18 de setembro de 2026

Canais esportivos: libertem a tecla SAP! – 18/09/2026 – Sandro Macedo

Canais esportivos: libertem a tecla SAP! - 18/09/2026 - Sandro Macedo

Diz o dito popular que a idade traz sabedoria. Este humilde escriba, que se recorda vivamente da Copa de 1982, mas não consegue lembrar do almoço de ontem, tem suas dúvidas.

Certo é que a idade tem aumentado o grau de ranhetice e, proporcionalmente, diminuído o nível de paciência deste que vos escreve. Principalmente diante das transmissões esportivas.

Sim, claro, todos têm uma implicância com um ou outro narrador/comentarista, mas comigo um ou outro narrador/comentarista está virando a exceção —deu vontade de chorar quando Milton Leite (o narrador, não o político) ficou ausente das principais transmissões. A regra é a irritação. Mas a culpa é toda da minha ranhetice, reconheço. Se encontrasse com qualquer um desses narradores na rua, poderia dizer tranquilamente: “Não é você, sou eu”.

Evidentemente, tenho meus favoritos (todos abaixo de Milton Leite). Everaldo Marques, na Globo, vai bem em qualquer esporte, impressionante sua versatilidade; Fernando Nardini com Rafael Oliveira em jogo de Premier League é a perfeição na Cazé TV, não precisa de mais ninguém; Ari Aguiar com Paulo Antunes na ESPN é outra dupla perfeita na NFL.

Normalmente, quando há dois jogos com transmissões simultâneas, basta um narrador/comentarista falar um impropério para que eu troque de canal —impropério apenas no meu julgamento. De novo, “não é você, sou eu”.

E agora, com a volta da Premier League, Champions League, Bundesliga, La Liga, Primeira Liga, Se Liga e Qualquer Liga, estou feliz com a oferta, que ganhou ainda a companhia da NFL (aprendi a gostar). Mas aí surge a impaciência.

E olha que nem ligo para jogo ruim, devido à longa experiência com Campeonato Brasileiro. O que me tira do sério mesmo são as pérolas ditas a cada transmissão, ou o esforço para tentar fazer um jogo ridículo parecer bom, como se eu estivesse acompanhando pelo rádio, sem acesso às imagens.

Tudo tem que parecer emocionante. Todo gol é golaço, toda defesa no meio do gol é impressionante. Todo jogador que acerta três passes é cotado para a seleção. E todos aumentaram os decibéis da narração no ponteiro “refrão de hit sertanejo”.

Outro dia, em um aguardado jogo europeu, o jovem soltou a seguinte poesia: “Futebol tem muito disso, né? Existe um time que tá melhor que o outro, e existe a bola entrar no gol”. Troquei de canal.

E (com todo o respeito) não aguento ouvir que o futebol é a arte do possível. Parece um erro filosófico. Afinal, tudo é a arte do possível. Cerâmica é a arte do possível. Bonsai é a arte do possível. Talvez se dissessem que no futebol coisas impossíveis acontecem, eu ficaria mais satisfeito (ou não). De novo, “não é você, sou eu”.

Em uma partida da NFL, o coleguinha gritava na TV com disposição, “quem pegar, pegou; quem pegar, pegou; quem pegar, pegou”. Na hora fiquei com fome, depois entendi. Era exatamente o mesmo bordão do feirante perto de casa, aos sábados. Aliás, ele, o feirante, é uma simpatia.

Na primeira partida da NFL transmitida nesta temporada pela Netflix, o narrador assumiu o microfone e disse logo de cara algo como: “Sou o Luisinho e este jogo está disponível também com a narração em inglês”. Quase beijei a TV, e o Luisinho. E ativei a tecla do som original.

Na ESPN, aliás, todos os jogos da NFL podem ser apreciados com o som original (na SporTV não). E um ou outro duelo da Premier League também. Mas por que não todos?

Sendo assim, este escriba que gosta de dar audiência para todos os canais faz um apelo para os donos das transmissões de jogos internacionais: libertem o SAP.



Fonte ==> Folha SP

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