Protesto denuncia riscos ambientais de obra bilionária da Sabesp no ABC paulista

Cerca de 70 pessoas participaram neste sábado (16) de um protesto em Rio Grande da Serra, no ABC paulista, contra a obra de interligação entre a Represa Billings e o Sistema Alto Tietê, conduzida pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). O ato reuniu movimentos populares, ambientalistas, sindicatos e parlamentares da esquerda da região.

Organizada pela Frente Ambientalista do ABCDMRR, a manifestação saiu da estação da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) de Rio Grande da Serra, passou pelo trevo central da cidade e terminou na praça da Bíblia, próxima à prefeitura. Durante o trajeto, os participantes distribuíram panfletos, exibiram cartazes contra a obra e carregaram uma réplica de um tubo da futura adutora, com 1,80 metro de diâmetro.

Os manifestantes questionam a obra de interligação Billings–Alto Tietê, anunciada pelo governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) como uma medida para ampliar a segurança hídrica da Região Metropolitana de São Paulo. A Sabesp prevê investimento de R$ 1,4 bilhão para transferir até 4 mil litros de água por segundo do braço Rio Pequeno, na Billings, até a Represa Taiaçupeba, em Mogi das Cruzes.

Ato terminou na Praça da Bíblia, próxima à prefeitura de Rio Grande da Serra, após caminhada contra a obra de interligação Billings–Alto Tietê (Foto: Divulgação/Frente Ambientalista do ABCDMRR)

Para os organizadores do ato, porém, a obra pode gerar desabastecimento no ABC, ampliar impactos urbanos em Rio Grande da Serra e provocar danos ambientais em áreas de Mata Atlântica. “A obra ameaça o direito à água no ABC e vários direitos básicos da população de Rio Grande da Serra”, afirmou Pedro Henrique Pereira, integrante da Frente Ambientalista do ABCDMRR.

Segundo ele, o protesto também buscou pressionar o Ministério Público e o Judiciário a avançarem sobre denúncias apresentadas pelos movimentos ambientalistas. “Não é uma crítica vaga. A gente constatou, com provas, que há pontos nessa obra e nesse licenciamento que estão contrários à legislação ambiental”, disse.

Participaram do ato representantes do Partido Socialismo e Liberdade (Psol), Partido dos Trabalhadores (PT), Partido Comunista Brasileiro (PCB), Rede Sustentabilidade, sindicatos metalúrgicos e servidores públicos da região, além de ativistas independentes.

Durante o ato deste sábado, os organizadores distribuíram panfletos e coletaram assinaturas para um abaixo-assinado, alertando para os impactos previstos da obra e convocando moradores a pressionarem autoridades locais e órgãos ambientais.

Manifestantes construíram uma adutora simbólica de tamanho real, que foi carregada durante o trajeto do ato. (Foto: Divulgação/Frente Ambientalista do ABCDMRR)

Documento enviado ao MP questiona licenciamento

Os movimentos ambientalistas protocolaram uma denúncia junto ao Ministério Público de São Paulo questionando o processo de licenciamento da obra e pedindo a suspensão das intervenções até a realização de estudos mais aprofundados. O documento foi elaborado pela Frente Ambientalista do ABCDMRR com apoio do Movimento em Defesa da Vida (MDV), Instituto CausAmbientalis (ICA), pesquisadores da Universidade Federal do ABC (UFABC) e Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), além de consultores ambientais.

A principal crítica é ao fato de o empreendimento ter sido licenciado por meio de Relatório Ambiental Preliminar (RAP), modalidade considerada mais simplificada, e não por Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA). Segundo a denúncia, o porte da obra e os impactos previstos exigiriam estudos mais robustos.

O documento também aponta possíveis intervenções em áreas de Mata Atlântica e questiona a estimativa de supressão vegetal apresentada pela Sabesp. Os movimentos argumentam que o traçado da adutora atravessa regiões com vegetação preservada há décadas, especialmente em áreas próximas à Rua Tupi, entre Rio Grande da Serra e Suzano.

Outro ponto central da denúncia é o risco de desabastecimento. Segundo o documento, a vazão média de longo prazo do braço Rio Pequeno seria de 1,407 m³/s, enquanto a obra prevê captação de até 4 m³/s.

Os movimentos também questionam a falta de transparência sobre as regras operacionais da futura transposição e afirmam que os critérios técnicos de funcionamento da obra ainda não estariam plenamente definidos.

A atual interligação proposta pela Sabesp remete a uma obra semelhante realizada durante a crise hídrica de 2015, quando o governo paulista autorizou a transferência de água do braço Rio Grande, na Billings, para o Sistema Alto Tietê. Na denúncia enviada ao Ministério Público, os movimentos ambientalistas afirmam que a nova obra amplia a escala da transposição e questionam a eficácia da medida como solução estrutural para a segurança hídrica da Região Metropolitana de São Paulo.

Cartaz exibido durante o protesto relaciona nova obra da Sabesp à política de transposição adotada na crise hídrica de 2015 (Foto: Divulgação/Frente Ambientalista do ABCDMRR)

Moradores relatam medo de isolamento e impactos urbanos

Além das críticas ambientais, moradores e ativistas afirmam que o traçado da adutora pode comprometer a circulação em diversos bairros de Rio Grande da Serra durante as obras.

Segundo a denúncia apresentada ao Ministério Público, parte significativa da tubulação deve passar por vias estreitas e regiões sem rotas alternativas, o que pode dificultar deslocamentos para hospitais, escolas, comércio e transporte público.

Os movimentos afirmam que há risco de isolamento parcial de bairros como Parque América, Vila Conde e áreas próximas à Rua Tupi. Em alguns trechos, segundo o documento, a largura prevista para as intervenções inviabilizaria a circulação simultânea de veículos.

A denúncia também menciona possíveis danos estruturais a imóveis próximos às obras, riscos relacionados à pressão da tubulação e impactos sobre nascentes e áreas de manancial.

Mobilização incluiu mapeamentos comunitários

Nas últimas semanas, a Frente Ambientalista do ABCDMRR também realizou oficinas de mapeamento comunitário em bairros afetados pelo traçado da adutora. Segundo os organizadores, a iniciativa buscou identificar, junto aos moradores, possíveis riscos sociais e ambientais associados à obra.

A denúncia enviada ao Ministério Público afirma que o percurso da adutora foi dividido em sete áreas de análise comunitária, envolvendo levantamento de nascentes, equipamentos públicos, comércios, acessos viários e moradias potencialmente afetadas.

A reportagem procurou a Sabesp, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil), a Prefeitura de Rio Grande da Serra e o Ministério Público de São Paulo. O espaço segue aberto para manifestações.



Fonte ==> Brasil de Fato

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