Violência é tema prioritário nas eleições de 2026 – 06/07/2026 – Caos Planejado

Seis policiais armados avançam por rua com prédios comerciais fechados. Um policial está ajoelhado no meio da rua, enquanto outros se aproximam de uma entrada. Ao fundo, grupo de pessoas observa próximo a motocicletas e viatura blindada estacionada.

Conforme as eleições se aproximam, o tema que mais mobiliza eleitores em 2026 é a violência. De acordo com o relatório do FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), quase metade dos brasileiros tem medo de andar pela sua vizinhança depois de anoitecer e mais de 80% têm medo de ser roubado à mão armada. Cerca de 30% dos eleitores entendem que o crime e a violência são os problemas mais urgentes do Brasil, independente do lado ideológico.

Essa percepção tem fundamento. Segundo o FBSP, quase 1 milhão de celulares são roubados anualmente no país, e 13% dos brasileiros –quase 22 milhões de pessoas– já tiveram algum familiar ou conhecido assassinado.

A urbanista Jane Jacobs dizia que a segurança pública dependia de uma vigilância natural de “olhos da rua”, ou seja, de moradores ou comerciantes em contato com o espaço público, assim como de outros pedestres que possam dissuadir uma ação criminosa.

No entanto, os bairros de maior incidência de roubos em cidades como São Paulo são alguns dos que melhor oferecem essas condições, como Pinheiros, com vítimas em ruas movimentadas em plena luz do dia. Fica claro que a configuração urbana, sozinha, é incapaz de resolver o problema, embora seja parte da equação.

A própria natureza da criminalidade brasileira tem se transformado: enquanto no passado o crime era financiado principalmente pelo tráfico de drogas, atualmente entra em operações comerciais, no setor financeiro, em golpes cibernéticos e também no controle territorial, este último mais sensível à política urbana.

Segundo o mapa histórico dos grupos armados do Rio de Janeiro, elaborado pelo Instituto Fogo Cruzado e Geni (Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos) da Universidade Federal Fluminense, 4 milhões de pessoas vivem sob controle ou influência de grupos armados na região metropolitana do Rio. Na capital, a proporção chega a 42% da população (2,5 milhões de pessoas).

Esse controle é monetizado com uma série de “serviços” com cobranças coercitivas, como taxa de gás, lixo, “gatonet” ou a própria segurança. Pela vulnerabilidade dos territórios e atividades informais, hoje tanto facções como milícias já veem na incorporação imobiliária, seja de loteamentos clandestinos ou construção de edifícios, uma oportunidade de expansão de suas receitas. Esse cenário mostra como o enfrentamento do problema passa, necessariamente, pela política urbana.

Dois dos programas mais ambiciosos –embora incompletos– do Rio de Janeiro para endereçar a questão foram o Favela Bairro e as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora). O Favela Bairro focou em levar infraestrutura urbana para as favelas, ajudando a incorporá-las à “cidade formal”. Já as UPPs tentaram ocupar as áreas com polícias pacificadoras, em um modelo distinto das operações militarizadas. Com a evolução do programa, a ideia era expandir para UPPs com serviços sociais, mas essa fase fundamental foi desidratada.

O exemplo de Medellín, que passou de uma das cidades mais perigosas do mundo a um nível de segurança invejável nas suas favelas, oferece uma visão mais completa. Após intervenção policial, o passo seguinte foi instalar centros comunitários, infraestruturas de transporte, conexões de água e luz e uma série de melhorias físicas e serviços sociais para integrar os bairros ao restante da cidade.

O poder público passou a ocupar não apenas com força policial, mas como apoiador e prestador de serviços. Inspirados em Medellín, os Compaz (Centros Comunitários da Paz) de Recife têm gerado resultados com um modelo parecido. Ao longo de quatro anos, foi registrada uma queda de 15% na violência nos territórios onde os equipamentos sociais foram instalados.

Ao analisar essas experiências, é possível concluir que, embora a força policial tenha um papel importante, ela precisa estar aliada a políticas sociais e urbanas. Além disso, um problema a ser superado pelos nossos governantes é a dificuldade em executar e dar continuidade a projetos complexos que ultrapassem seus mandatos. Só assim poderemos olhar com mais esperança para a segurança pública no Brasil.

Urbanista e editor-chefe do Caos Planejado, plataforma digital sobre cidades



Fonte ==> Folha SP

Leia Também

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *