25 de agosto de 2026

Resistência aos antibióticos transforma automedicação em desafio crescente para a saúde pública

Uso inadequado de medicamentos compromete tratamentos, favorece o surgimento de bactérias resistentes e aumenta a pressão sobre os sistemas de saúde

O hábito de tomar medicamentos por conta própria continua sendo uma prática comum entre os brasileiros, mas seus efeitos vão muito além dos riscos individuais. No caso dos antibióticos, a automedicação e o uso inadequado desses medicamentos contribuem para um problema considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) uma das maiores ameaças à saúde global: a resistência aos antimicrobianos.

O fenômeno ocorre quando bactérias, fungos, vírus e parasitas desenvolvem mecanismos que reduzem ou anulam a eficácia dos medicamentos utilizados para combatê-los. Como consequência, infecções que antes eram facilmente tratadas passam a exigir terapias mais complexas, internações prolongadas e medicamentos de maior custo, além de elevarem o risco de complicações e mortes.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determina desde 2010 que antibióticos só podem ser vendidos mediante retenção da receita médica. A medida reduziu o acesso indiscriminado a esses medicamentos, mas autoridades sanitárias continuam alertando que o problema persiste quando pacientes interrompem o tratamento antes do prazo recomendado, reutilizam prescrições antigas ou utilizam antibióticos indicados para outras pessoas.

Para Amanda Glacy da Silva Boto de Almeida, farmacêutica, empresária e executiva com mais de 15 anos de atuação em operações farmacêuticas, o combate à resistência microbiana começa com informação e orientação profissional.

“Muitas pessoas acreditam que o maior risco é apenas o medicamento não fazer efeito. Na realidade, quando um antibiótico é utilizado sem necessidade ou de forma incorreta, ele favorece a seleção de microrganismos resistentes, tornando futuras infecções mais difíceis de tratar não apenas para aquele paciente, mas para toda a sociedade”, alerta.

A preocupação é compartilhada por organismos internacionais. A OMS classifica a resistência aos antimicrobianos como uma das principais ameaças à saúde pública mundial, enquanto o Ministério da Saúde desenvolve ações voltadas ao uso racional desses medicamentos. A estratégia envolve vigilância epidemiológica, protocolos clínicos e campanhas educativas para profissionais e população.

Embora os antibióticos sejam o exemplo mais conhecido, Amanda ressalta que a automedicação envolve diversos outros riscos.

“Analgésicos, anti-inflamatórios e medicamentos para sintomas aparentemente simples também podem provocar reações adversas, mascarar doenças importantes, causar interações medicamentosas e até agravar problemas de saúde quando utilizados sem orientação.”

Dados do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox/Fiocruz) mostram que os medicamentos figuram historicamente entre os principais agentes envolvidos em casos de intoxicação humana registrados no país. Crianças, idosos, gestantes e pacientes que fazem uso contínuo de medicamentos exigem atenção ainda maior, já que apresentam maior risco de complicações decorrentes do uso inadequado.

Nesse cenário, o farmacêutico ocupa posição estratégica. Presente em praticamente todos os municípios brasileiros, esse profissional é frequentemente o primeiro contato do paciente com o sistema de saúde.

A orientação farmacêutica evita tanto o uso desnecessário de medicamentos quanto atrasos na procura por atendimento médico. Muitas vezes, uma conversa no balcão permite identificar sinais de gravidade e encaminhar rapidamente o paciente para o serviço mais adequado.

Nos últimos anos, a ampliação dos serviços farmacêuticos fortaleceu esse papel educativo. Farmácias passaram a oferecer, dentro dos limites previstos pela legislação, acompanhamento farmacoterapêutico, vacinação, testes rápidos e outros serviços clínicos que aproximam o profissional da rotina dos pacientes e ampliam as oportunidades de educação em saúde.

Ao longo de sua carreira, Amanda liderou operações de varejo farmacêutico, coordenou equipes, atuou como responsável técnica e desenvolveu processos voltados à conformidade regulatória, ao controle seguro de medicamentos e à assistência farmacêutica em diferentes unidades, conciliando gestão empresarial com atenção à segurança do paciente.

Para Amanda, reduzir a automedicação depende menos de restringir o acesso aos medicamentos e mais de ampliar o acesso à informação qualificada.

“O medicamento é uma ferramenta essencial para salvar vidas, mas precisa ser utilizado de forma consciente. O farmacêutico tem um papel decisivo nesse processo, orientando a população, prevenindo o uso inadequado e contribuindo para que os tratamentos continuem eficazes também no futuro”, conclui.

Leia Também

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *