Quem realmente está com as cartas? Trump, Irã ou a IA? – 10/05/2026 – Thomas L. Friedman

Homem em uniforme militar azul aponta para mapa do Golfo Pérsico exibido em tela, que mostra localizações de navios e aeronaves entre Irã, Arábia Saudita e Paquistão. No canto direito, imagens menores exibem um navio de guerra e um helicóptero em operação marítima.

O presidente Donald Trump frequentemente recorre a metáforas de pôquer. Ele disse ao presidente Volodimir Zelenski, da Ucrânia, que ele “não tinha cartas” quando se tratava de enfrentar a Rússia. Trump disse aos líderes do Irã que eles “não tinham cartas” quando se tratava de enfrentá-lo.

Alguém poderia me dizer quando é a noite de pôquer na Casa Branca de Trump? Porque eu realmente gostaria de ter um lugar naquela mesa.

Trump está apostando que, ao bloquear o Irã para impedi-lo de exportar seu petróleo, ele pode forçar Teerã a negociar nos termos dele. Mas alguns especialistas acham que o Irã tem renda suficiente e pode armazenar petróleo o bastante para aguentar pelo menos vários meses.

Enquanto isso, o Irã está apostando que, ao estrangular o estreito de Hormuz —e elevando os preços da gasolina e dos alimentos para os americanos e todos os seus aliado— pode forçar Trump a eventualmente agir de acordo com seu rótulo TACO: Trump Always Chickens Out (Trump Sempre Amarela).

É doloroso assistir a isso. Trump e Teerã estão dizendo: “Vou prender a respiração até você ficar roxo”. Veremos quem perde o fôlego primeiro.

A verdadeira questão é: como diabos o regime do Irã durou tanto tempo —dois meses— contra o poderio militar combinado de Israel e dos Estados Unidos? A resposta: Trump não entende o quanto a guerra assimétrica reformulou a geopolítica apenas nos últimos anos.

Mas não quero ser muito duro com nosso presidente. Ele não está sozinho. O Irã está para Trump assim como a Ucrânia está para Vladimir Putin, assim como o Hamas e o Hezbollah têm sido para Binyamin Netanyahu e —preparem-se— assim como a próxima geração de hackers cibernéticos será para a China, os Estados Unidos e todos os outros Estados-nação.

Pense nisso: em junho passado, a Ucrânia contrabandeou 117 drones baratos para a Rússia escondidos dentro de caminhões e destruiu ou danificou cerca de 20 aeronaves estratégicas russas, incluindo bombardeiros estratégicos de longo alcance com capacidade nuclear que custam milhões de dólares.

Este ano, a Guarda Revolucionária do Irã usou drones Shahed-136 de US$ 35 mil para atacar dois data centers da Amazon Web Services, causando dezenas de milhões de dólares em prejuízos, nos Emirados Árabes Unidos (um terceiro data center da Amazon, no Bahrein, foi danificado em um ataque próximo), tirando-os do ar e interrompendo serviços bancários e outros em toda a região do Golfo Pérsico.

Anteriormente, comandantes do Hamas disseram que fabricaram pequenos foguetes usando tubulações de assentamentos israelenses abandonados, bombas israelenses não detonadas e outras munições, e até peças de um navio de guerra britânico da Primeira Guerra Mundial afundado na costa da Faixa de Gaza. Israel foi forçado a usar mísseis Patriot custando US$ 4 milhões cada para interceptá-los.

Em outras palavras, já estamos em uma nova era em que pequenas potências e pequenos grupos podem usar ferramentas da era da informação —guiadas por GPS e controladas digitalmente— para obter vantagens assimétricas.

“Sempre pensamos em poder em termos da capacidade de criar destruição em massa”, disse John Arquilla, ex-professor de análise de defesa na Escola de Pós-Graduação Naval e autor do próximo livro “Troubled American Way of War”, em uma entrevista. Em um mundo interdependente, “os muitos e os pequenos agora têm a capacidade de criar disrupção em massa no mundo físico ou virtual” —do estreito de Hormuz ao ciberespaço.

