Nem todas as palavras cuja história começa por uma relação com as ideias de branco ou preto, claro ou escuro, têm uma conexão com ideias raciais, preconceitos antigos, arraigados e nefastos.
A palavra “atroz”, por exemplo, provém do latim “atrox”, que já tinha o mesmo sentido. A palavra latina, contudo, era da família do radical “ater”, que queria dizer “preto” (“atro” ainda pode ter esse sentido em português).
A base indo-europeia que gera o adjetivo não tinha significado de cor: ela significava “fogo”. O sentido latino quase certamente vem da imagem da madeira carbonizada, por exemplo.
Veja lá então, antes de querer cancelar alguma palavra: a ligação com a cor existe, mas o caminho é tortuoso, estranho e sinuoso e, por isso mesmo, muito mais interessante.
“Fogo” passa a querer dizer “queimado”, que vira “calcinado”, que vira “enegrecido”, que vira “vitimado”, que vira “tragédia”, que gera “atrocidade”.
Por outro lado, a ligação do adjetivo “melancólico” com a cor preta é clara (sem gracinhas). Ela nasce da famosa teoria pré-científica de que o sistema emocional e afetivo das pessoas seria governado pelo equilíbrio de quatro fluidos que o corpo produzia.
Assim, o nosso “humor” (palavra ligada a umidade, que ainda leva a letra “H” em Portugal) seria uma consequência das quantidades de sangue, fleuma, bile amarela e negra que circulavam no nosso organismo.
Os temperamentos correspondentes à preponderância de cada um deles eram “sanguíneo” (empolgado), “fleumático” (calmo), “colérico” (agressivo) e, no caso da bile negra, “melancólico”. Esse “melan” vem do mesmo radical que nos deu, por exemplo, “melanina”, e quer dizer apenas: preto.
Mas não era de nada disso que eu queria falar.
Porque estamos em tempos de eleição. E, além das múltiplas chicanas e cambalachos que vemos aparecer quando candidatos mudam sua autodeclaração de “raça” apenas pra tentar burlar sistemas de cotas, além da divisão de votos que também segue nítidas linhas de cor, a eleição também nos coloca diante de uma antiga noção de que a cor branca está ligada à ideia de “pureza” —uma convenção que data de séculos antes de qualquer noção de eugenia, “pureza racial” etc.
Num certo sentido, na Roma Antiga, a ideia de que o branco era puro tinha mais a ver com o nosso hábito de usar a cor branca pro avental ou o jaleco de quem precisa demonstrar higiene. Afinal, um tecido branco mostra muito fácil a sujeira.
Especialmente em sociedades que ainda não tinham a nossa facilidade de acesso a água limpa e produtos de limpeza, ostentar uma roupa imaculadamente alva era sinal (simbólico) de “pureza” e sinal (prático) de alguma riqueza.
Era assim que os homens (e eram de fato apenas homens) que se apresentavam como opções para cargos públicos iam um passo além de envergar a toga branca, que já era a mais comum pros cidadãos das classes altas da cidade.
Eles usavam pó de giz pra branquear ainda mais sua roupa e ostentar então o que se chamava de toga “cândida”.
Sim. O sentido dessa palavra em latim era apenas “branca”. E, sim, é daí que vem o fato de que em boa parte do Brasil a água sanitária se chama “cândida”. (E é daí que vem, sim, o nome da “candidíase”.)
E, sim, é daí que vem também a nossa palavra “candidato”, que literalmente significa “embranquecido”.
Melancólico, isso. Talvez até atroz.
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Fonte ==> Folha SP


