Luana Piovani não gosta de crente. A atriz deu uma entrevista à jornalista Maria Fortuna, do jornal O Globo, dizendo que os evangélicos são um “protótipo de ser desprezível” e “raça que de amor e de Deus não tem nada”. E tudo bem generalizar, porque a maioria, segundo ela, seria isso mesmo.
Luana se declara crente. Por isso mesmo, diz, tem “lugar de fala” para esculhambar três em cada dez brasileiros que também o são.
Sua avó era da Igreja Adventista do Sétimo Dia, uma corrente cristã que nem todo evangélico reconhece como parte do segmento, por discordâncias doutrinárias. Mas a base cristã é a mesma, e Luana tem certeza de que vovó, viva estivesse, choraria “lágrimas de sangue” se soubesse o que foi feito da sua fé.
Primeiro, vale ulular o óbvio. Lugar de fala não é desculpa pra soltar qualquer abobrinha preconceituosa que vem à cabeça. Uma mulher que xinga a outra de piranha e outros termos sexistas para atacá-la não deixa de ser machista, e ter um útero não lhe dá licença para agir assim.
Luana faz o tipo “falo mesmo” e briga com quem for preciso, de Anitta a Neymar. Muitas vezes acerta. Já elogiei posicionamentos que ela teve nos últimos anos. Mas ela erra também. E errou feio quando comparou uma parcela expressiva da população “ao que há de pior no ser humano”.
Ela não fez críticas (sempre válidas) a pastor X, Y ou Z. Também não repreendeu a intolerância religiosa que parte de quem quer que seja, do líder ou do fiel. Ninguém aqui está falando em passar pano para comportamentos social e moralmente degradantes. Isso aí é bem ruim e não pode nunca ser relativizado, como não vou relativizar chamar evangélico de desprezível.
O que Luana fez foi desdenhar da fé de milhões de brasileiros, inclusive de muita gente que serve à própria classe alta da qual ela faz parte. Quantas empregadas domésticas e babás largam o batente e vão direto pro culto? Vá Luana dizer na cara da mulher que deixa o próprio filho na creche integral e, depois de passar duas horas no transporte público, limpar a bunda dos filhos das famílias ricas que ela é o esgoto da sociedade.
Falta entender muita coisa aí. A pluralidade do meio evangélico, as mil variantes teológicas e sociais, as rinhas internas das igrejas. Falta sobretudo descer da torre de marfim e investigar a fundo os motivos que levaram tanta gente a escolher um candidato e não outro.
Esse é um debate complexo, que envolve autonomia do fiel, cálculo social e jogo de poder. Certamente não pode ser resumido a tachar todo mundo de abjeto ou ignorante, na versão condescendente de quem enxerga crente como coitadinho manipulado.
A maioria nas igrejas evangélicas é mulher, negra e pobre. Dias antes de Luana dar essa entrevista, encontrei várias fiéis com esse perfil num evento da Igreja Universal na Sexta-feira Santa. Elas têm até apelido nas igrejas: são as “tias do coque”. São elas que vamos reduzir a escória da sociedade? É esse o caminho que queremos seguir?
Tô fora. E boa sorte na eleição de 2026.
Colunas
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
Fonte ==> Folha SP