Trump imprudentemente começou esta guerra sem aliados, sem nenhum planejamento de cenários e, obviamente, sem nenhuma compreensão real dos ativos do Irã em guerra assimétrica. No entanto, seria um desastre para a região e para o mundo se o regime maligno do Irã emergir desta guerra intacto e sem reformas, porque um kit de ferramentas assimétricas ainda mais poderoso para os vilões está chegando.

Eis o que é verdadeiramente novo e perturbador: estamos rapidamente passando da era da guerra assimétrica baseada em ferramentas da era da informação que podem causar disrupção em massa para o que meu tutor de tecnologia, Craig Mundie, ex-chefe de pesquisa e estratégia da Microsoft, chama de era da guerra assimétrica baseada em “ferramentas da era da inteligência” que podem causar disrupção barata em uma escala muito maior, em qualquer lugar, sob demanda.

Esta é uma distinção muito importante. A era da informação —isto é, o período dos computadores, smartphones, internet e GPS— nos deu ferramentas que amplificam o poder e o alcance de um operador treinado. Aumentou vastamente o poder de qualquer programador, operador de drone, ladrão de ransomware, hacker, influenciador de redes sociais ou especialista em desinformação. Tornou qualquer pequena unidade mais poderosa, mas os humanos precisavam ter algum conhecimento básico para operar essas ferramentas digitais. E a intenção humana sempre as direcionava.

Na era da inteligência, agentes de inteligência artificial construídos sobre grandes modelos de linguagem —como o Claude da Anthropic, o Gemini do Google e o ChatGPT da OpenAI— agora podem ser direcionados por humanos com um único comando, e executarão autonomamente, e auto-otimizarão, ataques cibernéticos em múltiplas etapas por conta própria.

Colocando de outra forma, as ferramentas da era da informação amplificaram vastamente operadores treinados dentro de organizações, incluindo organizações terroristas. As ferramentas da era da inteligência substituem operadores treinados por agentes de IA vastamente mais inteligentes, autônomos e habilidosos, com alcance mais destrutivo a baixo custo.

Essas “capacidades da era da inteligência que podem superempoderar indivíduos, que muitos pensavam estar a 18 meses ou dois anos de distância, já estão aqui”, disse-me Mundie. “Quando a natureza de uso duplo dessas tecnologias de IA se tornar totalmente democratizada —e é para onde estamos caminhando em breve— elas apresentarão uma ameaça material a todas as sociedades desenvolvidas” por atores superempoderados “que historicamente nunca tiveram nenhuma carta para jogar”.

Em outras palavras, todo mundo com um chatbot/agente de IA potencialmente terá cartas. Como isso poderia ser? Confira uma reportagem recente do New York Times de Gabriel J.X. Dance. Ela começa assim:

“Uma noite no verão passado, o Dr. David Relman gelou diante de seu laptop quando um chatbot de IA lhe disse como planejar um massacre. Microbiologista e especialista em biossegurança da Universidade Stanford, o Dr. Relman havia sido contratado por uma empresa de inteligência artificial para testar seu produto sob pressão antes de ser lançado ao público. Naquela noite no escritório doméstico do cientista, o chatbot explicou como modificar um patógeno infame em um laboratório para que resistisse a tratamentos conhecidos. Pior, o bot descreveu em detalhes vívidos como liberar a superbactéria, identificando uma falha de segurança em um grande sistema de transporte público.”

Minha tradução: você leu muito sobre como o Irã usou drones baratos de US$ 35 dólares para fechar o estreito de Hormuz. Espere até ver como ele pode usar grandes modelos de linguagem e seus agentes de IA a um custo muito baixo.

É difícil exagerar o quão desestabilizadores esses rápidos avanços na sofisticação da IA podem se tornar, e é por isso que Mundie e eu temos argumentado há algum tempo que os Estados Unidos e a China, duas superpotências em IA, precisam descobrir como podem (e certamente vão) continuar a competir estrategicamente enquanto cooperam para neutralizar essas novas ameaças assimétricas da era da inteligência —não muito diferente do que os Estados Unidos e a União Soviética fizeram para limitar a proliferação de armas nucleares na Guerra Fria.

Caso contrário, nenhum dos dois estará seguro. Nem ninguém mais estará.



Fonte ==> Folha SP

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