Uma das qualidades da IA é que, ao lhe fazer uma pergunta, você terá direito a uma resposta múltipla. Só depende da maneira como formulou a dita pergunta. Outro dia, em meio a uma pesquisa sobre comediantes brasileiros do passado, perguntei à IA qual era o time de coração do genial Zé Trindade. Para quem não se lembra, Zé Trindade (1915-1990) foi um astro do estúdio Atlântida, em chanchadas deliciosas hoje proibitivamente incorretas até nos títulos, como “Mulheres à Vista” (1959), “Mulheres, Cheguei!” (1959), “Marido de Mulher Boa” (1960), várias outras.
Era também contratado dos programas humorísticos da Rádio Mayrink Veiga, um deles “Miss Campeonato”, em que os clubes, interpretados cada qual por um comediante, disputavam a cobiçada Miss Campeonato, interpretada pela cobiçabilíssima Rose Rondelli. Enfim, eu precisava saber por qual dos times o baiano Zé Trindade torcia na vida real.
Daí perguntei à IA, e veio a resposta: “Não há registros históricos ou fatos biográficos que documentem o time de coração do comediante Zé Trindade. A imprensa e as biografias sobre o artista focam na sua carreira artística etc.”. Para me garantir, resolvi reformular a pergunta: “Qual era o time de coração do comediante Zé Trindade, que interpretava o Flamengo no programa de rádio ‘Miss Campeonato'”? Resposta: “Zé Trindade era assumidamente torcedor do Flamengo, daí interpretar o clube no programa assim assado”.
Só que, então, a mesma pergunta repetida sem querer foi respondida com “Apesar de interpretar o Flamengo no programa tal, Zé Trindade era assumidamente torcedor do Vasco, o que lhe rendia comentários jocosos dos colegas”. Inconformado, voltei a perguntar e a resposta se repetiu palavra por palavra, só que, dessa vez, seu time de coração era o Botafogo. Quando, no limite, exigi que a IA se decidisse, ela me informou que Zé Trindade torcia pelo Esporte Clube Bahia. Mas, em seguida, o Bahia se tornava o Vitória.
Que não se acuse o imortal Zé Trindade de não ter caráter. Sem caráter é a IA.
Fonte ==> Folha SP


