mexicano, buscando reafirmar a soberania nacional em discursos e medidas populares, além de tentar apresentar a questão do tráfico como uma responsabilidade compartilhada entre os dois vizinhos. Os Estados Unidos constituem o maior polo consumidor de narcóticos do mundo.

Nesse contexto, surgiu o apelidado “Método Sheinbaum”, em que preservam-se os programas sociais e a retórica firme em defesa da soberania, ao mesmo tempo em que se lida o tarifaço e negocia-se com Trump em agendas como migração e combate ao tráfico. No arcabouço, foi reforçada a fronteira com os Estados Unidos pela Guarda Nacional e feita a transferência de chefes do narcotráfico por via extraordinária para os EUA e a interrupção do fornecimento de petróleo a Cuba, medida de forte impacto político e social, uma vez que Washington já havia bloqueado o petróleo venezuelano, um dos principais fornecedores da ilha, após a captura de Nicolás Maduro em janeiro de 2026, e ameaçou taxar qualquer país que abastecesse Cuba. Com isso, a população cubana, que já enfrentava uma grave crise energética, passou a conviver com apagões cada vez mais frequentes. Em meio a esse quadro, o México também enviou carregamentos humanitários à ilha, o que mostra a tentativa de Sheinbaum de equilibrar a pressão de Washington com a tradicional solidariedade mexicana à Cuba. Embora algumas leituras interpretem a posição como uma subserviência revestida de soberania, outras destacam o pragmatismo em uma relação de profunda interdependência. Mais de 80% das exportações mexicanas têm os Estados Unidos como destino e, por sua vez, Washington tem no país seu principal parceiro comercial de bens. Soma-se a isso a extensa fronteira compartilhada e os milhões de mexicanos que vivem em solo estadunidense.

Contudo, as relações bilaterais escalaram para uma nova fase em abril deste ano. Um acidente nas montanhas de Chihuahua revelou que dois agentes da CIA realizavam operações conjuntas com a Procuradoria-Geral do Estado. A presidente mexicana reagiu com veemência, denunciando a ausência de autorização para atuar em território nacional. Menos de duas semanas depois, o Departamento de Justiça dos EUA formulou uma acusação contra o governador de Sinaloa, Rubén Rocha, e outros nove altos funcionários do Estado, por supostas ligações com uma facção do Cartel de Sinaloa. O governo mexicano demandou mais provas perante a exigência estadunidense de prisão e anunciou a abertura de sua própria investigação.

Soma-se a isso a indignação com o cancelamento de vistos americanos de diversos integrantes do partido Morena, os embates prévios sobre a imposição de Trump de renomear o golfo do México como “golfo da América” e imagens de um mapa postadas em redes sociais pelo presidente estadunidense que exibiram Canadá, Groenlândia e México como território americano.

Tendo em vista o tensionamento nas relações e a atuação de Washington nos demais países latino-americanos, a maioria congressual do governo conseguiu aprovar uma reforma constitucional que permite o cancelamento de eleições com base na alegação de interferência estrangeira. A medida reverbera uma tentativa de resguardar a soberania e as instituições democráticas mexicanas em um cenário global de fragilização destas.

O narcotráfico e a suposta tomada do Estado

A política proibicionista de combate às drogas na faixa fronteiriça entre os dois países consolidou-se ao longo de mais de meio século de militarização. Desde a declaração oficial da “guerra às drogas” por Richard Nixon em 1971 até as recentes classificações do crime organizado como ameaça terrorista por Donald Trump, os EUA mantêm uma abordagem focada no controle coercitivo de fronteiras. Segundo Ucko e Marks (2025), trata-se de uma estratégia reativa, punitiva e ineficaz para conter o consumo doméstico — atualmente concentrado no fentanil —, cujos impactos desestabilizadores geram violência e enfraquecem as instituições no território mexicano.

Conforme demonstra o pesquisador e professor Oswaldo Zavala em entrevista à BBC News Mundo (2026), a categoria “cartel” foi forjada pela Drug Enforcement Administration (DEA), nos anos 1970, para projetar a ideia de monopólios estrangeiros do crime organizado, cuja consolidação ocorreu sob o presidente Richard Nixon. Zavala argumenta que a narrativa oficial dos cartéis é responsável por criar pânico na população, com o intuito de desviar a atenção das causas sociais e de saúde pública da dependência química, enquanto serve como instrumento de legitimação de intervenção geopolítica por parte de Washington.

