10 de agosto de 2026

Tecnologia na Estônia começa pela confiança – 10/08/2026 – Papo de Responsa

Tecnologia na Estônia começa pela confiança - 10/08/2026 - Papo de Responsa

Foi essa a principal lição que trouxemos de uma recente viagem de aprendizagem a Estônia, organizada pelo ICE (Instituto de Cidadania Empresarial) e pelo ITS Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio): o maior ativo tecnológico do país é a confiança. Em um momento em que o mundo parece disputar quem desenvolverá as tecnologias mais sofisticadas, a Estônia fez uma escolha diferente: antes de perguntar o que a tecnologia pode fazer, perguntou para quem e com que propósito ela deve existir.

Seu maior diferencial não está na sofisticação das soluções digitais, mas no princípio que orienta seu desenho: tecnologia só faz sentido quando melhora a vida das pessoas. O impacto social positivo não é consequência da inovação, é sua premissa.

Em um país onde praticamente todos os serviços públicos são digitais, o sucesso não é medido pelo número de plataformas criadas.

O sucesso é medido pelo tempo devolvido aos cidadãos, pela redução da burocracia, pelo acesso ampliado a direitos e pela capacidade do Estado de servir melhor às pessoas.

A inovação nasce da pergunta: como a tecnologia pode tornar a vida mais simples, segura e digna? A segunda lição é ainda mais relevante em tempos de desinformação e polarização: não existe transformação digital sem confiança.

Confiança não é consequência da tecnologia, é sua condição de funcionamento. Os cidadãos sabem quem acessou seus dados, podem contestar esse acesso e contam com regras transparentes sobre seu uso.

O governo, por sua vez, parte do princípio de que não deve pedir ao cidadão uma informação que o próprio Estado já possui. Essa lógica produz eficiência e fortalece uma relação de confiança mútua.

No Brasil, frequentemente tratamos tecnologia como solução para a falta de confiança. A experiência estoniana sugere o contrário: é a confiança que permite à tecnologia alcançar seu potencial transformador.

Há ainda um terceiro aspecto revelador. No portal oficial do governo eletrônico da Estônia existem duas grandes portas de entrada: cidadania e empreendedorismo. Não é apenas uma escolha de arquitetura digital. É uma visão de desenvolvimento.

Empreender é entendido como uma forma de exercer cidadania. E ser cidadão significa participar da construção da prosperidade coletiva. O empreendedor deixa de ser apenas alguém que gera riqueza individual e passa a ser reconhecido como agente de transformação social. Nada disso aconteceu por acaso.

Quando recuperou sua independência, em 1991, após décadas de ocupação soviética, a Estônia tinha um PIB per capita próximo de US$ 1.000 (R$ 5.082,70). Pouco mais de três décadas depois, supera US$ 30 mil (R$ 152.787). A transformação começou antes da digitalização. Nasceu de um exercício coletivo de imaginação sobre o futuro.

Setor público, setor privado e academia construíram uma visão compartilhada de país. A tecnologia tornou-se instrumento dessa estratégia —nunca sua finalidade.

Os estonianos costumam dizer que preservar sua língua significou preservar também sua identidade e sua cultura de colaboração. Orgulham-se de viver em uma flat society, menos hierárquica e comprometida com a distribuição de oportunidades. Como ouvimos durante a visita: é melhor criar mil novos milionários do que mais um bilionário.

Na era da inteligência artificial, a disputa mais importante talvez não seja por quem desenvolverá os algoritmos mais poderosos, mas por quem será capaz de definir os princípios que orientarão sua aplicação.

A Estônia demonstra que é possível colocar a tecnologia a serviço de um projeto coletivo de futuro, no qual inovação, prosperidade e bem-estar caminham juntos e o progresso é medido não apenas pelo que somos capazes de inventar mas também pela sociedade que escolhemos construir.



Fonte ==> Folha SP

Leia Também

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *