Volto a falar de “A Odisseia” por aqui depois de ler, nesta Folha, o texto de Martim Vasques da Cunha desancando a releitura cinematográfica do poema feita pelo diretor Christopher Nolan. O escritor investe de lança em riste contra o filme, dá razão a Elon Musk, dizendo que Nolan “se vendeu” e diz que a obra favorece “a extinção da memória” da obra de Homero.
Será mesmo? Algo me diz que Cunha está reagindo ao filme com base numa memória afetiva e idealizada do que seriam os épicos homéricos, e não com base no que de fato há neles. Além disso, seu raciocínio sobre o efeito de uma adaptação no legado da obra original tem premissas que me parecem falsas.
Começo pelos detalhes mais palpáveis. O autor lamenta que Nolan tenha retratado Penélope, mulher de Odisseu/Ulisses, “a mais fiel das esposas”, cogitando reinar em Ítaca sem o esposo. Diz que o único rebento do casal, Telêmaco, “o mais leal dos filhos, perdeu toda a nobreza da juventude”.
O escritor se esquece que, como bem aponta a helenista Natalie Haynes, Telêmaco, embora deva ter no mínimo uns 20 anos quando o poema começa, comporta-se, de início, como se fosse um adolescente de 14: é inseguro, grosseiro com a mãe e só consegue tomar a iniciativa de procurar notícias de Odisseu com a ajuda da deusa Atena. Mesmo após sua jornada de amadurecimento, ainda é incapaz de vergar o arco de Odisseu nas primeiras tentativas.
Quanto a Penélope, a fidelidade da personagem não é simplesmente canina. Tal como o marido, muito do que faz está temperado com certo ceticismo sardônico e impreciso. Não sabemos, por exemplo, até que ponto sua “dificuldade” em reconhecer Odisseu disfarçado é real ou fingida. E, inspirada por Atena, ela chega a se mostrar de forma provocante aos mais de cem pretendentes que querem desposá-la (no canto 18 do poema).
Aprendi com o saudoso classicista Junito de Souza Brandão (1924-1995) que a variante é o pulmão do mito. Ou seja, o brilhantismo literário de Homero nunca fez com que suas versões da mitologia grega fossem “canônicas” ou congeladas no tempo mesmo no mundo antigo.
Em outras variantes, Penélope é infiel, sendo expulsa de Ítaca quando o marido volta; há até uma na qual ela cede a todos os pretendentes e dá à luz o deus Pan (cujo nome pode ser interpretado como “todos/tudo” em grego).
Senti que, em seu texto, Cunha ficou dançando em torno de um fato cujo nome ele não ousou dizer: o Odisseu de Homero é, por falta de palavra melhor, um tanto sociopata. E mais sociopata se torna conforme a tradição clássica evolui depois de Homero: maquiavélico até a medula na peça “Filoctetes”, de Sófocles (século 5º a.C.), seus epítetos viram “cruel Ulisses” ou “falso Ulisses” na “Eneida” (século 1º a.C.).
E, por falar em sociopatas, não deveria surpreender que Musk, o sujeito que acha que o Ocidente sofre de “empatia suicida”, esteja tão fulo com a versão de Nolan. Afinal, o filme enfatiza outro aspecto do texto homérico: a “xenia” (lê-se “ksenía”), o dever sagrado da hospitalidade para com o estrangeiro.
A visão do diretor será influente, ao que parece. Mas é descabido achar que ela vai apagar os poemas homéricos –os quais, lamento informar, só são lidos por meia dúzia de pessoas neste século. É bem mais provável que ao menos alguns fãs do filme resolvam conhecer Homero e seu Odisseu muito mais complicado. Saldo positivo.
Fonte ==> Folha SP


