12 de outubro de 2026

Infância exige presença, educação e limites.                           

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 Por Bayard Do Coutto Boiteux

O Dia das Crianças não pode se resumir a presentes, fotografias e mensagens afetuosas. É uma data que nos obriga a olhar para a infância concreta: a de quem tem escola, cuidado e proteção, mas também a de quem cresce sem segurança, oportunidades ou um adulto disponível para ouvir. Mais do que celebrar as crianças por um dia, precisamos assumir o compromisso de defendê-las todos os dias.

A infância é o tempo em que começamos a formar nossa maneira de compreender o mundo, conviver com os outros e fazer escolhas. Não é um intervalo à espera da vida adulta. É vida plena, com sentimentos, perguntas, medos, descobertas e direitos. O modo como uma criança é tratada, orientada e respeitada pode abrir caminhos ou impor barreiras que ela carregará por muitos anos.

Os pais têm papel fundamental nessa formação. Estar presente não significa apenas prover o sustento ou perguntar como foi a escola. Significa participar, acompanhar as mudanças, conversar sem pressa e estabelecer referências. A criança precisa de afeto, atenção e limites. Precisa aprender que há regras de convivência, que suas atitudes têm consequências e que o respeito ao outro não é negociável.

Arquivo pessoal

 Por Bayard Do Coutto Boiteux

Limite não é violência, ameaça ou humilhação. É orientação firme, coerente e adequada à idade. Dizer “não” quando necessário também é uma forma de cuidado. A criança deve ser ouvida e respeitada; aos pais cabe orientá-la, dar exemplo e ajudá-la a compreender as consequências de suas escolhas. Essa presença oferece segurança para que ela cresça com autonomia.

A escola participa dessa tarefa, mas não pode cumpri-la sozinha. Ensinar é transmitir conhecimento, despertar curiosidade, estimular o pensamento e mostrar que há possibilidades além daquelas que a criança conhece. O professor pode mudar uma trajetória quando reconhece um talento ou ajuda um aluno a confiar em sua capacidade. Ainda assim, a educação exige uma aliança entre família, escola e poder público. Não se pode cobrar resultados de professores sem valorizar seu trabalho, nem responsabilizar apenas as famílias por problemas que também dependem de políticas públicas.

Trago comigo a lembrança do Instituto Lafayette, da Escola Municipal Francisco Cabrita e do Colégio São Bento. Cada uma dessas experiências ajudou a ampliar meu olhar. Mais tarde, como professor, contribuí para a formação de inúmeros profissionais na UniverCidade. Essa trajetória me ensinou que uma oportunidade concreta pode alterar o rumo de uma vida. Educar é abrir portas e dar condições para que cada pessoa possa escolher por qual delas deseja passar.

A formação não acontece somente em sala de aula. Lembro-me das visitas ao consultório da psicóloga Celmy, das festas juninas que organizava no número 30 da Delgado e do coral Pequenos Cantores da Guanabara. A música, a cultura, a brincadeira e a convivência também ensinam: ajudam a criança a descobrir seus interesses, expressar sentimentos e reconhecer que pertence a um grupo. Uma infância rica não depende de luxo. Depende de cuidado, estímulo e acesso a experiências que ampliem o mundo.

Fui uma criança feliz, embora minha infância também tenha conhecido dificuldades. A prisão do meu pai atingiu a vida da família; um atropelamento na Barão de Itapagipe me deixou em coma. Também vivi, ainda criança, uma situação de abuso por parte de um parente, cuja gravidade só compreendi mais tarde. A responsabilidade foi de quem praticou o abuso, nunca minha. Essas lembranças fazem parte da minha história, mas não a resumem.

Toda criança precisa crescer sabendo que pode conversar com os adultos sobre o que vive. Os pais devem estar atentos, observar mudanças e abrir espaço para que ela conte qualquer situação diferente ou desconfortável, sem medo de ser culpada ou castigada. Nem sempre a criança compreende o que está acontecendo ou consegue explicar; por isso, cabe aos adultos escutar com seriedade e agir para protegê-la.

Esse compromisso precisa alcançar todas as crianças. Há meninas e meninos que encontram livros, atividades culturais, alimentação adequada e apoio escolar; outros convivem com a violência, a fome e a falta de oportunidades. Não basta repetir que cada um deve construir o próprio futuro se tantas crianças começam a vida sem condições para fazer escolhas. O direito de aprender, desenvolver talentos e imaginar novos caminhos não pode depender do endereço onde se nasce ou da renda da família.

No Dia das Crianças, defendo menos discursos e mais responsabilidade: pais presentes, limites construídos com afeto, escolas respeitadas, professores valorizados e políticas públicas que protejam e ofereçam oportunidades. Uma sociedade revela seu caráter pela maneira como trata suas crianças. A infância passa, mas as marcas e as possibilidades que construímos nesse período permanecem. Cuidar dela não é um gesto de ocasião; é uma escolha coletiva, que começa em cada adulto disposto a assumir a sua parte.

Bayard Do Coutto Boiteux é escritor, professor universitário e pesquisador .

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