19 de abril de 2026

Complexo do Alemão é o primeiro conjunto de favelas do Rio a consolidar um Observatório do Calor

Provar que as mudanças climáticas afetam de forma diferente os moradores da cidade do Rio de Janeiro. Com esse ponto em mente, a Organização Não Governamental (ONG) Voz das Comunidades, sediada no Morro do Adeus, integrante do Complexo do Alemão, começou a se articular para ter uma estrutura capaz de realizar essas medições e investigar o tema. As primeiras ideias vieram em 2023 e em agosto de 2025 a organização passou a ser responsável pelo Observatório do Calor. “Não foi algo imediato, porque a preocupação sempre foi construir um projeto que realmente representasse a realidade da favela, e não apenas replicar modelos prontos”, conta a idealizadora do projeto Gabriela Conc ao Brasil de Fato.

As medições começaram oficialmente em dezembro. “Desde então, os dados têm confirmado aquilo que os moradores já sentem há muito tempo”. O relatório das medições de dezembro e janeiro mostraram uma temperatura recorde de 43,9 °C quando comparada com as obtidas pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), quando a estação de Seropédica registrou 41ºC em 12 de janeiro. Enquanto a umidade média ficou em 60%, o que eleva a sensação de calor. E a sensação térmica ultrapassou 50 ºC.

Na sede da ONG foi instalada uma estação meteorológica fixa e há medidores móveis para serem levados para diferentes pontos do território, que permitem registrar as diferenças de temperatura nas áreas mais abertas e nas mais adensadas, como nos becos e vielas. E as atividades não se limitam a medição de temperatura. A equipe foi às ruas para saber se os moradores têm condições básicas de enfrentamento ao calor e a resposta foi negativa: 95% dos 418 entrevistados afirmaram não ter acesso regular à água. A pesquisa foi realizada entre setembro e novembro de 2025.

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Quando a temperatura atinge essa marca, o município está nos níveis 4 e 5 do protocolo de calor extremo. Isso significa que devem ser instalados pontos de hidratação, os eventos externos devem ser cancelados e o recomendado é estar em áreas refrigeradas, o que não é uma realidade de todos. Temperaturas extremas são responsáveis por causar sensação de fraqueza e enjoo, desidratação e nos casos mais graves pode levar a perda de consciência, problemas respiratórios e cardíacos.

Além de evidenciar o problema para além das fronteiras do Complexo do Alemão, o Observatório do Clima quer melhorias concretas para a comunidade. “A expectativa é que o Observatório subsidie políticas públicas de adaptação climática, como ampliação de áreas verdes, uso de Soluções Baseadas na Natureza, melhorias no planejamento urbano e ações voltadas à redução das ilhas de calor”.

Ações desenvolvidas

A criação do Observatório do Calor no Alemão foi realizada em parceria com a Secretaria de Meio Ambiente. Entre as ações que já estão sendo tomadas, a secretária Tainá de Paula cita o protocolo de calor extremo para o município, que combina temperatura média da cidade e umidade relativa do ar.

Uma medida incentivada pela secretária é a existência de linhas de crédito para a compra de equipamentos de ar-condicionado a preços mais acessíveis. Além disso, moradores e comunidades podem acionar a Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (Athis) pelo edital do Conselho de Arquitetura (CAU) da cidade do Rio de Janeiro. As inscrições já estão abertas e seguem até 1º de março. O edital prevê recursos para que organizações da sociedade civil elaborem projetos para a população de baixa renda. Outra possibilidade é procurar os escritórios modelo das faculdades de Arquitetura das universidades, como Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade Federal Fluminense (UFF).

Athis

A cidade e o Estado do Rio de Janeiro são um dos poucos entes da federação que possuem legislações próprias desde que a lei federal 11.888/2008 entrou em vigor. A norma federal estabelece regras gerais, como direito a assistência gratuita para todas as famílias com renda inferior a três salários mínimos para que possam ter moradia digna. Já estados e municípios devem ser mais específicos quanto à regulamentação. Na cidade do Rio de Janeiro, a lei é de autoria da vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018.

Em artigo publicado no Brasil de Fato, pesquisadores do Observatório das Metrópoles, fizeram um histórico da assistência habitacional na cidade do Rio de Janeiro, que reúne conquistas em torno da pauta, mas também uma avaliação sobre a dificuldade de fazer com que a legislação prevista seja efetivada. “A gente tem pouquíssimas assessorias técnicas no Rio hoje atuando por causa de vários problemas, mas um deles é a descontinuidade das políticas, dos recursos, assim, elas não conseguem se manter por muito tempo”, disse ao Brasil de Fato a pesquisadora do Observatório Luciana Ximenes.

No caso das mudanças climáticas, ela acrescenta que as melhorias individuais ou em bloco, devido ao adensamento das favelas, devem ser acompanhadas de melhorias urbanísticas gerais. “Uma política de melhoria habitacional articulada com urbanização de favelas é tudo o que é defendido nesse campo. No caso do Complexo do Alemão, um dos grandes problemas é o risco de deslizamento, intermitência de água, intermitência de energia, problema de saneamento básico, então, você tá numa ilha de calor, no calor extremo e não tem água nem luz, ou não tem luz e por isso não tem bomba e por isso não tem água”, completa.



Fonte ==> Brasil de Fato

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