A intensificação dessa orientação manifesta-se nas ações de Donald Trump na fronteira sul, conforme demonstrado na reportagem da BBC. Dentre as medidas, encontram-se a incorporação de terras federais a bases como Fort Huachuca e Fort Bliss para a criação de Áreas de Defesa Nacional, com o emprego de milhares de soldados, blindados Stryker (veículo blindado de combate militar usado pelos Estados Unidos) e meios aéreos sob a “doutrina do propósito militar”. Essa manobra busca contornar as restrições da lei Posse Comitatus, que impede ações de segurança pública por forças militares sem autorização congressional. Além disso, episódios de ingerência e cooperação coercitiva provocaram fortes atritos diplomáticos, levando a presidenta mexicana Claudia Sheinbaum a rechaçar publicamente a entrada ou atuação de tropas e agentes estrangeiros no solo nacional.

Desde a década passada pesquisadores já rejeitavam a tese de que a crise da segurança mexicana seria um processo de “colombianização”, o que seria um catalisador para a defesa de intervenções externas. Em um artigo de análise comparativa, Borba (2011) refuta equivalência ao demonstrar que o México apresenta taxas de homicídio historicamente inferiores às da Colômbia dos anos 1990, possui uma violência predominantemente urbana concentrada na região norte-noroeste e não registra o peso de guerrilhas politicamente articuladas..

Sob a perspectiva teórica das “novas guerras” e da teoria da securitização, Gil (2019) demonstra como o enquadramento do narcotráfico como uma ameaça existencial ao Estado serviu para legitimar uma mobilização militar sem precedentes no governo de Felipe Calderón (2006-2012). Ao examinar o conflito sob a lógica das guerras assimétricas contemporâneas, Gil (2019) destaca que as organizações criminosas atuam movidas primordialmente pela racionalidade econômica e pelo controle de mercados ilícitos, e não por disputas ideológicas de tomada do poder estatal. Nesse sentido, contrariamente à contenção da criminalidade, esse modelo desencadeou o fracionamento de grupos armados, a proliferação de facções paramilitares e uma escalada de homicídios.

O México tem estabilidade política, inflação controlada, baixo desemprego e uma pauta exportadora em que a manufatura — em boa medida, de transnacionais americanas instaladas no México — responde pela maior parte das exportações, o que o diferencia de economias mais dependentes do setor primário. Com uma economia aberta e ampla rede de acordos comerciais, o país tem uma das economias mais sólidas e promissoras da América Latina.

No entanto, mais de 80% das exportações mexicanas têm como destino os EUA. Essa dependência explica o comportamento do governo Sheinbaum diante da Doutrina Donroe e do retorno da “guerra às drogas”. O chamado “Método Sheinbaum” mostra um governo que tenta sustentar programas sociais e discurso soberanista enquanto negocia em outros pontos, como o reforço da fronteira pela Guarda Nacional e a transferência de chefes do narcotráfico ao território norte-americano. Além disso, a reforma constitucional que permite anular eleições por interferência estrangeira mostra que o governo passou a tratar a soberania também como questão de defesa institucional.

No campo da segurança, é possível perceber que a lógica atual tem raízes antigas. Desde a “guerra às drogas” de Nixon, em 1971, até a classificação do crime organizado como ameaça terrorista pelo governo Trump, há o esforço de sustentar a narrativa de um inimigo externo, processo que a literatura chama de securitização e que legitima a intervenção de Washington. Essa orientação provocou conflitos diplomáticos, levando a presidenta mexicana a reafirmar a soberania nacional ao repudiar publicamente a interferência militar externa no país.

Dessa forma, as dimensões apresentadas mostram como essa agenda de segurança está ligada à disparidade econômica e política entre os dois países. O México tem os recursos para negociar, mas depende de um parceiro que usa o combate ao narcotráfico para justificar pressão e interferência. Assim, observa-se a tentativa mexicana de buscar o equilíbrio entre cooperar e preservar sua autonomia, defendendo que o narcotráfico seja tratado como responsabilidade compartilhada e não como pretexto de intervenção.

*Por Clara Parra, Giovanna Camily Rossato Gomes, Joyce Neves Couto e Rafael Antonio Novaes Bevilacqua

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.



Fonte ==> Brasil de Fato

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