Hélio Schwartsman: Pacientes sofrem, por definição – 05/06/2026 – Hélio Schwartsman

Profissionais de saúde praticam reanimação cardiopulmonar em manequim adulto em ambiente hospitalar. Um aplica compressões torácicas enquanto outro utiliza bolsa de ventilação manual para insuflar ar no manequim.

Este é um daqueles casos em que o significado e a origem do termo dizem muito. “Paciente” é “aquele que sofre”, que “suporta” um fardo. A palavra portuguesa veio do verbo latino “patior”, expresso só na voz passiva, que também se relaciona com as palavras “paciência” e “paixão”, como na Paixão de Cristo. Essa combinação de dor e passividade descreve bem a relação de pacientes com seus médicos durante a maior parte da história.

Foi só a partir da segunda metade do século 20 que começou a ganhar tração o conceito de autonomia do paciente, já bem estabelecido nos países desenvolvidos. No Brasil, esse processo também está em curso, mas com décadas de atraso e mais na teoria do que na prática. Na vida real, pacientes ainda são muitas vezes tratados de forma autoritária.

É inegável, porém, que as coisas estão mudando para melhor. Um marco importante foi a entrada em vigor, em abril, do Estatuto dos Direitos do Paciente (lei nº 15.378). Pela primeira vez, uma lei federal estabelece que pacientes maiores e competentes têm direito de recusar tratamento. Eu teria sido ainda mais explícito, escancarando que esse direito inclui o de rejeitar alimentação por via enteral ou parenteral e hidratação endovenosa, mas já avançamos bastante.

Até a sanção da norma, a autonomia do paciente se materializava principalmente por dedução a partir de princípios constitucionais, como o da legalidade estrita e o direito à intimidade.

O atual diploma também é bioeticamente muito mais moderno do que o Código de Ética Médica, que acabava definindo as regras do jogo, ainda que de forma juridicamente discutível. O estatuto também traz avanços em relação a diretivas antecipadas, consentimento informado, segunda opinião, acesso ao prontuário e cuidados paliativos.

Se seguirmos a trajetória percorrida por outros países, depois de alguns anos com a autonomia do paciente funcionando a pleno vapor, ficará óbvio que as pessoas também devem ter o direito de abreviar seu sofrimento, se assim desejarem.



Fonte ==> Folha SP

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