16 de julho de 2026

Uso excessivo de inteligência artificial pode comprometer desempenho de estudantes em vestibulares, alerta especialista

Arquivo pessoal

Com notas máximas em redação cada vez mais raras, educadora destaca que dependência de ferramentas de IA pode prejudicar o desenvolvimento da escrita crítica exigida em provas como o Enem

A popularização das ferramentas de inteligência artificial para produção de textos tem transformado a rotina de estudantes em todo o país. Se por um lado, plataformas como ChatGPT e similares podem auxiliar na organização de ideias e no aprendizado, por outro, especialistas alertam para um risco crescente: a perda da capacidade de desenvolver uma escrita autoral, crítica e estruturada, competência fundamental para quem pretende conquistar uma vaga em vestibulares concorridos.

O debate ganha ainda mais relevância diante dos resultados recentes do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Na edição de 2025, apenas dez participantes alcançaram a nota máxima na redação entre mais de quatro milhões de inscritos. O número acompanha uma tendência de queda observada nos últimos anos e levanta questionamentos sobre os desafios enfrentados pelos candidatos na produção textual.

Para a empresária, escritora, professora e fundadora da Cris Oliveira – Tudo de Texto – especializada em ensino customizado redação, Cris Oliveira, o uso indiscriminado da inteligência artificial pode criar uma falsa sensação de domínio da escrita.

“A IA é uma excelente ferramenta de apoio quando utilizada com critério. O problema começa quando o estudante passa a terceirizar completamente o processo de pensar, argumentar e estruturar suas ideias. Nenhuma ferramenta consegue substituir o repertório, a capacidade crítica e a autoria que as bancas examinadoras procuram avaliar”, afirma.

Segundo a especialista, o principal diferencial de uma redação de alto desempenho continua sendo a capacidade do candidato de construir argumentos consistentes e demonstrar domínio da língua portuguesa.

“Os vestibulares não avaliam apenas se o texto está gramaticalmente correto. Eles analisam a capacidade de reflexão, a coerência dos argumentos, a articulação de repertórios socioculturais e a proposta de solução apresentada. Essas competências precisam ser desenvolvidas pelo próprio estudante”, explica.

Outro ponto que desperta atenção é a expectativa em torno das correções do Enem 2026. Após as mudanças implementadas na prova em 2025, especialistas acompanham de perto possíveis impactos nos critérios de avaliação e no desempenho dos candidatos.

Para Cris Oliveira, independentemente de eventuais ajustes no exame, a preparação continuará exigindo treino constante da escrita.

“Muitos estudantes acreditam que escrever bem é um talento nato, mas se trata de uma habilidade construída. Quanto mais o aluno escreve, revisa, lê e recebe orientação adequada, maior é sua capacidade de produzir textos consistentes e diferenciados. Não existe atalho tecnológico capaz de substituir esse processo”, destaca.

A professora acredita que a inteligência artificial deve ocupar um papel complementar nos estudos, funcionando como ferramenta de consulta, pesquisa e aprimoramento, sem substituir a prática da escrita.

“O estudante que utiliza a IA para ampliar conhecimentos e revisar seus textos tende a colher benefícios. Já aquele que apenas copia estruturas prontas corre o risco de chegar ao vestibular sem desenvolver as competências que serão efetivamente avaliadas. O desafio atual é aprender a usar a tecnologia sem abrir mão do pensamento próprio”, conclui.

Com a proximidade dos principais vestibulares do país e as discussões sobre o futuro das avaliações educacionais, o equilíbrio entre tecnologia e desenvolvimento das habilidades humanas surge como uma das principais reflexões para estudantes, educadores e famílias.

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