2 de agosto de 2026

A pasteurização do negro – 02/08/2026 – Ana Cristina Rosa

Pôster produzido por estudante do Colégio Equipe após protesto antirracista no Shopping Higienópolis

Cresci ouvindo causos sobre as incontáveis vezes em que pessoas da minha família foram confundidas umas com as outras. As histórias sobre essas reiteradas trocas de identidade acabavam sempre com o comentário “muita gente acha que todo preto é igual”.

Essa é uma situação que reflete uma das características do racismo: o apagamento de identidades negras. Coisa que alcança não só cidadãos comuns, mas também figuras públicas, artistas, atletas, magistrados, intelectuais…

Foi o que aconteceu com a cientista da computação Ana Carolina Silva das Neves da Hora, a Nina da Hora, uma das principais referências do país quando o assunto é tecnologia, inteligência artificial e inclusão digital.

Nina teve o nome incluído na listagem criada por um jornal de circulação nacional (“101 brasileiros que constroem o futuro”) para marcar os 101 anos da publicação, destacando personalidades que ajudam a antecipar o amanhã. Apesar disso, sua imagem foi confundida com a de outra mulher negra, a pedagoga e escritora Lu Ain-Zaila.

O erro foi corrigido digitalmente, mas deixou impressa a evidência de que o rosto, a trajetória e o legado de pessoas negras são percebidos de maneira pasteurizada, resultando num tratamento genérico de pretos e pardos, como se fossem todos iguais. Afinal, identidade é algo que se manifesta pela consciência da diferença de um indivíduo em relação ao outro.

Essa negação da alteridade aos negros não é uma exclusividade da imprensa. Trata-se de algo presente em ambientes corporativos, universidades, instituições públicas, eventos e num sem-número de situações nas quais pessoas negras são confundidas com terceiros com os quais possuem somente a negritude em comum.

É o que Frantz Fanon batizou de “esquema epidérmico do sistema colonial”, numa referência às tentativas de redução do negro a uma cor. Por isso hoje, pouco mais de um ano após a publicação da coluna “Negro pasteurizado”, reafirmo neste espaço: negro não é tudo igual.



Fonte ==> Folha SP

Leia Também

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *